À casa do meu pai retorno em sonho
E o menino me espreita na janela
À procura de mim como num sonho
Do sonho que em si mesmo se enovela
E divide-se em muitos outros sonhos,
O sonho de ser essa e ser aquela
Obsessão de quem revela o sonho
De ser o porto e ser a caravela
Pois a casa também habita o sonho
E rodopia ao vento, carrossel
No sonho de si mesmo, meta-sonho
Daquele que sonhou sair ao léu
E regressou sozinho para o sonho
De ascender em sonho para o céu.
sábado, 25 de agosto de 2007
Coroa de Sonetos XIV
De ascender em sonho para o céu
Eis o sonho maior de toda a gente,
Meter-se numa cápsula de repente
E flutuar bem leve como véu.
Esse sonho de fato aconteceu
E o sonho é a espaçonave refulgente,
Pássaro sem pena, de papel,
Sem gravidade nem peso que atormente.
Então o sonhador que retornava,
Pródigo filho, à casa do seu pai,
Para outra aventura se prepara,
A de revê-lo em sonho, e agora vai
Beijar a sua face, a visão rara
De um mundo imaginário. Imaginai!.
Eis o sonho maior de toda a gente,
Meter-se numa cápsula de repente
E flutuar bem leve como véu.
Esse sonho de fato aconteceu
E o sonho é a espaçonave refulgente,
Pássaro sem pena, de papel,
Sem gravidade nem peso que atormente.
Então o sonhador que retornava,
Pródigo filho, à casa do seu pai,
Para outra aventura se prepara,
A de revê-lo em sonho, e agora vai
Beijar a sua face, a visão rara
De um mundo imaginário. Imaginai!.
Coroa de Sonetos XIII
E regressou sozinho para o sonho
E no sonho sozinho se fez poeta
Ou talvez numa nuvem de plutônio
Fosse anjo tocando clarineta.
Não era, nunca foi, um Belo Antonio,
Nem jamais pode ser ancoreta,
Não cultivou as flores do medonho
Nem as lançou em página secreta.
Era aquele que agora retornava
Viajante do sonho, à velha casa,
Em busca do que lá não se encontrava:
A sua mãe de olhos cor de mel
Com desejo de, anjo, abrir as asas,
De ascender em sonho para o céu.
E no sonho sozinho se fez poeta
Ou talvez numa nuvem de plutônio
Fosse anjo tocando clarineta.
Não era, nunca foi, um Belo Antonio,
Nem jamais pode ser ancoreta,
Não cultivou as flores do medonho
Nem as lançou em página secreta.
Era aquele que agora retornava
Viajante do sonho, à velha casa,
Em busca do que lá não se encontrava:
A sua mãe de olhos cor de mel
Com desejo de, anjo, abrir as asas,
De ascender em sonho para o céu.
Coroa de Sonetos XII
Daquele que sonhou sair ao léu
Àquele que chegou à sua casa
Existe a só distancia de um chapéu
Um quase nada, um sopro, um golpe de asa,
Pois os dois são os mesmos que do fel
Sorveram até a última gota rasa
E sentiram no peito, dentro, o seu
Coração companheiro ardendo em brasa.
Se algum dele galgou as culminâncias
E sorveu no seu cálice fragrâncias,
Se um deles tornou-se mais humano
Com seu jeito de anjo e de demônio,
O outro enlouqueceu de desengano
E regressou sozinho para o sonho.
Àquele que chegou à sua casa
Existe a só distancia de um chapéu
Um quase nada, um sopro, um golpe de asa,
Pois os dois são os mesmos que do fel
Sorveram até a última gota rasa
E sentiram no peito, dentro, o seu
Coração companheiro ardendo em brasa.
Se algum dele galgou as culminâncias
E sorveu no seu cálice fragrâncias,
Se um deles tornou-se mais humano
Com seu jeito de anjo e de demônio,
O outro enlouqueceu de desengano
E regressou sozinho para o sonho.
Coroa de Sonetos XI
No sonho de si mesmo, meta-sonho,
Mergulha o sonhador seu sentimento
De ávida grandeza, babilônio,
Ereto como torre de cimento.
A torre de Babel, o matrimônio
De falas de difícil entendimento,
A mistura de estranhos elementos
Oníricos: amor, ódio tardonho.
No meio dessa casa emerge o errático,
O filho do seu pai à casa volta
E decifra o olhar enigmático
Do menino que aspira alçar-se ao céu,
Em busca, numa nuvem mais revolta,
Daquele que sonhou sair ao léu.
Mergulha o sonhador seu sentimento
De ávida grandeza, babilônio,
Ereto como torre de cimento.
A torre de Babel, o matrimônio
De falas de difícil entendimento,
A mistura de estranhos elementos
Oníricos: amor, ódio tardonho.
No meio dessa casa emerge o errático,
O filho do seu pai à casa volta
E decifra o olhar enigmático
Do menino que aspira alçar-se ao céu,
Em busca, numa nuvem mais revolta,
Daquele que sonhou sair ao léu.
Coroa de Sonetos X
E rodopia ao vento, carrossel
De minutos e horas, meses, anos,
À custa de engano e desengano,
Essa casa de pedra, inescrutável.
Meu pai ergueu-a sólida, palpável,
Fê-la em granito, dividiu-a em planos,
Protegeu-a de estragos, manchas, danos,
E casa se ergueu, inexpugnável.
Agora sobrevive na memória
Do homem que regressa ao seu destino
De ainda ser criança. Sua história
Não se interrompe em rictus risonho,
Mas desenha-se nos lábios do menino,
No sonho de si mesmo, meta-sonho.
De minutos e horas, meses, anos,
À custa de engano e desengano,
Essa casa de pedra, inescrutável.
Meu pai ergueu-a sólida, palpável,
Fê-la em granito, dividiu-a em planos,
Protegeu-a de estragos, manchas, danos,
E casa se ergueu, inexpugnável.
Agora sobrevive na memória
Do homem que regressa ao seu destino
De ainda ser criança. Sua história
Não se interrompe em rictus risonho,
Mas desenha-se nos lábios do menino,
No sonho de si mesmo, meta-sonho.
Coroa de Sonetos IX
Pois a casa também habita o sonho
E rodopia no redemoinho
Dos ventos solitários e bisonhos
Que se erguem, contrários, no caminho.
Aos ventos uivantes eu me exponho,
Ouço, escuto, indago e adivinho,
E descubro o jardim sempre risonho
De rosas cor da púrpura do vinho.
Ali, eu muitas vezes descobri,
Quase imóvel no ar, o colibri
Em recompensa às flores cor de mel.
Eis o jardim que o tempo não limita:
A pétala de seda ressuscita
E rodopia ao vento, carrossel.
E rodopia no redemoinho
Dos ventos solitários e bisonhos
Que se erguem, contrários, no caminho.
Aos ventos uivantes eu me exponho,
Ouço, escuto, indago e adivinho,
E descubro o jardim sempre risonho
De rosas cor da púrpura do vinho.
Ali, eu muitas vezes descobri,
Quase imóvel no ar, o colibri
Em recompensa às flores cor de mel.
Eis o jardim que o tempo não limita:
A pétala de seda ressuscita
E rodopia ao vento, carrossel.
Coroa de Sonetos VIII
De ser o porto e ser a caravela
Exausta de vagar, que nele ancora,
Depois de se perder entre procelas
Retorna ao coração da casa agora.
