segunda-feira, 25 de junho de 2007

Itabuna Revisitada

Às vezes me pergunto: que cidade
Essa em que vivo, lívido e noturno,
Em becos sem saída que a outros becos
Dão em jogos de múltiplos espelhos,
como sôbolos rios dão no mar?

Às vezes me demando: onde, Ariadne,
O teu fio de cabelo como teia?
Numa esquina do tempo e da memória,
Conduzindo meu passo em labirintos,
Tocaia de terríveis minotauros?

Cidadela de pedras e de muros,
Onde o musgo se agarra como náufrago,
Em silêncio de estátuas degoladas,
Decapitando o grito das buzinas,
Que emudeceram o cântico dos pássaros.

Cidadela por onde, inda menino,
Caminhei tuas ruas solitárias,
Alamedas de plátanos alados,
Em céu de brigadeiro, onde voávamos,
Em décadas de andá-las e perder-me
No dédalo que leva ao meu destino,
Até chegar, barbudo viandante,
Ao coração do teu Mercado Persa
De suores e sangue derramados.

Cidadela irreal e dividida
Pela fúria dos teus risos ferozes,
Pelos silêncios tão expectantes
Que às vezes se revelam em tuas vozes,
Divididas, na tua geografia,
Por um rio coberto de folhagem,
Que, na seca, revela-se esqueleto
de pedras e de úlceras abertas,
Mas, na cheia, cobre-se com o mênstruo
Das águas barrentas e selvagens,
Sangrando, fêmea, em direção do mar.

Estás, hoje, ferida, sim, de morte,
Por um beijo de amor que se contorce,
Tuas raízes agitam-se na brisa,
Mas não encontram onde se agarrar,
Frutos de ouro inclinam-se na sombra,
Feridos por estranhos personagens
Que apunhalaram o céu, seres do ar.

Agora em mim opera-se uma dúvida,
Na colheita das tuas oferendas,
Indiferente estou aos teus relâmpagos
Azuis e ao trovão dos teus motores,
Pois os passos da morte te perseguem
Os calcanhares da vida, o tempo inteiro,
Sol a sol, mês a mês, ano a ano,
Como, ao vento de abril, as folhas de outono,
Caem, secas, do velhos cacaueiros.

Nenhum comentário: