sexta-feira, 29 de junho de 2007

Soneto dos cinqüent'anos.

Nos cinqüent'anos, sim, da minha vida,
Eu me encontrei sozinho, prisioneiro,
De grades não, que a humana liberdade
Não se restringe a indeciso vôo

De pássaro ferido ( e que sabemos
Dos minúsculos olhos que na sombra
Cintilam?), nem sequer seriam algemas
Constringindo os músculos do pulso

Quando os dedos, metálicos, se crispam
Em mistério de culpas e presságios,
Mas dos gritos terríveis que trazemos

Através da garganta estrangulada,
Labirinto e jardim onde fenecem
As pétalas da rosa irrevogável.

Duas vozes

Em plena madrugada, duas vozes
Vão conversando pela rua afora:
São dois homens e, neles, me comove
Irem, de leve, próximos da hora

Do trabalho, alinhavando sonhos
A viver, no dia que se inscreve
Em luz suave, posto que amanhece,
Sonhos táteis como frutos, como

A sólida pedra onde se eleve
A casa, seio onde repouse
Um rosto o seu cansaço, duas vozes

Confidentes e amigas se entrelaçam
Na cálida manhã, depois se perdem
No silêncio cantado pelos pássaros.

Soneto de fevereiro

Arquipélago de luz itinerante
Em teus olhos de insólita manhã,
Em tua voz, os pássaros secretos
Sussurram, suavíssimos, a pureza

Dos seus timbres. Através das pupilas
O raio luminoso nos atinge,
E o seu súbito reflexo afugenta
Os fantasmas perdidos que assediam

Quando a noite vem. Assim, em brasas,
Amanheço e me elevo, após, em chamas,
No fundo das meninas, cor de mel,

Dos olhos teus: é tempo de inflamar-me,
Ao sol a pino dos índigos verões,
Nas praias de fogo do nosso árdego amor.

Devesa

Como a tímida corça que se entrega,
Vens, ovelha, saltar o meu valado,
Minha devesa onde cresce o gado,
Rebanho de novíssimas estrelas.

Então, poeta, aceito o desafio
De a vida flagrar, a rosa efêmera,
No ato de se dar, fêmea no cio,
E lavro, solitário, o meu poema.

No minuto tecido de silêncios,
Envolto em um bando de metáforas,
Sou pastor de pássaros e nuvens,

Abelhas e besouros mais selvagens,
E apascento um rebanho de poemas
No campo das mais líricas avencas.

Soneto dos ventos marinheiros

Os ventos marinheiros do alto mar,
Os frios e abissais fantasmas brancos,
Sopraram nuvens túmidas no ar,
À luz azul dos lívidos relâmpagos.

Pássaros vieram, devagar,
Sobrevoando a súbita paisagem,
Pelo flanco sonâmbulo, a cantar
A mensagem dos pálidos presságios.

Todo presságio quer se revelar,
(Ao longe, como príncipe no exílio,
O pássaro ferido quer voar),

E revela-se nas chuvas invernais,
Sabendo a vinho tinto dos martírios,
Martírios com sabor de nunca mais.

Soneto da noite escura

Desespero de grito solitário,
À noite, vem, aperta-me a garganta,
Quando a sombra da treva se levanta,
Saltando como tigre sanguinário,

Estraçalhando céus imaginários
Onde estrelas cintilam, pensativas,
Irradiando lágrimas furtivas
Ao longo do seu longo itinerário.

Desespero de quando uma pantera
Agarra-me à garganta e me devora
O silêncio das horas e das eras

Onde mora a palavra mais sonora,
Desespero de quando à noite, fera,
Me dilacera para sempre, agora.

Legado

Deixo-te, meu filho, a luz do dia,
A branca luz das praias nordestinas,
Onde virgens, buscando o inesperado,
Entregam-se, sonhando, se é verão.

Lego-te, ainda, a poesia,
Como roteiro e mapa na floresta,
Onde pulse um tesouro sepultado
Nas areias do ardente coração.

A praia, o mar, a luz, a poesia,
Uma virgem com nome de Maria,
Incorruptível e pura inspiração.

Também o sentimento de poeta,
Instrumento de amor e descoberta,
Para que não seja, tua vida, em vão.

Soneto camoniano a uma pérfida senhora

Não me importa, senhora, em vosso olhar,
O reflexo de vinho traiçoeiro,
Com que dissimulais, tão devagar,
O vosso amor volúvel e aventureiro.

O vosso amor não se entrega inteiro,
É corça oblíqua sempre a se esquivar
Do caçador que, à caça do seu par,
Confessa-se, ele sim, prisioneiro.

Não me importa, senhora, essa mentira,
Se vosso falso olhar dissimulara
Que só louvor o vosso amor implora,

Pois existe que ame e quem prefira
Dilacerar a máscara da cara
E ser aquele que não ri nem chora.

Campo de avencas

No campo das mais líricas avencas
Dissimular esgares de agonia
Não o farei jamais, pois a poesia
Assume compromisso com a fúria

De seu fruto morder, o mais amargo
E a lágrima sabendo, visgo, travo,
Entravado no centro da garganta,
No sumo que ressuma das palavras.

Não somente, do fruto, sua casca,
A polpa, sobretudo a mais secreta
E venenosa, provar, áspero cacto,

Mesmo a preço da morte do poeta,
Angústia de gerânios degolados
Esvaindo-se em cores mais sangrentas.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Sextina

O cumprimento de uma dura pena
Imposta pela divindade cega
Perpetuamente bate à nossa porta
O mais terrível golpe, surdo como
A sentença que avança, passo a passo,
Branco círculo de giz à nossa volta.

Eis o ponto que não permite volta
Às primícias do amor, à leve pena
Do pássaro ferido, ébrio passo
De quem caminha pela noite cega.
No coração da tempestade como
Alcançar a soleira dessa porta?

Entretanto, forçamos essa porta,
Que se oferece sempre à nossa volta,
Mas não sabemos onde-quando-como
Flutuar na leveza dessa pena,
Sonhar a solidão da estrela cega
Pois cegos somos, cego é nosso passo.

Pelas sendas do mundo onde passo,
Passo a passo, em direção à porta,
Uma bruxa maldita, surda e cega,
Rodopia no ar, à minha volta,
Exige o cumprimento dessa pena
Que me infligiram, nem sei mesmo como.

Esse fruto de amor que mordo e como,
Pois se entrega maduro quando passo,
Traz na polpa secreta sua pena,
O íntimo veneno, o alvo, a porta,
Sobre a noite que não segrega a volta
Pois a luz do infinito ofusca e cega.

Bem se diz ser amor a morte cega,
A lâmina ferida, a foice como
O gume que se queima a nossa volta
E morde como cão o nosso passo.
Se mais altivo o muro, abre-se a porta,
Para, pluma, o cair da leve pluma.

Levanta-se à volta do meu passo,
A solidão como se fora porta
Para que cega seja a minha pena.

Canção curta

A nuvem desce da altura
Como pássaro gigante
Abrindo asas maduras
Dentro da luz gotejante.

E no ar molhado, um sino
Soluça, solene, sério,
Talvez um pobre menino
Medite nalgum mistério.

O mistério, sim, da vida,
Descendo a enxurrada cega
Onde uma folha perdida
Flutua, leve, e navega.

Sextina do amor

Eis o amor, aquele que não mente,
Mas sempre se revela como chama,
Águas derramadas, frias, soltas,
Dos vértices cerúleos, das alturas,
Em torno dos amantes, como à volta
Do que se imobiliza, pedra e planta.

Ó casto vegetal, amarga planta,
Cujo vinho puríssimo não mente,
E multiplica a sede como chama
Lançado ao vento qual pantera solta
A escalar a face das alturas
Numa espiral que sobre sempre em, volta.

Feminina figura que não volta,
Faz-se de pura geometria, planta
Desenhada nos páramos da mente,
Espiral que se consome em chamas
Lançada ao vento qual pantera solta
A galgar a vertigem das alturas.

O vento violento das alturas
Leva nuvens e tudo à sua volta,
Vai arrastando o coração, a planta,
Vai carregando o coração, a mente,
Daquele que, perdido, grita e chama,
À gôndola se agarra, não se solta.

Pois se o amor se entrega à vela solta,
Qual pássaro perdido nas alturas,
Resvalando na nuvem mais revolta,
O corpo se projeta como planta,
Na verdade do lábio que não mente,
Mas se acende na luz da sua chama.