Ouço vozes na sala, a fala dela,
(Da minha mãe)vívida e sonora,
Leve e serena, dizendo coisas belas,
Conversando com os pássaros da aurora.
Escuto sua voz e alguma coisa
Inquieta no meu crânio trepanado
Cicatriza de vez, logo repousa.
Eis a essência do vôo que anteponho
À infância que ficou no ar, parada,
Pois a casa também habita o sonho.
Exausta de vagar, que nele ancora,
Depois de se perder entre procelas
Retorna ao coração da casa agora.
Ouço vozes na sala, a fala dela,
(Da minha mãe)vívida e sonora,
Leve e serena, dizendo coisas belas,
Conversando com os pássaros da aurora.
Escuto sua voz e alguma coisa
Inquieta no meu crânio trepanado
Cicatriza de vez, logo repousa.
Eis a essência do vôo que anteponho
À infância que ficou no ar, parada,
Pois a casa também habita o sonho.
Coroa de Sonetos VII
Obsessão de quem revela o sonho,
Leve lance no ar, golpe de asa,
No azul da manhã eu me disponho
A vencer os umbrais da minha casa.
Agora de repente estou tristonho
Pois a luz da manhã meus olhos vaza
Lê a senha secreta do meu sonho
Arde à tarde e à noite faz-se em brasa.
Redescubro os pavões assassinados
E percebo depois no dia súplice
Meus pássaros no chão, despedaçados.
E o jovem se liberta das mazelas
Com seu gosto infantil, o sabor dúplice
De ser o porto e ser a caravela.
Leve lance no ar, golpe de asa,
No azul da manhã eu me disponho
A vencer os umbrais da minha casa.
Agora de repente estou tristonho
Pois a luz da manhã meus olhos vaza
Lê a senha secreta do meu sonho
Arde à tarde e à noite faz-se em brasa.
Redescubro os pavões assassinados
E percebo depois no dia súplice
Meus pássaros no chão, despedaçados.
E o jovem se liberta das mazelas
Com seu gosto infantil, o sabor dúplice
De ser o porto e ser a caravela.
Coroa de Sonetos VI
O sonho de ser essa e ser aquela
Aventura na bruma, pura prata,
O menino encontrou a forma exata,
Nas efêmeras tardes amarelas.
E mostrou-me depois, pelas vielas,
Cães e gatos lavando suas patas
Em poças de luar, à luz de estrelas,
Trêmulas labaredas abstratas.
Apontou-me depois, com seus astutos
Dedos sutis, na face dos espelhos,
A vida resumida num minuto:
Era a fuga do feio e do enfadonho
A, dos meus olhos, lágrima, vermelhos,
Obsessão de quem revela o sonho.
Aventura na bruma, pura prata,
O menino encontrou a forma exata,
Nas efêmeras tardes amarelas.
E mostrou-me depois, pelas vielas,
Cães e gatos lavando suas patas
Em poças de luar, à luz de estrelas,
Trêmulas labaredas abstratas.
Apontou-me depois, com seus astutos
Dedos sutis, na face dos espelhos,
A vida resumida num minuto:
Era a fuga do feio e do enfadonho
A, dos meus olhos, lágrima, vermelhos,
Obsessão de quem revela o sonho.
Coroa de Sonetos V
E divide-se em muitos outros sonhos
Minha busca de estar entre belezas,
Acrescentando às barbas do medonho
Um riso ao ramalhete de surpresas.
A surpresa de achar (se nele o ponho
Um dia o ganho) meu baú de riquezas,
O tesouro de jóias que proponho
Ser o pão de ternura sobre a mesa.
Esse sonho é o poço das surpresas
Onde mergulho a minha luz acesa
À procura da nave submersa
Em demanda de estranha caravela
Da minha embriaguez, e a vida versa
O sonho de ser essa e ser aquela.
Minha busca de estar entre belezas,
Acrescentando às barbas do medonho
Um riso ao ramalhete de surpresas.
A surpresa de achar (se nele o ponho
Um dia o ganho) meu baú de riquezas,
O tesouro de jóias que proponho
Ser o pão de ternura sobre a mesa.
Esse sonho é o poço das surpresas
Onde mergulho a minha luz acesa
À procura da nave submersa
Em demanda de estranha caravela
Da minha embriaguez, e a vida versa
O sonho de ser essa e ser aquela.
Coroa de Sonetos IV
Do sonho que em si mesmo se enovela
Sou o pródigo filho que regressa
À casa do seu pai, em busca dessa
Perícia de viver, que se revela.
Na casa do meu pai alguém me vela,
Desperta-me do sono, diz que eu desça
Do meu berço, caminhe firme, pela
Vida, que o tempo é de promessa.
Era tempo de estio e de equinócio,
Dentro dele reinava nosso ócio,
A mágica visão, e, à margem dela,
Calendários calavam-se. Suponho
Tal tempo tenha o brilho de uma estrela
E divide-se em muitos outros sonhos.
Sou o pródigo filho que regressa
À casa do seu pai, em busca dessa
Perícia de viver, que se revela.
Na casa do meu pai alguém me vela,
Desperta-me do sono, diz que eu desça
Do meu berço, caminhe firme, pela
Vida, que o tempo é de promessa.
Era tempo de estio e de equinócio,
Dentro dele reinava nosso ócio,
A mágica visão, e, à margem dela,
Calendários calavam-se. Suponho
Tal tempo tenha o brilho de uma estrela
E divide-se em muitos outros sonhos.
Coroa de Sonetos III
À procura de mim como num sonho
Ouço vozes de pássaros contentes,
Bem-te-vis bem me vêem, renitentes,
E sorriem: são pássaros risonhos.
Esqueci-me de tudo o que é tristonho,
Concentrei-me tão só no sorridente,
No que é novo em botão, como pão quente,
Estalando nos lábios onde o ponho.
A palavra no ar fala de cousas
Peremptas, perdidas, irrestrito
Sonho de luar, que não repousa.
E o grito da criança me revela
Onírico, o sabor (bastou-me um grito)
Do sonho que em si mesmo se enovela
Ouço vozes de pássaros contentes,
Bem-te-vis bem me vêem, renitentes,
E sorriem: são pássaros risonhos.
Esqueci-me de tudo o que é tristonho,
Concentrei-me tão só no sorridente,
No que é novo em botão, como pão quente,
Estalando nos lábios onde o ponho.
A palavra no ar fala de cousas
Peremptas, perdidas, irrestrito
Sonho de luar, que não repousa.
E o grito da criança me revela
Onírico, o sabor (bastou-me um grito)
Do sonho que em si mesmo se enovela
Coroa de Sonetos II
E o menino me espreita na janela
Com seus olhos de brilhos repentinos
Cuja funda mirada me revela
Aquilo que se esconde em sibilinos
Segredos de viver seus desatinos
Quando a luz da manhã pinta aquarelas
Na nuvem que navega, caravela
Calmamente no azul do seu destino.
O menino murmura e os seus segredos
Revelam-se os frutos saborosos
Em dádiva de amar, como brinquedo,
Fino jogo de armar, que ora componho,
Nesse canteiro onde trescalam rosas
À procura de mim como num sonho.
Com seus olhos de brilhos repentinos
Cuja funda mirada me revela
Aquilo que se esconde em sibilinos
Segredos de viver seus desatinos
Quando a luz da manhã pinta aquarelas
Na nuvem que navega, caravela
Calmamente no azul do seu destino.
