O cumprimento de uma dura pena
Imposta pela divindade cega
Perpetuamente bate à nossa porta
O mais terrível golpe, surdo como
A sentença que avança, passo a passo,
Branco círculo de giz à nossa volta.
Eis o ponto que não permite volta
Às primícias do amor, à leve pena
Do pássaro ferido, ébrio passo
De quem caminha pela noite cega.
No coração da tempestade como
Alcançar a soleira dessa porta?
Entretanto, forçamos essa porta,
Que se oferece sempre à nossa volta,
Mas não sabemos onde-quando-como
Flutuar na leveza dessa pena,
Sonhar a solidão da estrela cega
Pois cegos somos, cego é nosso passo.
Pelas sendas do mundo onde passo,
Passo a passo, em direção à porta,
Uma bruxa maldita, surda e cega,
Rodopia no ar, à minha volta,
Exige o cumprimento dessa pena
Que me infligiram, nem sei mesmo como.
Esse fruto de amor que mordo e como,
Pois se entrega maduro quando passo,
Traz na polpa secreta sua pena,
O íntimo veneno, o alvo, a porta,
Sobre a noite que não segrega a volta
Pois a luz do infinito ofusca e cega.
Bem se diz ser amor a morte cega,
A lâmina ferida, a foice como
O gume que se queima a nossa volta
E morde como cão o nosso passo.
Se mais altivo o muro, abre-se a porta,
Para, pluma, o cair da leve pluma.
Levanta-se à volta do meu passo,
A solidão como se fora porta
Para que cega seja a minha pena.
terça-feira, 26 de junho de 2007
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