Todos nós buscamos essa chama,
Essa adaga de luz na treva solta,
Como a língua de fogo das alturas
Que o vento vem soprando à nossa volta,
Esse fogo que dentro em nós se planta
E queima nosso peito e nossa mente.

Um pássaro se solta em nossa mente,
Como nuvem revolta de uma chama,
Atira-se às alturas, lá se planta.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

La Vecchia Signora

A velha senhora está sentada,
Na sala, junto à TV:
Assiste à novela, cochila,
Abre os olhos, boceja.

De repente, cambaleia,
Estremece, olha em torno,
E tenta assim disfarçar
O fardo da sua velhice.

Súbito, invade a sala
Um som de violoncelo,
(Vem da TV), enquanto o vento
Despenteia-lhe o cabelo.

Aí, ela esfrega os olhos:
Vê as imagens no vídeo,
Ou as sombras que emergem
Do fundo da memória?

Noventa anos, ou quase,
Nos ombros, é um tremendo peso,
Então ela adormece de vez
Envergada pela osteoporose.

O cavalo

O cavalo escoiceia a solidão do escuro,
Relincha a farejar a noite dos fascínios,
E preliba, saltando os lábios do abismo,
A risada solar do dia nascituro.

Vence léguas de espinhos, cercas vivas,
Onde as éguas se fazem pura espera
E penetra o vale úmido de chuvas
Onde se esconde a flor da primavera.

O espelho na sala

Abri a minha janela,
As asas de par em par,
O mar invadiu-me a sala,
Ficou parado no ar.

As gaivotas distantes
Deslizaram devagar
Num vôo quase rasante
Ao fundo do meu olhar.

Memória

Em silêncio, andávamos
Pelos bairros nobres,
Passeando, leves
De sermos jovens.

Leves como a luz
Do sol de agosto
Refletindo n’água
O pálido rosto,

Levíssimas aves
Nos dias serenos,
Ambos voávamos:
Éramos ingênuos.

Jardins revelavam
Ocultos segredos
E nós os tocávamos
Com a polpa dos dedos.

A gota fria
De chuva cheirosa
Chorando escorria
No talo de rosa.

Entretanto hoje
Bebemos o vinho
De um mundo que foge
Por outros caminhos.

A gota d’água

Eis o mistério de uma gota d'água
Lançada ao solo,
Gemendo nas areias, partindo-se,
Ao descer dos céus, em mil pedaços:

Ergue o seu protesto de água prisioneira
Em labirinto de múltiplos espelhos.

Ela se enraíza no futuro
E, súplice, se entrega e se liberta,
Na espiga que nasceu do grão de trigo,
Trazida, pelo pássaro, dos longes,
Para nela matar a sede.

Infância

Andando pela cidade,
Depois do vento e da chuva,
Quando a ramagem das árvores
Tem aparência de nuvem,

Às vezes, súbito, páro
Como se fora criança
E pergunto para um pássaro:
- Onde ficou minha infância?

No dia mais solitário
O passarinho não responde,
Porém, símbolo e mensagem,
Bate as asas para longe.

Idílio

O verde mais profundo deste pasto
Onde o gado se esconde
Cintila no ar sua pureza,
A pureza de um gesto de renúncia.

O vento desalinha os meus cabelos
E os altos capins se curvam em reverência
A meu estar, menino, entre os relâmpagos
Do sonho, transportado
Ao puríssimo azul da longe infância
No galope ligeiro do cavalo.

Paisagem cacaueira

A paisagem é como sonho,
Sem lado, fundo, espessura,
Acesa na luz do sol
Onde o menino respira.

A paisagem é como grito
De céu aflito, de chuva,
Escorrendo pelo chão
Como remorso de nuvem.

Ó paisagem cacaueira,
Onde o sonho do menino
Esvaiu-se em tuas veias
De horizontes feridos.

Teus olhos

Teus olhos estão quebrados
Dentro da luz gotejante,
E a volúpia da chuva
Devolve o sol mais brilhante.

Dentro da fonte, teus dentes
Morderam-me num sorriso,
E os teus lábios beberam
As águas do Paraíso.

Espanto

Às vezes, penso que sou
O pomar frondoso onde
Um pássaro fala de amor
Porém ninguém lhe responde.

Cansado do próprio canto,
Logo o pássaro se cala,
E pelos flancos do espanto
Só o silêncio resvala.

Lembras?

Lembras, amiga, do parque vespertino,
Onde os pássaros, nos altos eucaliptos,
Bem-nos-viam e, rindo, revelavam
Nossos beijos na luz crepuscular?

A tarde era cinzenta, mas havia
Uma luz verdejante a nos guiar.
Uma vez houve o toque inesperado
Em teu seio
E a surpresa do êxtase no ar.

Lembras?

A rosa

A flor que, leve, se inclina,
Não a vês, tocas, nem sentes,
Não a colhes do ramo pendente,
Nem, perdulário, a respiras.

Essa flor é a vida, efêmera,
Na urgência de ser entrega,
Pois é breve a primavera,
E não a vês, juventude cega.

Paisagem campestre

O verde-negro do bosque
Desce a colina e esparrama-se.
Ergue-se, soberbo, o jequitibá.

O céu tem reflexos dourados:
O sol renasce após o temporal
E a sua luz, molhada, tem uma transparência de sonho.

Longe, alguém contempla roças de cacau:
Seus olhos se perdem na linha do horizonte.
Adivinha-se, em seu peito,
O coração, passarinheiro.

Ao deslizar entre suas margens;
O rio repica as violas do amor,
Enquanto o chifre dos bois
Fere, de morte, o coração da paisagem.

Canção dos cacaueiros

Os cacaueiros da infância,
Felizes de produzirem
Frutos, até às raízes,
Sempre os amei, os cacaueiros.

Úmidos, no inverno,
E, no verão, ardentes,
Agitavam em suas hastes
As cores do arco-íris.

Depois, fibra a fibra, teciam
O sonho maior das crianças
Com o aroma das amêndoas
E o sabor do chocolate.

Inverno paulistano

Um céu encardido
De césio e de estrôncio
Escarra nos homens.

Chuvas sulfúreas
E ácidas desabam
Em suas cabeças.

Nasce, tecida
De arame farpado
Em torno da vida,

A escura manhã
De espesso alcatrão,
A escorrer, feroz,

No chão putrefato
Dos mortos de ontem
Que agora se erguem

Dos lençóis manchados
De gosma e salsugem
Das noites insones.

A vaca

Muge a vaca, o dia inteiro,
Junto ao curral,
Contemplando os horizontes
De arame farpado.
Não compreende que o bezerro morreu.
Rumina, inquieta,
Os talos de capim
E seu úbere se enche
De leite inútil
Para o filho ausente.
Acaricio-a
E como consolo
Indago-lhe o que sente.
Ela olha longe,
Um olhar de saudade
Como que procura
E mais alto muge
- Onde, onde, onde -
Como quem, pergunta.
Mas ninguém responde.

Longe

Longe,
Além das montanhas azuis,
No país das máquinas triunfantes,
Lá está o amor,
Perdido para sempre,
Entre relâmpagos de prata
E o trovão trepidante dos motores.

Aqui, olhando gaivotas,
Entre rochedo e mar,
Perambulo sobre as areias inúteis,
E, como companhia,
Tenho apenas uma sombra obliqua,
A minha,
Ao cair da tarde.

Depois anoitece,
A lua solitária escala
As altíssimas torres do céu
Cheio de nuvens,
Iluminando-as.

E o vento da noite,
Uivando como o lobo das estepes,
Arrasta as folhas amarelas,
Do outono,
E me leva com elas.

A matéria do sonho

Abre-te, senha, Sésamo, do sonho,
Resgata-me um perfil de cacaueiros,
A flora desse trevo derradeiro,
Quatro folhas na palha em que me ponho.

Eu quero atravessar os teus umbrais
De palavras abertas como chagas
E o prazer de fruí-las mais amargas
Como quem parte para nunca mais.

Protegidos nos tufos da beleza,
Nos teus lábios ocultos, eu me ponho
A procurar o ninho das surpresas
Onde repousa a pétala do sonho.

A tua longa véspera cintila
Nos teus olhos de pássaro ferido
E a tua voz é pura e cristalina
Como beijo na concha dos ouvidos.

No ventre do teu sonho estamos nus,
E vejo teu segredo de menina,
Relâmpago na treva, tu sorris,
Teu sorriso no escuro me ilumina.