O menino murmura e os seus segredos
Revelam-se os frutos saborosos
Em dádiva de amar, como brinquedo,
Fino jogo de armar, que ora componho,
Nesse canteiro onde trescalam rosas
À procura de mim como num sonho.
Coroa de Sonetos I
À casa do meu pai retorno em sonho
À procura dos símbolos pretéritos
E capturo os mitos que anteponho
Ao tempo inaugural, tempo de méritos
E pródigas canções. Instauro inquéritos
Às frágeis personagens que componho
Ainda hoje: a jovem mãe, o pai risonho.
Só não vejo na casa o mais emérito
Dos habitantes seus: a clara imagem
Gravada pelo fogo da memória
Quando a luz matutina se revela:
Minha face infantil. Mas num relance,
Abre-se-me a visão de longo alcance
E o menino me espreita na janela.
À procura dos símbolos pretéritos
E capturo os mitos que anteponho
Ao tempo inaugural, tempo de méritos
E pródigas canções. Instauro inquéritos
Às frágeis personagens que componho
Ainda hoje: a jovem mãe, o pai risonho.
Só não vejo na casa o mais emérito
Dos habitantes seus: a clara imagem
Gravada pelo fogo da memória
Quando a luz matutina se revela:
Minha face infantil. Mas num relance,
Abre-se-me a visão de longo alcance
E o menino me espreita na janela.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Andei, atordoado,
Andei, atordoado, entre aparelhos
Eletrônicos, jeans: mercadorias.
De coração rangente, vagueei
Em nevoeiros pobres de arco-íris.
Respirei a não-flor que se elabora
Nas pupilas do tempo, aspirei
O perfume francês que não disfarça
O cheiro de suor das axilas.
Pensei vastos poemas fora de órbita
Que não se moldam em mim mas em searas
De vento minuano que se perdem
Em campos de sonhar.
Agora, nesse canto do Café,
Protejo a solidão, entre vidraças,
Personagem de Hopper,
Enquanto a multidão, lá fora, passa.
E nas águas ásperas da noite,
Ilumina-se o Café, como um aquário,
Onde, notívago, bebo lentamente
O vinho do esquecimento,
Enquanto sonho, de olhos abertos,
Como um peixe solitário.
Eletrônicos, jeans: mercadorias.
De coração rangente, vagueei
Em nevoeiros pobres de arco-íris.
Respirei a não-flor que se elabora
Nas pupilas do tempo, aspirei
O perfume francês que não disfarça
O cheiro de suor das axilas.
Pensei vastos poemas fora de órbita
Que não se moldam em mim mas em searas
De vento minuano que se perdem
Em campos de sonhar.
Agora, nesse canto do Café,
Protejo a solidão, entre vidraças,
Personagem de Hopper,
Enquanto a multidão, lá fora, passa.
E nas águas ásperas da noite,
Ilumina-se o Café, como um aquário,
Onde, notívago, bebo lentamente
O vinho do esquecimento,
Enquanto sonho, de olhos abertos,
Como um peixe solitário.
Teu corpo, como flor
Teu corpo, como flor à noite, abre
Sua corola, espalha o seu perfume,
E o meu corpo, embandeirado sabre,
Fende fundos abismos em tua implume
Porém ardente carne em plena febre
De amar. Então sorris, num grito,
E teu grito é o puro canto que celebre
O gozo, o espasmo, o estupor, o frêmito.
Nossos corpos entregam-se à devesa
Do tempo, e ao longe vamos nós,
Bem juntos, tua mão na minha, presa.
Amor se faz assim, forte e feroz,
Como se fora, na enchente, a correnteza
Do rio que tudo arrasta à sua foz.
Sua corola, espalha o seu perfume,
E o meu corpo, embandeirado sabre,
Fende fundos abismos em tua implume
Porém ardente carne em plena febre
De amar. Então sorris, num grito,
E teu grito é o puro canto que celebre
O gozo, o espasmo, o estupor, o frêmito.
Nossos corpos entregam-se à devesa
Do tempo, e ao longe vamos nós,
Bem juntos, tua mão na minha, presa.
Amor se faz assim, forte e feroz,
Como se fora, na enchente, a correnteza
Do rio que tudo arrasta à sua foz.
Aqui, neste rochedo
Aqui, neste rochedo, à beira-mar,
Frente ao imenso mundo submerso,
Lúcido e triste, saudoso de te amar
Escrevo, em silêncio, versos.
E tua voz me diz: - escreve,
Escreve que o tempo é disperso,
Escreve que a vida é breve,
Enquanto dura o universo.
Escreve e escreve, não ousa
Fazer jamais outra coisa
Que possa levar-te às sombras.
Navega, tão só, teu sonho,
Enquanto escurece nas angras
O solitário perfil da noite insone.
Frente ao imenso mundo submerso,
Lúcido e triste, saudoso de te amar
Escrevo, em silêncio, versos.
E tua voz me diz: - escreve,
Escreve que o tempo é disperso,
Escreve que a vida é breve,
Enquanto dura o universo.
Escreve e escreve, não ousa
Fazer jamais outra coisa
Que possa levar-te às sombras.
Navega, tão só, teu sonho,
Enquanto escurece nas angras
O solitário perfil da noite insone.
Cul de sac
Entrei no beco sem saída do Leminski,
Voltei ao labirinto do Décimo Pignotauro,
Andei, Teseu, nos corredores crassos,
Em busca de Ariadne (por um fio),
Saí nos campos dos Irmãos Barbudos,
Haroldo, que arava a pedra do seu terreno sáfaro,
Augusto, a colher a última flor do Acaso,
E despertei depois na areia branca da página,
Náufrago que o mar imenso vomitou na praia.
Voltei ao labirinto do Décimo Pignotauro,
Andei, Teseu, nos corredores crassos,
Em busca de Ariadne (por um fio),
Saí nos campos dos Irmãos Barbudos,
Haroldo, que arava a pedra do seu terreno sáfaro,
Augusto, a colher a última flor do Acaso,
E despertei depois na areia branca da página,
Náufrago que o mar imenso vomitou na praia.
Na remota manhã
Na remota manhã cantavam pássaros,
Celebrando a proeza de viver.
Eram sabiás pousados em galhos de ingazeira,
E curiós equilibrando-se nas hastes flexíveis de capim.
Escutava-se o aboio dos tropeiros,
Enquanto passava a tropa, gemendo sob o peso das colheitas.
Cada besta levava três sacos de cacau bem seco,
Destinados ao armazém.
Depois, no porto de Ilhéus,
Entre estivadores e gaivotas,
Os guindastes exibiam
Seus ardores sexuais:
Erguiam no ar os sacos de cacau,
Como troféus,
Depositavam-nos nos lastros dos cargueiros
Que partiam para as Europas infiéis.
E lá se iam as safras, levadas para o Estrangeiro.
De todo o cacau colhido só restava o cheiro áspero
Que impregnava os depósitos das firmas de exportação.
Celebrando a proeza de viver.
Eram sabiás pousados em galhos de ingazeira,
E curiós equilibrando-se nas hastes flexíveis de capim.
Escutava-se o aboio dos tropeiros,
Enquanto passava a tropa, gemendo sob o peso das colheitas.
Cada besta levava três sacos de cacau bem seco,
Destinados ao armazém.
