quinta-feira, 26 de julho de 2007

Dói-me a vida

Dói-me a vida como coice de mula,
Range-me a noite como louca mola,
Há um filete de sangue na medula,
Uma foice com fome de degola.

A cadela que nunca se consola,
Uivando para a lua, late, ulula,
O cavalo que nunca se controla
Bebe o mijo das éguas, rincha e pula.

Há demônios ocultos como súcubos,
Mulheres possuídas pelos íncubos
Deixando-se varar pelas estacas,

Há uma agulha na veia mais secreta
E um reflexo de lâminas e facas
Iluminando a goela das gavetas.

As palavras

Que os lábios falam mas os corpos sentem
Sabemos todos, sim, a embriaguez,
Esse gosto de sangue e maresia
Que anima o esqueleto da linguagem.

Que mais sabemos? Nadas. Inventários
E memórias de corpos derruídos,
A casa, por exemplo, abandonada,
Onde os olhos do morto se iluminam.

Inútil essa pedra arremessada,
Essa ponte lançada sobre o tempo,
Toda armação em argamassa erguida

Tem seu quinhão de pura tempestade,
Pois somente as palavras permanecem,
E gritam pelos poros, pela carne.

Soneto do tempo do amor

No tempo quando em nós amor havia,
Nossa vida era puro sortilégio,
Em nosso peito um pássaro fremia
As asas leves. Era uma privilégio.

Caminhávamos, os dois, nas alamedas,
Observando a luz que, de passagem,
Punha laivos azuis de pura seda
Sobre o verde profundo da folhagem.

Éramos amantes, éramos felizes,
A luz maior do nosso amor ardia,
Como seiva, brotava das raízes,

Em busca das altíssimas purezas,
Sobre os verões da nossa pele acesa,
No tempo quando em nós amor havia.

Soneto de outubro

Cruzei a luz azul de uma paisagem
E aterrissei nos areais do mar,
Onde as aves do céu, ébrias de ar,
Soltam gritos com gosto de viagem.

Nuvens vão passando, devagar,
Como velas ao sol, branca miragem,
Sustentadas por ato de coragem
Dos ventos que não cessam de soprar.

Na sonora manhã de pedra e espuma,
Amantes cantam como bem-te-vis,
Anunciando a vida, leve pluma,

A ser vivida além dos rituais,
Porém, o que se cala é o que mais diz,
Como quem parte para nunca mais.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Soneto do amor da vida inteira

Cantarei teu amor, a vida inteira,
Que outro tema não vale um caracol,
Diante do tesouro descoberto,
Esquecido, entre dunas, nas areias.

Um tesouro de puras maravilhas,
Cintilavam teus olhos, esse espelho
Ávido de luz, e, contra o sol,
A pura seda em flor dos teus cabelos.

Cor e tons refletia tua pele,
Beijada pelos árdegos verões,
E as pessoas passavam indiferentes

(E cegas!) à tua intensa luz, porém
Os meus olhos pararam para vê-la,
Enquanto me doía o coração.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Anúncio

Tens no rosto as cores de um dia de verão,
E teu sorriso cintila como súbito arco-iris,
Anunciando o céu de inúmeras surpresas,
Estranha luz do sol logo após o temporal.

Esquiva luz, após o longo dia de chuva,
Em que, abismado, sonhei seus vários matizes,
Ouvindo longe o cântico dos pássaros efêmeros,
Contemplando o perfil do meu perdido amor.

Às vezes, o vento do cabo das tormentas
Revolve águas profundas no fundo dos lagos,
E rictus de angústia se encrespam em tua face.

Por isso no exílio eu me quedo absorto,
No álgido inverno onde não cantam pássaros,
A terrível estação dos passarinhos mortos.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Testemunho

Invoco teu amor por testemunho,
Tua rosa molhada pelo orvalho,
Pelo pólen tão leve do meu talo
Onde a carne renasce irmã do sonho.

A curva do teu ventre como vale
Circundado por altos Pireneus,
Precipícios que pássaros escalam
Num vôo sinuoso para os céus.

Invoco, mais ainda, o sortilégio
Dos lábios desenhando sobre a pele
A forma inaugural do próprio beijo,

Pois se tudo é palavra, compromisso,
Teu grito na savana me revela
A certeza carnal de que estou vivo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Soneto da laranja

És fruta bem feminina
Pois te ofereces madura
Quando o sumo se adivinha
Dentro da carnadura.

Se despes a casca
Teus seios se insinuam,
Tuas águas se derramam
Como se estivesses nua.

Germinas a luz do sol
Dentro das tuas fibras
Pois, se te espremem, as cores

Escorrem sobre a língua,
Os lábios sabem a flores
E a boca se ilumina.

A ilha

Ao pisar a areia
E saltar as pedras
Sinto um cheiro áspero
De crustáceo e peixe.

Estala a saraiva
Do vento no mar
E as águas explodem
Como cães raivosos.

Cercados de horríveis
Caranguejos
Por todos os lados

Sou a inútil ilha
De solidão
A espera da amada

(Que virá jamais.)