No verde pasto

No vasto capinzal do verde pasto,
Os cavalos se escondem,
Confundidos
Com as sombras da tarde.

Parecem animais mitológicos,
Seres alados, centauros,
E cintilam no ar azul,
Suas crinas, como pássaros.

Olham de lado, inocentes,
Como os canários da infância,
Inclinando a cabeça
De perfil, contra o tempo.

E repentinos, relincham,
Garbosos como guerreiros
Às vésperas da batalha.

Depois, andam, lentamente,
Com requinte aristocrático,
Nobre animal, o cavalo.

Poema do Rio Salgado.

Nas areias da Bahia
Onde Deus e o Diabo,
Onde a boca do Sertão
Entreabrindo seus lábios,

Onde a garganta mais funda,
O dente mais afiado,
Desfiladeiros e cañyons,
Entre rochedos mais altos,

Uma língua de água pura,
Um filete iluminado,
Escorregando entre pedras,
Pátria de ásperos cactos,

Arrastando-se, serpente,
Pele e osso, de tão magro,
A principio adolescente,
Medroso, falando baixo,

Depois, bem mais orgulhoso,
Bem mais forte que riacho,
Agora dentro da mata,
Atravessando outros pastos,

Não mais lírico soprano,
Porém tenor, rouco e grave,
Falando grosso, adiante,
Mais adiante, zangado,

Para trás deixa a poeira
Que leves ventos levaram,
(Ai que saudades da areia
Pelas estradas de barro)

Eis que chega ao Cachoeira
Onde um homem solitário
Medita no seu destino
De se perder no mar alto,

Aqui onde é tanta a cheia
Arrebentando-lhe as margens,
(Nestas terras cacaueiras
As chuvas são mais selvagens),

Que ele, o mais transparente,
Fica todo enferrujado,
Como sangue que escorresse
Na terra que o fez Salgado.

Itabuna Revisitada

Às vezes me pergunto: que cidade
Essa em que vivo, lívido e noturno,
Em becos sem saída que a outros becos
Dão em jogos de múltiplos espelhos,
como sôbolos rios dão no mar?

Às vezes me demando: onde, Ariadne,
O teu fio de cabelo como teia?
Numa esquina do tempo e da memória,
Conduzindo meu passo em labirintos,
Tocaia de terríveis minotauros?

Cidadela de pedras e de muros,
Onde o musgo se agarra como náufrago,
Em silêncio de estátuas degoladas,
Decapitando o grito das buzinas,
Que emudeceram o cântico dos pássaros.

Cidadela por onde, inda menino,
Caminhei tuas ruas solitárias,
Alamedas de plátanos alados,
Em céu de brigadeiro, onde voávamos,
Em décadas de andá-las e perder-me
No dédalo que leva ao meu destino,
Até chegar, barbudo viandante,
Ao coração do teu Mercado Persa
De suores e sangue derramados.

Cidadela irreal e dividida
Pela fúria dos teus risos ferozes,
Pelos silêncios tão expectantes
Que às vezes se revelam em tuas vozes,
Divididas, na tua geografia,
Por um rio coberto de folhagem,
Que, na seca, revela-se esqueleto
de pedras e de úlceras abertas,
Mas, na cheia, cobre-se com o mênstruo
Das águas barrentas e selvagens,
Sangrando, fêmea, em direção do mar.

Estás, hoje, ferida, sim, de morte,
Por um beijo de amor que se contorce,
Tuas raízes agitam-se na brisa,
Mas não encontram onde se agarrar,
Frutos de ouro inclinam-se na sombra,
Feridos por estranhos personagens
Que apunhalaram o céu, seres do ar.

Agora em mim opera-se uma dúvida,
Na colheita das tuas oferendas,
Indiferente estou aos teus relâmpagos
Azuis e ao trovão dos teus motores,
Pois os passos da morte te perseguem
Os calcanhares da vida, o tempo inteiro,
Sol a sol, mês a mês, ano a ano,
Como, ao vento de abril, as folhas de outono,
Caem, secas, do velhos cacaueiros.

Tua vida

A tua vida
Aberta em bandas
Como uma fruta
Partida ao meio,
Passada pelo
Fio de uma faca,
Ao meio-dia
De sol a pino,
Entregou-se
Nua e suada.

O sol em brasa
Do teu olhar
Preside a luz
Das tuas alfaias,
As horas rangem
As molas tremem
Como um relógio
Enferrujado.

O tempo salta,
O dia estala,
Como espoleta
Dentro da bala,
Não há saída,
Só há o murmúrio
Dos teus arroios,
Tão só o estigma
Da tua injúria,
Somente o grito
aflito
De quem, ferido
Dentro do peito,
Logo se cala.

Com os olhos duros
De lividez,
Indiferente
Ao que arrecadas
Em teus pomares
Imponderáveis,
Olhas o dia
Que se ilumina
Como uma lâmina
De lucidez
Intolerável.

Os comedores de acarajé

Diante do altar de enigmáticas Sibilas,
Os comedores de acarajé
Reúnem-se de pé, em ritual sagrado.
Degustam divinas iguarias,
Moldadas em gesto de magia
Na concha das mãos morenas:
O manjar de cada dia,
Aberto em bandas, pleno de crustáceos,
Aspergido no molho das pimentas,
Perfumado no aroma dos azeites,
Enche-lhes, o corpo, de vigor,
E, o espírito, de alegria.
Os seus olhos cintilam, comensais.
Explode no palato a luz do céu.
Eis o tributo que prestam
Aos mitos e deuses da Bahia.

Escuta

Escuta o murmúrio do vento
Rumorejando nas árvores
Nas noites de chuva:
Não existe verdade além da poesia.

Escuta e pensa
Nos momentos em que traíste,
Abandonaste a companheira,
Procurando tesouros insepultos
Noutras areias.

Escuta, pensa, e retorna,
À praia em que descobriste,
Adolescente,
Os olhos exclamativos do amor.

Canção de exílio

Não tenho pressa, não, podeis passar
Na urgência de abrir vosso caminho,
Pois prefiro seguir bem devagar
E degustar meu cálice de vinho.

Minha busca de sonho e de carinho
Venha agora, levíssima, no ar,
Como se fora ferido passarinho
No exílio de não saber voar.

Lábios

Lábios,
Pequenos e grandes
Lábios...

Eles são
A pedra de toque
Do amor.

Aceitam ou repelem
Teu sal,
Teu gosto animal.

Dentro, a lúbrica
Língua ilumina
A boca, e cintila.

Cansados, depois,
Dos beijos mordentes,
Entregam-se
Ao puro silêncio

Às vezes

Às vezes, a Poesia
Me visita:

A pena desliza
A esmo, sonâmbula,
Sem direção,
Arrastada pelo vento,
Como folha de outono
Em noite de chuva.

E o vento varre a vida
Em busca dos sonhos.

Verão

Mais uma vez o verão
Da tua boca me persegue:
Sinto-o no teu hálito
Quente,
No gosto de pitanga
Esmagada entre os dentes,
Escorrendo seiva,
Esvaindo sangue,
E um aroma de sol
No teu rosto moreno.
E o fogo
Que me queima, o fogo
Das manhãs azuis
Como o azul de uma chama
Nos teus lábios serenos

domingo, 24 de junho de 2007

The end of the affair

Não escuto senão esse murmúrio
De folhas, quando, tarde, o vento sopra,
E um pássaro qualquer, humilde e sem voz,
Vem visitar o meu secreto jardim.

Agora só me resta conversar
Com o pálido fantasma que(ninguém) ficou
Para todo o jamais,
Pois meus lábios selaram-se para sempre
E, mudo, o meu amor indiferente jaz.

Solução Final

Por que
Buscar
O amor
Perdido?

Deixa-o,
Longe,
Esquecido,
Deixa-o...

Prelúdio

É verão,
tempo de fúrias:
A serpente venenosa
Arde na sombra da tarde,
O cavalo relincha, repentino,
Ergue as patas no ar.

Mordo-te os lábios para que não grites,
Aspiro o áspero perfume de ervas
No tufo nascido em teu monte,
E, Vênus, desabas, ferida:
Escorre nos grandes lábios
O leite espesso da vida.

Ainda uma vez

Éramos, uma vez mais,
A caminhar, levíssimos, na praia.
Em silêncio,
Nossas sombras nos seguiam,
Oblíquas,
Projetadas na areia.
Observando-as,
Estremeci de alegria,
Ao reconhecer a silhueta
Dos jovens que nós fôramos
Um dia.
Ardia o sol em nossa pele acesa,
A ver se recordávamos
Os mais quentes verões do nosso amor.