Depois, no porto de Ilhéus,
Entre estivadores e gaivotas,
Os guindastes exibiam
Seus ardores sexuais:
Erguiam no ar os sacos de cacau,
Como troféus,
Depositavam-nos nos lastros dos cargueiros
Que partiam para as Europas infiéis.
E lá se iam as safras, levadas para o Estrangeiro.
De todo o cacau colhido só restava o cheiro áspero
Que impregnava os depósitos das firmas de exportação.
Esta manhã
Esta manhã, ao despertares
Viste o lençol batizado
Pela mancha do teu esperma.
Teu corpo tinha um segredo,
Um cheiro acre, das axilas
Fluíam eflúvios azedos.
Olhaste pela janela
Mas o mundo pareceu-te
Hostil, através da remela.
E sentiste por um triz
Que a sinusite escorria
Pingava do teu nariz,
E das narinas, estranhos
Corpos saíam, sutis:
Eram pedaços de ranho.
Então procuraste cheio
De nojo, o banheiro
Buscando um pouco de asseio.
Porém diante do espelho
Teus olhos estavam sujos
Lacrimosos e vermelhos.
Passaste a mão nas orelhas
Mas elas escorregaram
Devido à seborréia.
Ao sacudires a vasta
Guedelha, viste voar
A branca nuvem de caspas.
Estavas muito gripado
E borrifavas o ar
Com úmidas gotas de orvalho.
Também estavas bem rouco
E, ao tentares falar,
Expelias perdigotos.
Em razão dos teus cigarros,
Tossias, distribuías
Pedacinhos de catarro.
E como achaste teu rosto
Grotesco, quase a máscara
De um monstro, descomposto.
E sentiste que teu hálito
Cheirava, desagradável,
Mais forte do que de hábito
Pois havia um gosto amargo
Na tua língua pastosa,
Uma mistura de sarro
E saburra, cheirando a lixo,
Ó filho da tua mãe,
Tu te sentias um bicho.
No sanitário (talvez te
Doesse então a barriga),
Tu te sentaste e espremeste
E te sentiste uma pipa
Cheia de gases, pois um ronco
Terrível te vinha das tripas,
E logo bem quente e roto
De ti algo escorregava
E descia pelo esgoto.
Depois tu tomaste um banho
Morno, ensaboaste
O corpo, como num sonho.
Por fim abriste a gaveta,
Vestiste o terno elegante,
Puseste a melhor gravata,
E saíste de uma vez
Feliz, irreconhecível,
No teu perfume francês.
Viste o lençol batizado
Pela mancha do teu esperma.
Teu corpo tinha um segredo,
Um cheiro acre, das axilas
Fluíam eflúvios azedos.
Olhaste pela janela
Mas o mundo pareceu-te
Hostil, através da remela.
E sentiste por um triz
Que a sinusite escorria
Pingava do teu nariz,
E das narinas, estranhos
Corpos saíam, sutis:
Eram pedaços de ranho.
Então procuraste cheio
De nojo, o banheiro
Buscando um pouco de asseio.
Porém diante do espelho
Teus olhos estavam sujos
Lacrimosos e vermelhos.
Passaste a mão nas orelhas
Mas elas escorregaram
Devido à seborréia.
Ao sacudires a vasta
Guedelha, viste voar
A branca nuvem de caspas.
Estavas muito gripado
E borrifavas o ar
Com úmidas gotas de orvalho.
Também estavas bem rouco
E, ao tentares falar,
Expelias perdigotos.
Em razão dos teus cigarros,
Tossias, distribuías
Pedacinhos de catarro.
E como achaste teu rosto
Grotesco, quase a máscara
De um monstro, descomposto.
E sentiste que teu hálito
Cheirava, desagradável,
Mais forte do que de hábito
Pois havia um gosto amargo
Na tua língua pastosa,
Uma mistura de sarro
E saburra, cheirando a lixo,
Ó filho da tua mãe,
Tu te sentias um bicho.
No sanitário (talvez te
Doesse então a barriga),
Tu te sentaste e espremeste
E te sentiste uma pipa
Cheia de gases, pois um ronco
Terrível te vinha das tripas,
E logo bem quente e roto
De ti algo escorregava
E descia pelo esgoto.
Depois tu tomaste um banho
Morno, ensaboaste
O corpo, como num sonho.
Por fim abriste a gaveta,
Vestiste o terno elegante,
Puseste a melhor gravata,
E saíste de uma vez
Feliz, irreconhecível,
No teu perfume francês.
A lâmina do olhar
A lâmina do olhar decepa o escuro
Derrama-lhe o breu do puro sangue,
O filete de luz que salta o muro,
A fronteira entre a noite e a manhã.
O gume do olhar é sempre duro
E movimenta dínamos exangues,
Diamantes acesos que, maduros,
Cortam o cristal da hora temporã.
Derrama-lhe o breu do puro sangue,
O filete de luz que salta o muro,
A fronteira entre a noite e a manhã.
O gume do olhar é sempre duro
E movimenta dínamos exangues,
Diamantes acesos que, maduros,
Cortam o cristal da hora temporã.
Estou distante
Estou distante de tudo,
Pequenino e sem amigo,
O passarinho está mudo,
Ninguém quer falar comigo.
Um galo canta bem perto
Bem longe outro responde,
Meu coração é um deserto
Onde um oásis se esconde.
Mas o crepúsculo tece
Uma grinalda e uma luva,
Então o sol aparece
Para casar-se com a chuva.
E sinto um frescor de rosas
Sabendo a doce arrebol,
Nesta luz maravilhosa
Quando, após a chuva, o sol.
Pequenino e sem amigo,
O passarinho está mudo,
Ninguém quer falar comigo.
Um galo canta bem perto
Bem longe outro responde,
Meu coração é um deserto
Onde um oásis se esconde.
Mas o crepúsculo tece
Uma grinalda e uma luva,
Então o sol aparece
Para casar-se com a chuva.
E sinto um frescor de rosas
Sabendo a doce arrebol,
Nesta luz maravilhosa
Quando, após a chuva, o sol.
Tenro fruto maduro
Tenro fruto maduro, o amor, conforme
Esvai-se-lhe a doçura, mês a mês,
Abre as asas ao sono e, pleno, dorme,
Ao convívio da própria embriaguez.
Fruto do acaso, rompe o céu disforme,
Como o sol no horizonte, de uma vez,
Lacera a pele do crepúsculo enorme
E liberta-se no céu, com altivez.
Silencioso vem, furtiva lebre
A devorar seu pasto, ao sul, de coentro
E oleandros amarelos. Célebre,
Caminha para si mesmo, por dentro,
Como a tímida onda que se quebre
Na praia quieta, buscando o próprio centro.
Esvai-se-lhe a doçura, mês a mês,
Abre as asas ao sono e, pleno, dorme,
Ao convívio da própria embriaguez.
Fruto do acaso, rompe o céu disforme,
Como o sol no horizonte, de uma vez,
Lacera a pele do crepúsculo enorme
E liberta-se no céu, com altivez.
Silencioso vem, furtiva lebre
A devorar seu pasto, ao sul, de coentro
E oleandros amarelos. Célebre,
Caminha para si mesmo, por dentro,
Como a tímida onda que se quebre
Na praia quieta, buscando o próprio centro.
A caixa de fósforos
A caixa de fósforos numa poça d’água,
Fósforos molhados,
Frustrados por não haverem celebrado a proeza de viver,
De brilhar, de iluminar,
Magoados por haverem adiado
O momento de arder na embriaguez do clarão,
Na luz da própria chama.