Roteiro

Punge-me a lembrança de líricos janeiros:
Os barcos de papel, apinhados de versos,
Lancei-os na enxurrada, a caminho do universo
D'Além Mar. Escrevendo, o tempo inteiro,

Descobri um tesouro na areia, meu gajeiro,
Minhas Índias secretas e oníricas, o berço
De sonâmbulas visões, avesso do perverso
Negro jardim de um mundo alvissareiro

De ervas daninhas. E a mão passarinheira
Assustava-se então como cavalo bravo
Ao descobrir, naquelas sílabas de vento,

Um revoar de asas e metáforas de Bandeira:
Pasárgadas e Perséfones. Tudo isto com um travo,
Ou melhor, um sabor de esperanças, violento.

Soneto de outubro

Caminho no labirinto dos teus seios implumes,
Na erma noite em pânico dos amores impossíveis.
O gume em brasa de cimitarras e alfanjes
Acaricia a penugem do teu pescoço de cisne.

E o meu amor, sol de espantosas surpresas,
Cresce como o gemido de um clarim rumoroso,
Urdido na garganta dos pássaros insones,
A proclamar a palidez das últimas estrelas.

Alvorecem teus seios, e, felino intumescido.
De cios, toco-te de leve a pele insubmissa:
Reverbera o sol no poço das profundas

Águas marinhas das tuas pupilas verdes,
Onde, ao rebentar o dia, afogam-se para sempre,
Em rituais suicidas, os amantes inumeráveis.

No quarto

No quarto do hotel
A mulher gritava,
O grito fatal
De mulher violentada.

Alguém a penetrava
(Trabalho de Hércules!)
E plantava tubérculos
Na terra molhada.

Ouço, ainda agora,
(Terríveis!) os gritos,
Lacerando a noite.

A quantos açoites
Entrega seu couro
Quem sonha o infinito...

Idílio

Junto à gaiola do tímido canário,
Ia o menino, cheio de alegria,
Saudar o canto que alvorecia
Na garganta solar do solitário

Pássaro, e o pássaro respondia
A si mesmo e ao seu canto vário,
Um soluço tecendo, noite e dia,
O magnífico céu imaginário.

O menino, surpreso com esse canto,
Ante o frágil lampejo do encanto,
Imaginava a emoção do passarinho,

E o pássaro, um pássaro sozinho,
A soprar o flautim do seu destino,
Levava ao céu o sonho do menino.

Os cavalos alados

Os cavalos alados vão no vento,
Voando leves, lívidos, além,
E o tropel dos seus cascos repercute
No silêncio de um campo imaginário.

São cavalos tecendo, em suas vozes,
Os relinchos dos íntimos desejos.
O perfume farejam, de alegóricas
Potrancas. A manhã roreja.

Suas asas de pássaros imêmores
Acentuam, levíssimas, a brisa,
Onde velam seus sonhos de luares.

São cavalos que aos altos céus devolvem
(Como as aves dissolvem-se no azul)
Suas crinas de chuva e seus corpos de nuvem

terça-feira, 17 de julho de 2007

Soneto na cadeira de balanço

No calor do verão zunem cigarras
Monocórdias: uma nota só.
Não quiseram jamais elas senão
Cantar manhãs de luz, raios de sol.

Sentado na cadeira de balanço,
A cabeça pendida, o braço triste,
Reconcilio-me com velhos poetas
E com a poesia: a verdade maior.

Às cigarras dirijo um pensamento
De pequenas vitórias e grandes fiascos:
Impune não se chega aos cinqüent’anos.

Alterei o itinerário do menino.
Apostando o melhor do meu destino
Em tesouros de areia: perdi feio.

Soneto do sol na cumeeira

Um pássaro, o sol, na cumeeira,
Aninhou-se, através das telhas vãs.
Suas plumas, de luzes irisadas,
Cambiaram, efêmeras, suas cores

Às da poesia: a chama acesa
No rastilho de pólvoras e mágicas,
Escalaram degraus, altos acessos
Às meninas travessas dos meus olhos.

Um pássaro de luz, a Poesia,
Retornara do céu de outros países
Trevosos. Sua chama em brasa ardia

Nas pupilas febris e as penetrava
Com finíssimas agulhas e cantava
O seu cântico de todos os matizes.

Espiral

Olha, Neera, tudo recomeça
Na espiral do amor, que nunca cessa
Sua procura de si mesmo, eterna,
Através de esperanças e promessas.

Se pensavas haver, Lídia, morrido,
Teu coração, prestíssimo, renova-se,
A vida cria novos sonhos,
E os sonhos, Clóe, novas formas.

Não só as injúrias do tempo,
Sulcos, rugas, ccatrizes,
Esculpirão vossas faces,

Pois há mergulhos de luz,
Refração do sol nas águas
Que, lágrimas, as percorrem.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

À luz azul dos holofotes

À noite, à luz azul dos holofotes,
Distraídos rapazes batem à bola,
Que rola como astro em campo cósmico,
No piso de uma quadra de esportes.

Atacam pelo centro, em disparada,
Por dentro, oblíquos, em diagonal,
Enquanto, como potros, pelo flanco,
Investem à captura do Indefeso.

Então, a Vida inteira se comprime
No espaço do jogo, onde os planetas
Caminham por um ninho de galáxias.

E tudo é sonho e música fantástica.
Quando o jogo termina, a vida é triste
E a morte espreita nas encruzilhadas.