Janeiro

Um dia de janeiro, árdego e febril,
Desliza sua luz dourada sobre as nuvens,
Irisada ampulheta onde o sol do verão
Destila o tempo adormecido nas areias.

Recostado na praia, entre o rochedo e o mar,
Junto à fúria das ondas e ao grito das gaivotas,
Depois do por-do-sol em países ignorados
Onde as frutas se fendem ao furor das fomes,
Assisto ao revérbero de luz crepuscular,
Numa gota salgada a te escorrer dos flancos,
Espuma do mar talvez, talvez da carne.

O espelho

As águas correntes
Do espelho
Consigo levaram
As imagens inúmeras
E sucessivas
Do meu rosto.

E o meu rosto,
Viajor compulsório,
Fiel ao roteiro
Previsto
Pelos Deuses,
Tão lentamente
Descia
Nas águas revoltas,
Que nem me dei conta
Da estranha viagem.

Porém, certo dia,
Estilhaçaram-se
As águas selvagens
Do espelho,
E, cheio de mágoa,
Catei os pedaços
Do meu rosto,
Colei os cacos
Velhos e gastos.

Neles eu via,
Sob muitos ângulos,
Com olhos perplexos,
Minhas lágrimas nuas,
Nuas como a verdade
Caída no poço
De uma gota d'água
E jazendo no fundo
Das minhas pupilas.

Saída de emergência

Existem aqueles amigos,
Malandros e tagarelas,
Que mais bebem e se embriagam,
Mais degustam e se divertem,

Defendem as causas justas,
Discursam, elevam brindes,
E são bem mais engraçados
Do que as mademoiselles,

Porém só pagam sua parte
Da Dolorosa, em espécie,
Com a sua presença física,
Para gozo dos convivas.

Agem como as mulheres,
Que assim também se oferecem,
Mas ao notarem o amargor
Do cálice que se avizinha,

Como crianças dengosas,
Acusam dor na bexiga,
E correm ao water closet,
Para dar uma mijadinha.

Olhei

Olhei dentro dos espelhos,
Mergulhei fundo nos lagos,
Contemplei tuas pupilas,
Mirei dentro dos teus olhos
Como um campo de papoulas.

E vi as águas revoltas,
Os mares tempestuosos,
No céu escuro as gaivotas
Soltavam gritos agudos.

As nuvens no parco dia,
Enlouqueciam os sismógrafos
O vento arrastava os barcos
Para o fundo dos abismos.
Eram teus olhos dizendo
De adeuses e despedidas.

Por isso ceguei teus olhos,
Furei as tuas pupilas,
Enfiei finas agulhas
Nas tuas pobres meninas,
E dessas duas feridas
Uma brancura de neve
Invadiu a tua vida.

A primeira manhã

A manhã renasceu, de folha nova,
Com borrifos de orvalho,
Sorrindo num raio de sol,
Como uma rosa no galho.

Era a primeira manhã da primavera.

Pastoral

Laborioso labrego,
Partes, de casa, cedo,
Ainda rumorosa
De pássaros, a manhã.

Depositas o grão,
Verde moeda,
No coração da terra,
Teu mealheiro.

Semeias tubérculos
E à tarde retornas,
Pródigo de sonhos,
Com o sol a tiracolo. .

Persuasão

Admito que os teus lábios
Têm poder de convencimento,
Quando usas o argumento
Irrefutável do impacto,

Do grito e também da fúria
De beber teu próprio beijo
Diante da fruta madura
Para gozo do teu desejo.

Reconheço, em tua boca,
A palavra que me enleia,
Quando diz a coisa louca
De se achar sempre cheia

De apetites e fomes
E de carências estranhas,
Do sal da terra que amanhas
No corpo viril do teu homem.

E que promessas, que mundo
De nudez em carne e osso
Quando vais ao mais profundo
À procura do caroço.

Quando, no último ato,
Entre lágrimas e risos,
Me levas estupefato
Às portas do paraíso.

Advertência

Cala-te:
Se abres a boca
O outro fala,
E mente.

O outro:
O louco,
O mentiroso,
Tu mesmo,
A esmo.

Cuidado, uma só palavra.
E tudo porás a perder,
Pássaros morrerão
Sem o menor motivo
Senão o de estarem vivos.

Cala-te,
Antes que tarde:
Só o silêncio
Diz a verdade.

Mudez

Eis um grito de sol na tarde lenta.

Avaro,
Esmago-o entre os dentes,
Pois o tempo surdo
Não merece a palavra do poeta.

Baste-lhe o silêncio.

Feira

Na feira da vida,
Tudo tem seu preço,
Mesmo o amor.

Aliás, por este,
Pagarás mais caro
Que outro produto.

Pagarás com lágrimas
De sangue,
E suor do rosto.

Pagarás os beijos
De Judas
Com juros de argentário.

Pagarás teu gozo,
Em dinheiro à vista,
ou no Cartão, a prazo.

Mulher

Mulher, de face
Múltipla, renascida
Em campo cirúrgico
De brancura.

Face múltipla: de frente,
A ingênua adolescente
Que, súbito, amadurece,
Quando vista de perfil.

Mulher esculpida a talhe
De lâmina acesa na carne,
Onde o escultor de alvas vestes
Em sonho anestésico arde:

O sonho das formas puras
Que os espíritos contemplam
Somente se amarem, pois
O Belo é sua procura.

Mulher de nariz feliz
Feito de toque sutil,
Como ficou surpreendente
Teu recente supercílio.

Teus seios se levantaram
Como dunas nas areias,
Revelando ao sol nascente
O que na sombra vivia.

Teus lábios, antes tão finos,
Tornaram-se-me carnudos,
Abriram-me o apetite,
Tomo-os nos meus, e os mordo.

Ai, que delgada cintura,
Manejada a bisturi,
Ai panturrilhas e glúteos,
Todos, altivos, de pé.

Necessito os teus ardis,
Eu preciso de ilusões,
Quem não se enfeita hoje em dia
Almoça o osso dos cães.

Embriaga-me em perfume,
Ofusca-me na tua cor,
Para completar, me engana,
Me chama de ‘teu amor’.

sábado, 23 de junho de 2007

Abismo e Silêncio

Eis, ao longe, o pássaro pairando,
O pássaro, tão só, voando em círculos,
Tão longe flutuando sem destino,
Senão o de perder-se nas alturas,
Entre abismo e silêncio, sem memória.

Eis a luz diáfana do céu,
Escorrendo no ar, se derramando,
A dissolver as sombras que se escondem
Nas estranhas do mundo.

Eis o verão: a luz solar
Serpenteia no ar acidulado,
Refletindo-se nas águas da manhã
Onde as cores do dia se represam.

Espelho

Sei agora que somos o reflexo
Um do outro, somente e nada mais,
O espelho sutil, claro e convexo,
Pois no outro é que vemos nossa face,
Por isso quando estás estou conexo
E me sinto vazio quando vais.

Marinha

A musica vem, logo me alberga
A imagem do céu de brigadeiro,
E mais abaixo o mar, onde se perdem
Em horizontes azuis as caravelas.

Nelas viajo em busca do mistério,
Não de viver, porém de imaginar
As espumas nascidas na manhã
Que gaivotas nunca celebraram.

Oferta

Eu vos oferto, sim, minhas palavras,
O reflexo de luz de cor morena,
No espelho convexo de lavras,
Incidindo nas páginas serenas,

Bem sabemos que são mentira pura
Se lançadas no peito do papel
Pois prometem os píncaros do céu
Mas entregam somente a terra dura.

O viajante

Infeliz quem busca
Tocar o horizonte,
Tolo quem deseja
A pureza do sonho
(Oculto)
No coração da distância.

Ao longo da viagem,
O horizonte recua
Se o viajante avança.

Do teu corpo

Do teu corpo que amei nada restou nesta praia,
Nem mesmo a marca dos teus pés no chão.

Os ventos, ciumentos, apagaram,
No lençol de areia,
A curva do teu seio esponsalício.

Depois, as águas subiram
Do fundo dos abismos,
Espumantes de iodo e cloro,
Brancas de cólera,
E alvejaram de vez o sal
De nossa nudez de cristal.

Só restou o irrisório entre o rochedo e o mar.