Fósforos inúteis, murchos
Como sexos tristes,
Terrestres e precários,
Que deixaram para depois o momento de fruir,
De arder, de queimar,
Após o longo viver vidas vazias
Recolhidas em gestos glaciais e cofres falsos.
Fósforos molhados,
Frustrados por não haverem celebrado a proeza de viver,
De brilhar, de iluminar,
Magoados por haverem adiado
O momento de arder na embriaguez do clarão,
Na luz da própria chama.
Fósforos inúteis, murchos
Como sexos tristes,
Terrestres e precários,
Que deixaram para depois o momento de fruir,
De arder, de queimar,
Após o longo viver vidas vazias
Recolhidas em gestos glaciais e cofres falsos.
Nunca mais
Nunca mais as ninfas
Nas águas lustrais
-Eram três irmãs,
Rijas de desejos
E ardentes delírios,
Pródigas de beijos,
Sonhando rapazes,
Vizinhos e primos.
Banhavam seus corpos
Jovens e nus,
(Seios que adolescem,
Lábios que se abrem,
Úmidos cabelos
Sólidas ilhargas),
Junto a lírio e junco
Entre Erva e jasmim.
Era o tempo de enterrar espadas.
Onde agora os frutos
Maduros, pensos
Na virgem memória
Das chuvas de inverno?
Onde o tempo de amar?
Suspenso (entre
Parênteses),
Nas manhãs da véspera?
O tempo agora é o das amêndoas amargas.
Sorvido o cálice
Até a ultima gota rasa,
Soletrada
A áspera
Lição de casa,
Resta decifrar,
Entre os alvos
Lençóis de linho
Cheirando a éter,
O silvo do vento,
O enigma da noite,
O convite do mar.
Nas águas lustrais
-Eram três irmãs,
Rijas de desejos
E ardentes delírios,
Pródigas de beijos,
Sonhando rapazes,
Vizinhos e primos.
Banhavam seus corpos
Jovens e nus,
(Seios que adolescem,
Lábios que se abrem,
Úmidos cabelos
Sólidas ilhargas),
Junto a lírio e junco
Entre Erva e jasmim.
Era o tempo de enterrar espadas.
Onde agora os frutos
Maduros, pensos
Na virgem memória
Das chuvas de inverno?
Onde o tempo de amar?
Suspenso (entre
Parênteses),
Nas manhãs da véspera?
O tempo agora é o das amêndoas amargas.
Sorvido o cálice
Até a ultima gota rasa,
Soletrada
A áspera
Lição de casa,
Resta decifrar,
Entre os alvos
Lençóis de linho
Cheirando a éter,
O silvo do vento,
O enigma da noite,
O convite do mar.
Toda a vida vivida de somenos
Toda a vida vivida de somenos
Entre coisas preclusas e peremptas,
Paixões amanhecidas, como acenos
Diluídos na luz da tarde lenta.
Lá fora se dissolvem os dias plenos
Na promessa da noite que os isenta,
Um dia que se vai, um dia a menos,
E nada em seu lugar se lhe acrescenta.
Morre o dia no Cabo das Tormentas
De viver sob o signo de Vênus,
Então a vida enfim rompe a placenta
Dos árdegos verões, e logo vem nos
Ventos ásperos, e a noite se alimenta
Em sua taça de lívidos venenos.
Entre coisas preclusas e peremptas,
Paixões amanhecidas, como acenos
Diluídos na luz da tarde lenta.
Lá fora se dissolvem os dias plenos
Na promessa da noite que os isenta,
Um dia que se vai, um dia a menos,
E nada em seu lugar se lhe acrescenta.
Morre o dia no Cabo das Tormentas
De viver sob o signo de Vênus,
Então a vida enfim rompe a placenta
Dos árdegos verões, e logo vem nos
Ventos ásperos, e a noite se alimenta
Em sua taça de lívidos venenos.
Balanço
Este homem de meia-idade
(Há pouco celebrou os cinqüent’anos)
Passou a ficar nostálgico,
Recear solidão, doença e morte;
Seus cabelos mudaram de textura
E começaram a embranquecer;
Doem-lhe as pernas, latejam-lhe os pés,
E embora um sulco em sua face esquerda
Confira-lhe um vago ar de sabedoria,
Ele reflete na mudança e sofre.
Está maduro e sente-se ainda forte,
Mas quando o sino toca, à meia-noite,
Ele escuta um pássaro sinistro
Ironizar, indiscreto, a sua sorte.
Hoje, entretanto, sentiu-se mais feliz,
Na manhã de sol, cheia de luz,
Ao descobrir-se no bairro suburbano,
De ingênuos jardins de lírios e gerânios
E muros a guardar velhos quintais.
Ante o canto de tantos passarinhos,
Sobretudo curiós, em gaiolas
De bojo, pendidas dos beirais,
Num recuo de mais de quarent’anos,
A memória saltou como relâmpago
Ao seu tempo de ainda ser menino
No casarão de pedra dos seus pais;
E durante alguns minutos ele riu
Dos seus medos inúteis, pois readquiriu
O ímpeto de viver, e sentiu-se eterno.
(Há pouco celebrou os cinqüent’anos)
Passou a ficar nostálgico,
Recear solidão, doença e morte;
Seus cabelos mudaram de textura
E começaram a embranquecer;
Doem-lhe as pernas, latejam-lhe os pés,
E embora um sulco em sua face esquerda
Confira-lhe um vago ar de sabedoria,
Ele reflete na mudança e sofre.
Está maduro e sente-se ainda forte,
Mas quando o sino toca, à meia-noite,
Ele escuta um pássaro sinistro
Ironizar, indiscreto, a sua sorte.
Hoje, entretanto, sentiu-se mais feliz,
Na manhã de sol, cheia de luz,
Ao descobrir-se no bairro suburbano,
De ingênuos jardins de lírios e gerânios
E muros a guardar velhos quintais.
Ante o canto de tantos passarinhos,
Sobretudo curiós, em gaiolas
De bojo, pendidas dos beirais,
Num recuo de mais de quarent’anos,
A memória saltou como relâmpago
Ao seu tempo de ainda ser menino
No casarão de pedra dos seus pais;
E durante alguns minutos ele riu
Dos seus medos inúteis, pois readquiriu
O ímpeto de viver, e sentiu-se eterno.
Viagem
A morte,
Com seu branco véu
De noiva,
Cobre-te o rosto.
Silenciosa
Estátua de mármore,
Quedas-te cega:
Sobre as retinas
Baixam-se as pálpebras.
Permaneces muda
Com lábios de pedra
E dormes surda
Ao canto dos pássaros,
Ao pranto dos tristes.
A noite derrama
Sobre os teus olhos
Ainda verdes
A cortina de trevas:
O manto de terra
Úmida de lágrimas.
A noite caiu, abrupta,
Para que não vejas
Teu corpo, no barco
Onde velejas,
Para que não ouses
Ouvir o marulho
Do mar ininterrupto
Onde repousas,
Para que não toques,
Na hora absurda,
Em longo mergulho,
Os fundos abismos,
Com teus dedos lívidos.
A terra guardou-te
O Íntimo agasalho:
A roupa de barro
Negro, o escuro lençol
De areia, o duro
Manto de argila.