Soneto do corpo inabordável

O corpo se abandona, entrecortado
De penínsulas, baías, precipícios,
Entrega-se aos abismos do mar alto
Que esponsalício se curva ante as falésias.

Quantas Ilhas Aleutas, Ilhas Virgens,
Continentes a serem possuídos,
Pelo náufrago que, salvo de si mesmo,
O mar atira às praias inacessíveis.

Inabordável aos pássaros efêmeros
Do verão febril, fende-se o corpo,
Ao vôo quase rasante das gaivotas.

Enquanto isso, entre rochedo e duna,
Perplexo de surpresas geografias,
Mordo as duras areias da paixão.

O bicho

Nunca imaginei
Eu pudesse ser
Um bicho da terra
Como outro qualquer,

Um rato, um morcego,
A humilde formiga
Que habita o planeta
Há tantos milênios.

Entretanto, hoje,
Ao achar no lixo
O besouro morto,

Penso no meu corpo
E lamento-o bicho
Aos ventos exposto.

Perfil

No teu perfil cor de rosa,
Perfil de fruta madura,
Um raio de luz escorre
Dentro da gota de chuva

E sorridente cintila
Ilumina a face amarga
Como a trêmula estrela
No interior de uma lágrima.

Lembrança de Van Gogh

Hoje, quando olhei,
No fundo do espelho,
Detestei
A imagem refletida:
Havia um excesso qualquer
Em minha vida.

Trago-te por isso,
Como prova de amor,
Esta humilde lembrança,
Envolta num trapo
Sujo de sangue.

Soneto escrito no ar

O rosto oblongo
Nasce na memória
Como o sol floresce
Na aurora boreal.

Na pura lembrança
A salamandra volátil
Do riso escarlate
Acende sua chama.

A manhã emerge
À margem do tempo
E nas altas ramagens

Do plátano verde
Um pássaro livre
Espalha seu canto.

Busca

Buscar em tudo a canção,
Em qualquer gesto esquecido,
No sopro de cada aragem,
Em qualquer nuvem que passe,
Como a polpa de uma fruta
Na indumentária da casaca,
Puro mistério e silêncio,
Revestidos de palavras.

Poética

I

A poesia
É relâmpago azul
Em céu de tempestade.

Poeta,
Agarra o relâmpago,
Antes que se apague!


II

Seja teu verso claro como espelho,
Iluminado pelo sol reflexo:
Nele amanheça
O dia eterno de luz silenciosa
E pedras floresçam
Nas sombras imóveis.

III

Fazer, de tudo, a canção:
Dessa trama, dessa teia,
Em que súbito desperto
E me vejo em terra alheia,

E me dirijo ao deserto
Em busca de um grão de areia
Para que a vida se converta
Com força de lua cheia

Pois a pura poesia
É como ponte na aldeia
Saltando fossos, castelos,
Catapultando as ameias,

Derrubando as altas torres
Onde se escondem cadeias,
-A poesia é tão forte
E não há quem nela creia –

O poema não tem logro,
O poema não tem peia,
É pura gota de sangue
Fluindo dentro da veia.

Terra

Eis a terra, íntima, do sítio
Onde me encontro só e indiferente
Ao líquido murmúrio que se perde
Entre as pedras do tempo,
A terra nua, úmida de chuvas,
Inocente como o jardineiro
Que a junca de flores com seus dedos cálidos
E à noite, tonto de suas cores,
Dorme, somente, sem pensar em nada,
A terra virgem como o ventre inviolado
À espera de límpidas sementes
Que pássaros espalhem num sonho de colheitas,
Será minha, essa terra, ou serei dela?

Equestre

Eis o cavalo, altiva arquitetura,
De carne rubra e casco violento,
A sustentar-se na musculatura,
Elástica, sólida, tensa,
Lançado contra o vento das alturas.

Salta, vertiginoso,
Os abismos do tempo,
Esbanjando a energia dos relâmpagos,
Farejando o cio das potrancas desabrochadas
Para as ardências do sangue.
Depois, celebra, nitrindo, os incêndios do verão.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Beijo italiano

Estou triste e procuro tua boca
E dentro dela a máxima nudez
De tua lingua embriagada e louca,
Testemunho de amor que tu me entregas
Quando se calam todas as palavras.

Ardência

Ardência do verão na pele acesa,
Ilumina-me o sol com suas chamas,
O gume de suas facas,
O lume de suas escamas
-Diamante da eterna adolescência.

Chuva

Molha, chuva, os meus campos ingratos,
Que me tornaram as flores infelizes,
Caídas a canminho, quase frutos,
No pó inútil e limpo de raízes.

Com a lavra de águas e de ventos,
Lava, chuva, os meus domínios cegos,
Territórios feridos pelo fogo
Onde ardem meus loucos pensamentos.

O embuçado

Quem és tu que dentro em mim te atreves
A queimar-te em meu peito feito brasa,
Mas depois te dissolves como neve
Quando volto sozinho para casa?

Quando olho, só vejo o vento breve
Embuçado na luz que os olhos vaza,
Agitando no ar as suas asas,
Asa suja de sangue, asa que escreve.

sábado, 16 de junho de 2007

Canção baiana

Dá-me o teu corpo em troca do meu.

A faca derrama sangue e dor
Mas a dívida é paga.
O sangue escorre sobre a terra
Mas a chuva o lava.
O corpo fica torto sem querer
Mas o coveiro o enterra.

Para que serve um corpo senão para morrer?

Canção da intimidade

Somente se me recolho
A poesia me encontra:
Pousados sobre meus ombros,
Pássaros cantam.

Dissolve-se a sombra
Aos pés dos símbolos:
Fabrico estrelas,
Desde menino.

Ai, deixa-me só,
Com meu destino:
Poesia, lúcida
Invenção da vida.

Canção de inverno

Estranho lago de face pensativa,
Lavado pelas chuvas do inverno.

Árvores altas, folhas tão esquivas,
Cântico de pássaros longínquos.

Dentro d'água fria, os peixes dormem,
E sonham com os seus olhos abertos.

Passos perdidos, coração deserto.
Meu amor, por que me abandonaste?

Canção da gaivota

Voa, gaivota,
Ave cerúlea,
Marinheiro pássaro.

Traz-me um pedaço
Dos longes: sargaços
No bico, alvíssaras.

Meu coração anseia
Por qualquer notícia.

Canção das coisas

Quando a noite se avoluma
Em sua esfera de trevas
As coisas dormem na sombra
Debruçadas, pensas, quietas.

São as coisas, desprovidas
De sangue e pensamento,
Sólido cubo inclinado
Na permanência do tempo.

Só os homens se desgastam,
Promontórios derruídos,
O coração que hoje bate
Amanhã perde seu ritmo.

Canção dos cavalos brancos

Ai, vinde, cavalos brancos,
Consumir vossas jornadas
Nos pastos do pensamento.

Eriçai vossas crinas,
Alvos cavalos ao vento,
Para que eu possa montá-los.

Aqui demoro, cavaleiro
Do impossível, num vão
Do tempo, à vossa espera.

Voai, potros selvagens,
Carregai-me aos vossos longes,
Galopando no invisível.

Canção do amor

Teus lábios sabem a pêssego maduro,
Presságios sumarentos, saibro e desafio
À minha fome de loucas mordeduras.

És o amor, o perigoso amor, aventureiro
De raízes ao vento, translúcida história
Em novíssimas formas renascida.

Contemplo-te o rosto e o ventre,
Dorso e ilharga, e desejo e viajo
Através da memória transparente.

E minha língua pousa como pétala
Esbraseada, nudez e cicatriz,
Na tua boca ferida de palavras.

Canção do encontro

Naquela hora branca e entreaberta
A flutuar como flor no rio do tempo,

Pus a mão no coração do mundo
E encontrei o fio da minha existência,

Mas estava tão só que nem sentia
A presença do meu ser dentro de mim,

Até que tua mão tocou na minha mão,
Como pássaro que voa para a eternidade.

Canção noturna

Longa madrugada,
Persigo a miragem
Da noite amarga.

Ai se pudesse
Beber, nas estrelas,
Uma gota de lágrimas.

Canção da amiga ausente

A sombra da minha amiga,
Furtiva, passou por m mim.
Eu estava adormecido
Num resto de sonho extinto,
Fechado em mim como concha.

Ela sorriu ao meu sono,
Gesticulou indecisa,
E fugiu por um vão do destino,
Por trás do seu gesto recuado.

Vi a fuga de sua silhueta
E tentei acenar-lhe adeus,
Mas minhas mãos ficaram paradas
Como se fosse de pedra

Canção do olvido

Tua mão agoniza
Com as asas quebradas.
Teus olhos tão longe,
Janelas fechadas.
Palavras de vento,
Signos de espumas,
Levaram o sentido
Que tinha teu nome.
Agora é diverso
O sabor dos teus olhos
Na boca vazia:
O gosto de sal
Dos mares amargos
Num grito de praias
Entre os lábios frios.
Agora é bem tarde
Sonhar o sonhado.
Deixa que o vento
Apague os teus rastros
Nas minhas areias.

Cançãozinha

Amor que cai
Na gente

Um dia se vai
Da gente

E deixa um ai
Na gente.

Canção das andorinhas

Andorinhas, andorinhas,
Com suas túnicas pretas,
Suas roupas de viúva.

Ai tempestades e chuvas
De asas negras, setas,
No fundo abismo do dia.

Que mãos ocultas distendem
As cordas tensas do arco
Que contra mim vos disparam?

E por que vindes, andorinhas,
Sibilantes de ameaças?
Bem sei que sou vosso alvo.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Canção de setembro

Pelo canto do canário,
Vassalo das alvoradas,
Sigo o destino do rio.

E despido nesse espelho,
Eu me contemplo, desperto
Do sono em que me esfacelo.

Não tenho ouro nem prata,
Nem o vôo do besouro,
Nem a canção da cigarra,

Mas ao meu amor, por sê-lo,
Dou-lhe a mão, dou-lhe o sorriso,
A voz, o olhar, o cabelo.

Canção do amor verdadeiro

Que teu nome se recolha
Como ostra que se encolhe
Numa escarpa da memória,

Que se dissolve em silêncio,
Lúcido peixe, cativo
De lábios invioláveis.

Saberei guardá-lo
De qualquer raio de sol
No mais íntimo agasalho.

Porém que tua presença
Palpite nos meus momentos
Como úmida presença.

Serás o amor verdadeiro.
Viverei quieto, sorvendo
O sumo do teu mistério.

Soneto I

A noite cai como um constrangimento
Sobre a fúria das cores amarelas,
A noite carregada pelo vento,
Perseguida por tímidas estrelas.

Ei-la, a hora da íntima procela,
Ei-la, a hora do íntimo lamento,
Derruído mastro, rota vela,
Morte, naufrágio, esquecimento.

A noite reconquista seu caminho
Na jaula de escuros horizontes,
Embriagada no seu próprio vinho:

Esse silêncio, essa rouca voz,
Estrangulando na minha garganta
O metal da palavra mais feroz.

Soneto II

Flutua em mim o verso adolescente,
Presságio do amor mal revelado,
Sangrando como um sol assassinado
Num desvão da memória, antigamente.

Ouve-se um sussurro intermitente,
Um canto de sereias, disfarçado
Em espuma e sal, gume afiado,
Ferindo-se a si mesmo, gume ardente.

Bem que o adolescente cultivava
Seu destino de fogo e sua lava,
Seus ferozes brinquedos de menino.

Bem lhe doía o coração, e ainda...
- ó gaveta de lâminas infindas -
Como se fosse o badalar de um sino.

Soneto III

Uma linguagem pura, um diamante
Cortando o vidro que nos ameaça,
Magia de uma lua cintilante
Acendendo o ardor da noite escassa.

Uma palavra dura e penetrante
Como golpe de punho na vidraça,
Um pedaço de sol que se espedaça
E queima nosso olhar inquietante.

O poema é aquilo que revela,
Em cada fruto, o favo corrompido,
Em cada face, seu perfil de estrela.

Daí amar nudez e transparência
Com que te vestes, poesia, símbolo,
Captura de nuvens e ausências.

Soneto IV

Como aranha fiando a sua teia
Num filete da negra anatomia,
No espaço que nega um alicerce,
O tempo tecemos, (ó templo

Dos demônios!) e vestimos
A mais severa trama e absurda,
Envoltos pelos dias, pelas asas
Dos sábados, pelo ventre do abismo,

E, presas dessa garra que se eriça,
Anêmonas e búzios, flutuamos
No íntimo veneno, até que os diabos

Se desesperem no clamor da hora.
Deitamo-nos, depois, dentro da terra
E negamo-nos, carniça, aos urubus.

Soneto V

Na manhã urgente de equinócio
O sonho de amor vem como as águas
Do longo rio que regressasse à fonte
De sua origem e aqui me encontrasse.

E o sonho novas formas reconhece
No tranqüilo gesto onde a poeira
Convive com a verdade passageira
De um beijo de amor que se contorce.

O amor, que se conhece efêmero,
Guarda nessa pedra suas linguagem
De agua fria: o rio é sua imagem.

E vai fluindo, grave e evanescente,
Na memoria. Ó música suave
De haver sido, um dia, adolescente

Soneto VII

Esse filho crescendo para a vida,
Como pomo pequeno e cultivado,
Amanhã será fruto sazonado
Amenizando fomes doloridas.

Amanhã erguerá o punho cerrado
Contra a face da noite proibida
Pois saberá da intima ferida
Doendo no seu peito magoado.

Úmida semente, grão de milho
Lançado em sulco dessa terra intensa,
Prenúncio de searas, esse filho.

Um dia serei pedra sobre as vigas
Do tempo, mas, no filho, permanência,
Lançando ao vento rútilas espigas.

Soneto VIII

Teus seios pensativos, Mariana,
Enfeitiçam estrelas solitárias,
Espantam o dia e sua espuma branca
Assustando a calmaria de outros mares.

Substância nascida de amor e morte,
Sorrir é a enseada que me entrega
Aos abutres que vierem, alta noite,
Estender-se em volta à tua alma.

E bebo os teus abismos inventados
Antes que alegria venha em sua fonte
Como o grito que arranco de mim mesmo,

Pois dentro do teu ventre mora o medo
E até que o amor mova a lei do cosmo
Gotejam dor meus olhos de rochedo.

Soneto IX

É tempo de salsugem e ventania,
Vejo na luz a vibração de escamas,
Cheiro de peixe e sua carne branca
Presentes nos mercados e nas ruas.

Cintila o mar a sua pele fria,
Arco-iris de águas infinitas,
E ouvem-se no ar canções malditas,
Cantadas por sereias todas nuas.

O látego de sal na minha face
Golpeia as espumas fervilhantes
E arrebenta as portas da cidade.

E adaga transparente, o claro dia
Fere-me de azul e me embriaga
De cheiro de maré e maresia.

Soneto X

Inevitável desafio, a poesia,
Necessário como o vôo do pássaro
No abismo da manhã, o fundo abismo
Que ao pássaro livre se anuncia.

Poeta é quem aceita o desafio
Insone dessas chuvas derramadas
E consome seus dias decifrando
O sentido mais íntimo das águas.

E de outros elementos, noites claras,
Lábios e seios, frutos sazonados,
Emaranhado nessa encruzilhada

De espelhos convexos, e se oferece
A cumprir o mais puro sacrifício
De ser asa plena sobre o precipício.

Soneto XI

Eu te contemplo, sim, eu te contemplo
Mergulhado no fundo desse espelho,
Nesta pedra inimiga, fero templo,
Onde bóiam os teus olhos vermelhos.

E vejo flutuando os teus cabelos
Como raízes crescendo á superfície,
Desafiando o tempo e o precipício
Das águas que te prendem sem apelo.

És o afogado, o só, o distraído,
Que de tanto velar seu próprio rosto,
Esqueceu-se de si, ficou perdido,

Num dédalo de sonhos, como o velho
Que o menino carrega, sotoposto,
Sepultado no fosso desse espelho.

Soneto XII

Sentei-me em frente para o mar fugaz,
No topo culminante do penhasco,
Salgados ventos assaltam minha face,
Atiram meus cabelos para o alto.

Voltei as costas para esta cidade
Repleta de assassinos e de putas,
Não escuto sequer suas maldades
Havidas nos embates e nas lutas.

Nada mais vulgar do que o poeta
Cantar a teia que os homens tecem
Em torno de si próprios como insetos.

Alcei-me pois a essas culminâncias
Donde solto balões e me liberto
De dores, tristezas e de ânsias.

Soneto XIII

Serei o próximo, penso comigo,
E se faz realidade o pensamento,
Caminho indeciso, olhar atento,
E sinto em cada pessoa o inimigo.