A negra noite
Aconchegou-te
Em seu regaço
Para que encetes
A ultima viagem.
Em pequeno barco,
Exíguo, conciso,
Agora navegas:
Navegar é preciso.
E tomas a rota
Das águas sem porto
Entre nuvens altas
E ondas revoltas.
Com seu branco véu
De noiva,
Cobre-te o rosto.
Silenciosa
Estátua de mármore,
Quedas-te cega:
Sobre as retinas
Baixam-se as pálpebras.
Permaneces muda
Com lábios de pedra
E dormes surda
Ao canto dos pássaros,
Ao pranto dos tristes.
A noite derrama
Sobre os teus olhos
Ainda verdes
A cortina de trevas:
O manto de terra
Úmida de lágrimas.
A noite caiu, abrupta,
Para que não vejas
Teu corpo, no barco
Onde velejas,
Para que não ouses
Ouvir o marulho
Do mar ininterrupto
Onde repousas,
Para que não toques,
Na hora absurda,
Em longo mergulho,
Os fundos abismos,
Com teus dedos lívidos.
A terra guardou-te
O Íntimo agasalho:
A roupa de barro
Negro, o escuro lençol
De areia, o duro
Manto de argila.
A negra noite
Aconchegou-te
Em seu regaço
Para que encetes
A ultima viagem.
Em pequeno barco,
Exíguo, conciso,
Agora navegas:
Navegar é preciso.
E tomas a rota
Das águas sem porto
Entre nuvens altas
E ondas revoltas.
Cada dia
Cada dia que passa, desde a aurora
Ao revérbero crepúsculo, descubro
Que o tempo inquieto me devora.
Semeia dentro em mim os seus astutos
Grãos de silêncio, aduba-os, cultiva-os,
Almejando colher seu tenro fruto.
O tempo fertiliza as suas lavras,
Irriga estames insólitos e rubros
E dissimula as últimas palavras.
Primeiro, o meu pai se foi embora
Ainda jovem, de pálpebras cerradas,
Quando o relógio tocou a sua Hora.
Depois a minha mãe, com os olhos abertos
De tanto me buscar, partiu angustiada
De me deixar às areias do deserto.
Filho único, fiquei nesse degredo
De viver solitário, e bem mais perto
Deles me sinto agora, e é menor o medo.
Ao revérbero crepúsculo, descubro
Que o tempo inquieto me devora.
Semeia dentro em mim os seus astutos
Grãos de silêncio, aduba-os, cultiva-os,
Almejando colher seu tenro fruto.
O tempo fertiliza as suas lavras,
Irriga estames insólitos e rubros
E dissimula as últimas palavras.
Primeiro, o meu pai se foi embora
Ainda jovem, de pálpebras cerradas,
Quando o relógio tocou a sua Hora.
Depois a minha mãe, com os olhos abertos
De tanto me buscar, partiu angustiada
De me deixar às areias do deserto.
Filho único, fiquei nesse degredo
De viver solitário, e bem mais perto
Deles me sinto agora, e é menor o medo.
Inventávamos
Inventávamos a vida, descobríamos
Insólitos mundos inauditos,
Enquanto o sol do meio-dia atento
Feria-te as angras em sentido estrito.
Dir-se-ia que tu me revelavas
A pura exatidão, pois conduzias
Aquilo que em mim se anunciava
Ao que em ti, secreto, me sorria:
Guardados sob a folha de parreira
Os teus lábios pródigos de beijos
A beberem meu ser que derramava
De minhas fontes de uma vida inteira
As águas ressurretas do desejo
Nos abismos profundos que ocultavas.
Insólitos mundos inauditos,
Enquanto o sol do meio-dia atento
Feria-te as angras em sentido estrito.
Dir-se-ia que tu me revelavas
A pura exatidão, pois conduzias
Aquilo que em mim se anunciava
Ao que em ti, secreto, me sorria:
Guardados sob a folha de parreira
Os teus lábios pródigos de beijos
A beberem meu ser que derramava
De minhas fontes de uma vida inteira
As águas ressurretas do desejo
Nos abismos profundos que ocultavas.
Contemplo
Contemplo agora a luz do pôr-do-sol,
O sol, ardente coração da minha infância.
Nos revérberos da luz acidulada
O vulto ainda jovem do meu pai,
As pernas balouçantes, cavalga um burrinho,
Cresce para mim, avança olhos adentro.
Através do labirinto da memória
Retorno, e recebo a leve seda
Do abraço paterno, quase beijo
Nos cabelos que vento desalinha.
O sol, ardente coração da minha infância.
Nos revérberos da luz acidulada
O vulto ainda jovem do meu pai,
As pernas balouçantes, cavalga um burrinho,
Cresce para mim, avança olhos adentro.
Através do labirinto da memória
Retorno, e recebo a leve seda
Do abraço paterno, quase beijo
Nos cabelos que vento desalinha.
Na paisagem cacaueira
Na paisagem cacaueira
O lenhador racha lenha:
Filósofo de última hora
Ele opera o coração da matéria
E golpeia com violência
O gume no âmago da madeira.
O lenho abre-se em bandas,
Racha-se em fendas longitudinais,
Vítima indefesa da ira
E do repúdio ao mundo das idéias
Tocadas pela mão da morte.
Surdas ao cântico dos pássaros
E ao aviso escarninho dos bem-te-vis,
Suas orelhas selaram-se para o sopro dos vendavais
E para os gritos irrompidos nos lábios das sereias
Que engendraram um dia a loucura dos heróis.
Ele está exausto,
Ao peso, não de lâminas famintas,
Dos açúcares, porém, corruptores
Das formas admiráveis.
Ele detesta a galera dos piratas
Ornados de argolas alegóricas
E luta por um gole de vinho,
Um punhado de sal,
Um grão de certezas.
Ao sol a pino dos árdegos janeiros
A lâmina executa uma parábola no ar.
O lenhador racha lenha:
Filósofo de última hora
Ele opera o coração da matéria
E golpeia com violência
O gume no âmago da madeira.
O lenho abre-se em bandas,
Racha-se em fendas longitudinais,
Vítima indefesa da ira
E do repúdio ao mundo das idéias
Tocadas pela mão da morte.
Surdas ao cântico dos pássaros
E ao aviso escarninho dos bem-te-vis,
Suas orelhas selaram-se para o sopro dos vendavais
E para os gritos irrompidos nos lábios das sereias
Que engendraram um dia a loucura dos heróis.
Ele está exausto,
Ao peso, não de lâminas famintas,
Dos açúcares, porém, corruptores
Das formas admiráveis.
Ele detesta a galera dos piratas
Ornados de argolas alegóricas
E luta por um gole de vinho,
Um punhado de sal,
Um grão de certezas.
Ao sol a pino dos árdegos janeiros
A lâmina executa uma parábola no ar.
Após o vôo.
Após o vôo o pássaro de fogo
Do céu reverso volta para o ninho
E atravessa, em busca de outros vinhos,
A fronteira da noite e da manhã.
No tufo dos juncais enegrecidos
Depois do alto vôo ele repousa
No coração de uma flor selvagem,
Enfim silente, enfim pacificado.
Do céu reverso volta para o ninho
E atravessa, em busca de outros vinhos,
A fronteira da noite e da manhã.
No tufo dos juncais enegrecidos
Depois do alto vôo ele repousa
No coração de uma flor selvagem,
Enfim silente, enfim pacificado.