Sento-me à cedeira, medroso e lento,
E me sinto de repente sem abrigo,
Como se fosse meu último momento
E depois dom momento eu visse o perigo.

Sinto a ameaça da tesoura e do aço
Ante os meus olhos e um leve traço
De horror nasce a da lado.

Ato contínuo, um carrasco mau
Aperta-me ao pescoço um avental
Como uma forca ao condenado.

Soneto XIV

II

Cantemos a canção dentro da tarde,
Havida como núcleo do inviável,
Travestida de íntimos disfarces,
Nesta líquida cidade como aquário.

Porto dos séculos! Como eu quisera
Revisitar marulho e maresia,
Sentir na face a tua atmosfera
ensolarada e plena de carícia.

Entanto me perdi num corredor
De altos muros e estreita rua,
Cheio de musgos e de grãos de areia.

E à margem da vida, doce fruto,
Plataforma lançada sobre o tempo,
Encontro-me em estado de poesia.

Soneto XV

Como prova de amor ela vem nua
E, temerosa corça, não se encolhe,
E abre em mim o mais profundo veio,
A seiva que poreja do meu caule.

Nuvens desabam em plena primavera
E como prova de amor ela se entrega
Ao masculino espinho latejante
Aceso como estrela abandonada.

Desnuda amante, toca esse coágulo,
Cogumelo nos lábios do afogado,
As mãos vazias, o peito semeado

De punhais e facas, de navalhas.
Ela vem nua como prova de amor
E canta no meu campo de batalhas.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

As palavras

As palavras são coisas
Que o poeta inventa.

Vulcões que arrebentam,
Ilhas que rasgam
A pele das águas.

Eis a matéria com que faz
Seu mundo: as palavras.
O poeta inaugura os céus,
E voam aves.

Construção

Palavra a palavra,
Levantarei o poema,
Levarei às nuvens
Asas e silvos deixados
Por aves que me habitavam.

Pena mais pena,
Pois fazê-lo é mais
Que sonhar o vário
E deitar-se ao largo.
Porém, seu contrário.

Palavra a palavra,
Lavrarei sua áspera
Couraça de silêncio,
Mesmo que o tempo o destrua,
Como a qualquer pedra.

Elegia para meu pai

I

Caminhas na direção de um mundo insólito,
Anunciado apenas pelos sinos.

Transpareces como o espelho
De sete faces, que me reflete
E me inquieta de eternidades.

Agora que te vejo frágil como um lírio,
Te identifico.

II

Eis o momento maior
Da tua vida:
Tua hora
se anuncia.

Como virá
Esta senhora,
Esfinge ou bruxa?
Louca de amor
Ou lívida e fria?

Só tu terás a resposta.
A chave. A porta.

III

Dormirás no íntimo da terra,
Profunda raiz de um mundo incompreensível.
Se de tudo fica um pouco, como disse o poeta,
O que ficará das tuas mãos abertas?

IV

Já não te escuto a palavra quente,
O grito da garganta apaixonada.
Distendido arco.
De tua voz, do teu lábio ardente
Restou esse legado de silêncios
Modulando o cântico dos pássaros.

Itacaré

Aqui estou, coração
Marinheiro,
Ressentido de estar vivo
Neste invólucro, viveiro
Que os pássaros abandonaram.

Palavras não ouço
Nem profiro:
Prefiro a lâmina
Do silêncio ferindo os meus lábios.

O silêncio
Do teu abraço,
Haste que se enlaça no ar
Deste mar.

E me basta.

Campos

Ai vastos canaviais
Inocentes, na planura.

Sabor de cana-caiana
Esmagada entre os dentes,
Ai garapa nos meus lábios.

Raízes rasgam o ventre da terra,
Se entrelaçam, se entregam,
Enquanto os homens plantam seus gomos de mel.

Meninos, garimpai os cristais da manhã.
São léguas de verdes mares.
Ai Campos, canaviais.

Curaçá

É uma vila do agreste,
Sertão seco e acre,
Onde se cultiva a sede
Com agudo vinagre.

Onde se cultua o fogo,
O fogo dos sóis,
Corpos que se dilatam,
Almas que se contraem.

É uma vila do agreste
Onde homens encourados
Bebem lágrimas da face
E vivem dias salgados

Empenho

Organizas a vida em torno de coisas tortas,
Difíceis de defender dos lanhos do tempo.

E sonhas ainda
Conquistar a rosa
Nas grimpas da montanha.
Sonhas...

Tanto empenho em domar o mundo, e ele te confunde.
E rodopias como folha morta.

Frêmito

Que frêmito, esse
Que te assalta o espírito,
Arrepio ferindo a medula?

Seria o presságio
Da morte,
Exata companheira?

Tênue fronteira
Que se abre,
Ou asa de pássaro
Que não sabes?

Anonimato

Hoje quero ser anônimo,
Quero ser somente um homem
Esquecido do seu nome,

Hoje, pelo menos hoje,
Quero ser sem idade,
Quero ser sem passado,

Quero ser sem presente,
Preciso esquecer um instante
Que estou presente,

Preciso planejar o álibi,
O testemunho que prove
Que estou ausente,

Também não quero futuro,
Não sei que dura aventura
Na noite escura me espera,

Por isso não quero futuro,
Preciso armar uma fuga
Para escapar do futuro.

Quero somente o silêncio,
Quero um silêncio bem leve,
Quero um silêncio bem lento,

Para que na noite sem fim
Eu posa ficar imóvel
E possa esquecer de mim.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Paredes

No meio do mundo,
No meio da vida,
Um homem luta
Com suas paredes.
Bate-se em vão,
Qual pássaro cego,
E seus gestos se quebram
No fundo da noite,
Da noite profunda.
E, grave, cai
Sobre seus joelhos,
Procura através
De suas janelas,
De suas passagens
Sangrentas, secretas,
Buscar o apoio
Frágil e evanescente,
Buscar consistência
No cerne do vácuo
Que o sustenta.
Porém tateia
Seu rosto, seu peito,
E sente em si mesmo
Seu próprio bloqueio.

Descobre que o homem
É uma casa fechada
A ferros e chaves.
Como abrir as portas,
Gementes janelas,
Porões, clarabóias,
Para entrar a luz
Que ao mundo revele
Seus fundos vazios.
Como abrir o peito
E dele arrancar,
Manchado de sangue,
Um resto de riso
Na carne em pedaços?
Vencendo a fraqueza
Do seu próprio braço?

O silêncio responde:
-Quem cala consente.

E, por luas e luas,
A noite se cala
Como um caracol,
Contemplando aquele
Que tenta romper a
A dura couraça
Que o prende invisível.

Liberdade

O pássaro voa na manhã cromática,
Escalando alturas, desafiando céus.

O pássaro irmão das nuvens,
Tecendo ninhos nos mais altos cirros.

O pássaro irmão da poesia.

Belo é viver como o pássaro nas manhãs azuis,
Ébrio de abismos e distâncias.

A metade

Cabeça de Grego,
Corpo de Troiano,
Mãos de ninguém,
Queixo de quem?
Braços de alguém
Morto em naufrágio
De grito e angústia.

Esta é a forma
Em que sempre me vejo:
A revolta de ser
Eternamente o mesmo.

A mão que não leva
Nenhuma lanterna
Para que o olho veja
O avesso das coisas
Que não têm fronteiras,
Ou às vezes o sorriso
Para a fuga do tédio
Que o ódio estilhaça
Na frente do espelho.

Eis a maneira
Em que sempre me vejo.
Há a outra metade
Mas não poso dizê-la.

Não sei se é anjo.
Não sei se é demônio.

Assento

Abeberar nos dias
Sua trança de água e fogo,
Eis o que quero.

Sorver nos instantes,
Seu intenso mel,
Seio, fruta, mulher.

Afastar o cerco,
Ofertar o peito
Ao vário, qualquer.

Eis o que quero.

Poema do amor

Na torrente compassada dessa
Hora, vejo o amor vivo
Sobre o lençol
Branco.

Ouço o gemido louco
E abafado oprimido entre
O branco da cal
Das quatro paredes.

Vejo a fluência de um
Em outro e a mudança
De dois em um.

Vejo entrelaçados (porém
Um) os dois corpos
Num ritual de dança
Selvagem.

E imagino a lágrima congelada
De silêncio, caindo quente
Sobre a flor entreaberta
E quase adormecida.