A noite inteira
A noite inteira a cancela
Geme e geme, alma penada,
E seu canto de sibila
Percute na madrugada.
O vento estala irritado
O seu chicote de raivas
Sobre o dorso dos cavalos
Alvos cavalos selvagens.
O vento sopra cortante
Como se fora navalha
Na carne macia e anódina
De sonâmbulos fantasmas.
Nas noites frias, a chuva,
Caída das nuvens frias,
Fustiga a copa das árvores
Com terríveis invernias.
E não se cansa a porteira
De ranger como quem sofre
E de bater na madeira
Com violência, de chofre.
Assim, na charneca escura.
Onde à noite o vento lavra,
Uma cancela murmura
Todas as suas palavras.
Geme e geme, alma penada,
E seu canto de sibila
Percute na madrugada.
O vento estala irritado
O seu chicote de raivas
Sobre o dorso dos cavalos
Alvos cavalos selvagens.
O vento sopra cortante
Como se fora navalha
Na carne macia e anódina
De sonâmbulos fantasmas.
Nas noites frias, a chuva,
Caída das nuvens frias,
Fustiga a copa das árvores
Com terríveis invernias.
E não se cansa a porteira
De ranger como quem sofre
E de bater na madeira
Com violência, de chofre.
Assim, na charneca escura.
Onde à noite o vento lavra,
Uma cancela murmura
Todas as suas palavras.
Eis que os homens
Eis que os homens inventaram as normas de conduta,
O cárcere e o privilégio,
Elevaram cercas vetustas e sólidas paredes,
Ergueram diques, domesticaram mares,
Engendraram obstáculos de pedra
E interditaram o fluxo livre das águas.
O mundo, entretanto, tem seu código secreto,
E. nos dias de tormenta,
O vento do mar agita látegos e relâmpagos,
Fustiga as praias solitárias,
Arrebenta as represas que estrangulam os rios.
E as águas arrastam as casas dos homens,
Frágeis ninhos de pássaros
O cárcere e o privilégio,
Elevaram cercas vetustas e sólidas paredes,
Ergueram diques, domesticaram mares,
Engendraram obstáculos de pedra
E interditaram o fluxo livre das águas.
O mundo, entretanto, tem seu código secreto,
E. nos dias de tormenta,
O vento do mar agita látegos e relâmpagos,
Fustiga as praias solitárias,
Arrebenta as represas que estrangulam os rios.
E as águas arrastam as casas dos homens,
Frágeis ninhos de pássaros
O laivo de luz
O laivo de luz fende a copa das árvores,
Ilumina os ramos dos cacaueiros
- Infantaria de árvores enfileiradas,
Em marcha de herói para todos os triunfos.
Eis que o outono aterrissa na tarde tropical
Em seu tapete de folhas coloridas,
Esparramando-as
No chão limpo de ervas e de seixos.
O lavrador sorri como se achasse um tesouro,
Ao ver os frutos, caídos de maduros,
Ante a chuva de flores violetas
Que o vento espalha no ar.
A tarefa agora é festa para os olhos:
Juntar os frutos de cores variadas
-Amarelos, vermelhos, verdes-cana,
Ambarinos, marrons, ferruginosos-,
E com eles formar os promontórios cônicos
E desenhar depois com os pincéis do sol
O diamante do mundo.
Ilumina os ramos dos cacaueiros
- Infantaria de árvores enfileiradas,
Em marcha de herói para todos os triunfos.
Eis que o outono aterrissa na tarde tropical
Em seu tapete de folhas coloridas,
Esparramando-as
No chão limpo de ervas e de seixos.
O lavrador sorri como se achasse um tesouro,
Ao ver os frutos, caídos de maduros,
Ante a chuva de flores violetas
Que o vento espalha no ar.
A tarefa agora é festa para os olhos:
Juntar os frutos de cores variadas
-Amarelos, vermelhos, verdes-cana,
Ambarinos, marrons, ferruginosos-,
E com eles formar os promontórios cônicos
E desenhar depois com os pincéis do sol
O diamante do mundo.
O vento do alto mar
O vento do alto mar,
Tempestuoso de areias,
Agita nas frias alturas
Nuvens pesadas e feias,
Apaga a marca dos pés
Que ali deixaram as sereias,
Atira ao ar as areias,
Suja a face dos céus.
As portas batem com raiva,
Todas as grades se fecham,
Gane um cachorro na chuva,
Quer entrar, mas não o deixam.
Rolam pelas ruas tortas
Os chapéus dos aposentados
Que voltam à casa molhados
E aflitos na hora morta.
As ruas estão vazias
E úmidas. Os coqueiros
Fustigados pela ventania
Vergam-se por inteiro.
Que desolação! Não vês
Uma única mulher,
Uma prostituta sequer
À espera de um freguês.
Só resta dormir então
Enquanto as águas, sem medo,
Gemendo de solidão,
Se arrebentam nos rochedos.
Tempestuoso de areias,
Agita nas frias alturas
Nuvens pesadas e feias,
Apaga a marca dos pés
Que ali deixaram as sereias,
Atira ao ar as areias,
Suja a face dos céus.
As portas batem com raiva,
Todas as grades se fecham,
Gane um cachorro na chuva,
Quer entrar, mas não o deixam.
Rolam pelas ruas tortas
Os chapéus dos aposentados
Que voltam à casa molhados
E aflitos na hora morta.
As ruas estão vazias
E úmidas. Os coqueiros
Fustigados pela ventania
Vergam-se por inteiro.
Que desolação! Não vês
Uma única mulher,
Uma prostituta sequer
À espera de um freguês.
Só resta dormir então
Enquanto as águas, sem medo,
Gemendo de solidão,
Se arrebentam nos rochedos.
A tarde esmorece
A tarde esmorece
A noite suspira,
O silêncio cresce
Na noite, conspira,
O sonho arrefece,
Diminui a ira
De quem adormece
Na hora que expira.
Nem mesmo uma prece,
Sequer uma lira,
Tangida se esquece.
No céu de safira
A lua aparece
Na alça da mira.
A noite suspira,
O silêncio cresce
Na noite, conspira,
O sonho arrefece,
Diminui a ira
De quem adormece
Na hora que expira.
Nem mesmo uma prece,
Sequer uma lira,
Tangida se esquece.
No céu de safira
A lua aparece
Na alça da mira.
Esta mulher
Esta mulher que ainda
Hoje vive a fratura
De si mesma, a loucura,
(Quase feia quem foi linda)
Procura a (que foge) vida
Vivida, e, através
De fissuras, de viés,
Como quem pensa a ferida
De haver, do amado, perdido
O rosto antigo e a imagem
Pura (mais que a libido)
Olha-se agora, no ensejo
De reviver, na paisagem
Futura, a fúria e o desejo.
Hoje vive a fratura
De si mesma, a loucura,
(Quase feia quem foi linda)
Procura a (que foge) vida
Vivida, e, através
De fissuras, de viés,
Como quem pensa a ferida
De haver, do amado, perdido
O rosto antigo e a imagem
Pura (mais que a libido)
Olha-se agora, no ensejo
De reviver, na paisagem
Futura, a fúria e o desejo.
Abriu-se o muro
Abriu-se o muro em fendas femininas
Perante a incontinência das marés
E as férvidas espumas repentinas
Explodiram nas pedras, de viés.