Fuga

Um dia irei embora
Para longe daqui,
Para além do horizonte
De uma selva de silêncio.
Partirei sem levar nada
Na concha das mãos,
Não levarei teu sorriso
Que amanheceu a noite
Em que brilhavam estrelas
No fundo do meu coração.
Irei como um homem nu,
Um homem morto,
E o morto sempre está nu
Dentro e fora do corpo.

Desnudarei meu corpo
Da herança de beijos
Que tua boca deixou,
Desnudarei a alma
Vestidas nas cartilagens
Severas da tua imagem.
Assim embrenharei
No país do silêncio
Para que o tempo venha
E roa meu riso, meus dentes.

Um dia irei embora
Para bem longe daqui
Para bem longe de ti
Para bem perto de mim.

Cosmo

Vi milhões de estrelas na noite de cilício,
Perdidas num brilho solitário de milênios.

Havia um Leão brincando aos pés de um Cão
Que não se cansava nunca de tanta distância e tanto silêncio.

O céu cintilava como o rosto de um guerreiro que morre
E a Via-Láctea era um grande seio emquanto Andrômeda
Soava com um ruído oco de amêndoas que se chocam.

Sirius, Cassiopéia, Ursa-Maior.
Mistério fabuloso.
Meu coração ficou tão frágil e pequenino
que não pude sequer chorar.

Tudo era imenso como um grito de Deus,
Até mesma viagem luminosa da manhã que vinha do Leste
Trazendo para a pureza dos meus olhos confusa garatuja dos homens.

Árvore

Árvore antiga em campo verde,
Árvore de fim de tarde,
De folhas esquivas como pássaros
Celebrando a proeza de viver.

Arrostando séculos e dias,
Primavera, verão, outono, inverno.
O tempo que sacode e vergasta
Mais que a ventania,

Árvore de enrugado tronco
Como o corpo de um ancião,
Leio o destino dos homens
Nos teus veios e ásperas raízes.

E enquanto os raios solares
Fogem através de tua folhagem,
Saúdo a tua imagem
Como um símbolo do Eterno.

Êxtase

Porque sou homem e és mulher
E o amor veio sobre nós como o vento violento
Que atira as estrelas contra o chão,

Porque és o espelho inquebrável onde mergulho em busca da minha
[imagem queimada sobre o sol da solidão,

Estamos unidos em purpúrea fonte,
Náufragos sobrepostos,
Convergindo no rumo da manhã através de um rio de sono e perdão
E confundindo o som dos nossos corações com o silêncio das pedras
[que despertam.

Poema da Morte

A Morte floresce além da meia-noite,
Como rosa aberta à luz azul do sono,
Onde me encontro, coroado de heras,
Buscando o absurdo nas formas do amor.

A Morte, que envolve os homens e os deuses,
E afoga os cães no mais amargo mar,
Desenha-se lentamente nos ângulos da fuga
Onde caminho em busca de outros mundos.

Eu, que venho de remotos precipícios,
Faço-me em luz, no vício de sorrir,
E mergulho na vigília do meu canto,
Desfazendo-me do mal, com as duas mãos.

No entanto, como um golpe de asa,
A lâmina de um grito decepa o meu silêncio
E derrama loucos vinhos entre meus lábios,
Para que eu me embriague com a lei do tempo,

Pois, curva do adeus acesa pelos ares
Ou lilases cruzados no silencioso peito,
A rosa refratária emerge das fogueiras
E, entre sorrisos de maldade e cólera,

Semeia, à meia-noite, outros néctares,
Envenenando pássaros e abelhas,
E abre, às minhas faces, suas pétalas
Num gesto harmonioso de desejo.

Ego

Só digo de mim o que não sei
E não resguardo às manhãs.
O oposto ao verbo,ávido, escondo
No ventre de antigos precipícios,
Com minhas mãos que brincam de morrer.

Só dou de mim o que não sou
E não é senão morte.
Entrego por isso à tua fome
Meus ossos e olhos, minhas vísceras
E o sorriso que roubo dos espelhos.

Inútil reter as aves: elas voam
na liberdade do secreto vôo.
Minha solidão por isso, alegre, dou
À espada do Anjo-exterminador
Que vive dentro em mim, desconhecido.

Noturno

Eis a noite em que me perco,
Noites diárias, constantes,
Distantes dos calendários.

Ei-la que vem dissolvendo
O perfil das minhas formas
No seu avental de linho.

Ei-la subindo as escadas
Com seu vulto sobreposto
Nas escuras cartilagens,

Quando o mundo, suportando,
Vou-me deixando arrastar
Por estranhas correntezas.

Traz suas cargas de vida
Sobre o peito lacerado
Por estrelas traiçoeiras,

Traz suas cargas de morte
Suas grossas enxurradas
Que deposita em meu peito,

Com rituais de espanto
Que me dispersam em pedaços
Para longe do horizonte,

Em confluência de espasmos,
Agonias do meu corpo
Buscando acesso às manhãs.

domingo, 10 de junho de 2007

O enterro da borboleta

Imaginei duas pétalas de rosas
Levadas pela aragem,
Mas eram tuas asas buliçosas
Movendo-se na paisagem.

Estavas silenciosa:
Formigas carregavam-te na última viagem.

Soneto do sapato cambaio

O sapato, entre chapéus de palha,
Noctâmbulo, soluça à luz das velas,
(São luzes de néon) entre sandálias
Que sonham desfilar em passarelas.

Range a sola macia quando calha
Ao pé abotoar-se com fivelas,
E o sapato, em decúbito, agasalha,
Em seu ventre, as palmas amarelas

Do pé, que não mais corre nem pula,
(Perdeu a liberdade do pivete
Que vagava na praia, entre sereias)

E agora, limpíssimo de areias,
Segue preso, sem dó, pelo gasnete,
Com o elegante cadarço que o estrangula.

Um soneto ao cair da tarde

O dia exalara seu último suspiro,
O sol ficara rubro, prenhe de azinhavre.
Era outubro: a luz da primavera
Acendia o farol do tempo intacto.

Era ocre a luz atroz, cruel no seu mistério
De morrer entre sombras fugidias,
Assustados galopes de potrancas
E cavalos selvagens no crepúsculo.

Era o poente, tecido pelas asas,
Em vôo, de andorinhas e gaivotas
Jubilosas e de vozes escarninhas.

Depois foi o silêncio sobre as águas
E areias de rastros apagados
Pelo vento da noite sem memória.

Canção das coisas

Quando a noite se avoluma
Em sua esfera de trevas,
As coisas dormem na sombra,
Debruçadas, pensas, quietas.

São as coisas, desprovidas
De sangue e pensamento,
Sólido cubo inclinado
Na permanência do tempo.

Só os homens se desgastam,
Promontórios derruídos:
O coração que hoje bate
Amanhã perde seu ritmo.

Canção baiana

Dá-me teu corpo em troca do meu.

A faca vomita sangue e dor
Mas a dívida é paga.
O sangue escorre sobre a terra
Mas a chuva o lava.
O corpo fica torto sem querer
Mas o coveiro o enterra.

Para que serve um corpo senão para morrer?

Poema

Meu desejo rasgaria tua blusa,
Se as manhãs fossem negras como a noite.

Corpo exposto rolaria pelo chão,
Agasalhado no impudor da minha ânsia.

E haveria dor e grito no amanhecer,
Não brilhassem, além da névoa, sobre os olhos,
As estrelas de Deus.

sábado, 9 de junho de 2007

Aventura

O verso no reino do verbo,
Ventura escondida no escuro,
O escuro esconde o horizonte
Por trás de suas fronteiras.

Porém na secreta passagem
Há rumor de sangue e dor:
O dia combate a noite,
Com um filete de alvorada.

O Ovo de Colombo

Depois de escrito,
O poema é simples,
Quase o murmúrio de um bêbado
No meio da rua.

Entretanto, quanta fúria
É necessária, ao Poeta,
Para quebrar-lhe a casca
E pô-lo, de pé, na mesa.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Soneto do cavalo morto

Agora que estás morto e sem fronteiras,
Os limites do mundo se apagaram,
A linha do horizonte confundiu-se
Na névoa, para sempre, dos teus olhos.

No teu campo de pálidas papoulas,
Os pássaros celebram, indiferentes
Ao cadáver lavado pela chuva,
A vida a renascer numa crisálida.

Saltando os precipícios, escalaste
A crista petulante da montanha
Onde repousa o orgulho da paisagem.

Mordes agora o pó dessa ravina,
Banquete solitário de rapinas,
Ó morto, morto e só, sem homenagem.