Magníficas pedras em ruínas,
Agora o vento as empurra através
Do mar, quando sopra violento, ao rés
Da sinuosa praia das areias finas.
O muro derruído à beira-mar,
Fero monte de pedras, ao luar,
Oferece-se no leito da estrada.
O luar, arco em luz, fere a ruína,
Seu reflexo nas águas ilumina
A imagem das coisas desoladas.
Perante a incontinência das marés
E as férvidas espumas repentinas
Explodiram nas pedras, de viés.
Magníficas pedras em ruínas,
Agora o vento as empurra através
Do mar, quando sopra violento, ao rés
Da sinuosa praia das areias finas.
O muro derruído à beira-mar,
Fero monte de pedras, ao luar,
Oferece-se no leito da estrada.
O luar, arco em luz, fere a ruína,
Seu reflexo nas águas ilumina
A imagem das coisas desoladas.
Tu, jovem temporã
Tu, jovem temporã, surges selvagem
Como abelha no ar e como fruta,
Esvaindo-se em seiva, impaciente
De seres devorada no pomar.
Há rumor de gemidos e de gritos
No limiar de tua boca: o beijo
Tem sabor de pitangas esmagadas
Pelos dentes ardentes do desejo.
Com a polpa macia dos meus dedos
Na carnívora flor que tu aconchegas
Colho a pétala nascida no degredo
Do teu áspero tufo de ervas negras.
No centro deste ninho de surpresas
Um pássaro de fogo se acrescenta
E espalha o calor de minhas brasas
Na pedra solitária do teu ventre.
Como abelha no ar e como fruta,
Esvaindo-se em seiva, impaciente
De seres devorada no pomar.
Há rumor de gemidos e de gritos
No limiar de tua boca: o beijo
Tem sabor de pitangas esmagadas
Pelos dentes ardentes do desejo.
Com a polpa macia dos meus dedos
Na carnívora flor que tu aconchegas
Colho a pétala nascida no degredo
Do teu áspero tufo de ervas negras.
No centro deste ninho de surpresas
Um pássaro de fogo se acrescenta
E espalha o calor de minhas brasas
Na pedra solitária do teu ventre.
Lancei-me
Lancei-me à reconquista das palavras
Com que te confessar minha presença,
Através do Poema -a minha lavra-
E capturei do amor a seiva intensa.
Amor, maduro agora, e não fortuito
Único filho infantil do sonho incerto,
Porém fruto colhido após o muito
Labor de envelhecer de olhos abertos.
Nascido não de flores sem raízes,
Mas de ramos de árvores plantadas
Por mãos que regam o solo, no ensejo
De achar na terra-mãe forças motrizes:
O sangue tinto das uvas esmagadas
Pelos dentes ferozes do desejo.
Com que te confessar minha presença,
Através do Poema -a minha lavra-
E capturei do amor a seiva intensa.
Amor, maduro agora, e não fortuito
Único filho infantil do sonho incerto,
Porém fruto colhido após o muito
Labor de envelhecer de olhos abertos.
Nascido não de flores sem raízes,
Mas de ramos de árvores plantadas
Por mãos que regam o solo, no ensejo
De achar na terra-mãe forças motrizes:
O sangue tinto das uvas esmagadas
Pelos dentes ferozes do desejo.
Tenro fruto maduro
Tenro fruto maduro, o amor, conforme
Esvai-se-lhe a doçura, mês a mês,
Abre as asas ao sono intenso e dorme
No regaço da própria embriaguez.
Fruto do acaso, rompe o céu disforme,
Como o sol no horizonte, e, de uma vez,
Lacera a pele do crepúsculo enorme
E liberta-se, depois, com altivez.
Silencioso vem, furtiva lebre,
Devorar o seu pasto, ao sul, de coentro
E oleandros amarelos. Célebre,
Caminha para si mesmo, por dentro,
Como a tímida onda que se quebra
Nas areias, buscando o próprio centro.
Esvai-se-lhe a doçura, mês a mês,
Abre as asas ao sono intenso e dorme
No regaço da própria embriaguez.
Fruto do acaso, rompe o céu disforme,
Como o sol no horizonte, e, de uma vez,
Lacera a pele do crepúsculo enorme
E liberta-se, depois, com altivez.
Silencioso vem, furtiva lebre,
Devorar o seu pasto, ao sul, de coentro
E oleandros amarelos. Célebre,
Caminha para si mesmo, por dentro,
Como a tímida onda que se quebra
Nas areias, buscando o próprio centro.
Toda a manhã
Toda a manhã o sonho se revela
Como se fora frêmito de asas,
E o menino, sonhando, à velha casa,
Homem feito, retorna, e, na janela.
Do seu pai, ardente jovem em brasa,
Hoje morto e liberto de mazelas,
Vê o pássaro no ar, movendo as asas,
A cortejar as flores amarelas.
Revela-se assim esse mistério
Das asas, ante as pétalas da flor,
Vencer a atração do mundo estéril,
O seu mundo de feras inconstâncias,
Que fizesse tão só de sua infância
A lembrança que o quer ferir, e fere-o.
Como se fora frêmito de asas,
E o menino, sonhando, à velha casa,
Homem feito, retorna, e, na janela.
Do seu pai, ardente jovem em brasa,
Hoje morto e liberto de mazelas,
Vê o pássaro no ar, movendo as asas,
A cortejar as flores amarelas.
Revela-se assim esse mistério
Das asas, ante as pétalas da flor,
Vencer a atração do mundo estéril,
O seu mundo de feras inconstâncias,
Que fizesse tão só de sua infância
A lembrança que o quer ferir, e fere-o.
No campo de sonhar
No campo de sonhar onde me atrito
Com as arestas inúteis do precário,
De súbito apodrece o lado estrito
Do mundo traiçoeiro, necessário
E propício como flor, e assim me agito
À procura de alçar meu canto vário,
Feito mais de silêncio que de grito,
Que o silêncio é a voz do solitário
Poeta, em tempo de mudez, maldito,
Vivendo a vida pelo seu contrário,
Entre rito e gemido involuntário,
Quando a sílaba translúcida, irrestrito
Cântico de amor, cintila no estuário
Do rio de solidões que necessito.
Com as arestas inúteis do precário,
De súbito apodrece o lado estrito
Do mundo traiçoeiro, necessário
E propício como flor, e assim me agito
À procura de alçar meu canto vário,
Feito mais de silêncio que de grito,
Que o silêncio é a voz do solitário
Poeta, em tempo de mudez, maldito,
Vivendo a vida pelo seu contrário,
Entre rito e gemido involuntário,
Quando a sílaba translúcida, irrestrito
Cântico de amor, cintila no estuário
Do rio de solidões que necessito.
Os teus lábios
Os teus lábios têm gosto de primícias,
Anúncio de colheita que se entrega
No galho, quando aves, sem preguiça,
Lançam-se ao céu antes da hora cega.
Eis o vôo sobre as areias movediças
Da carnívora flor que tu aconchegas
No jardim, junto ao monte, de delícias,
Oculto sob o tufo de ervas negras.
Na linha desse vôo, salta o muro
Da lúcida manhã, o claro olhar,
E, pássaro lançado no futuro,
Vê, nos frutos colhidos no pomar,
Que os teus lábios são pêssegos maduros
A serem degustados devagar.
Anúncio de colheita que se entrega
No galho, quando aves, sem preguiça,
Lançam-se ao céu antes da hora cega.
Eis o vôo sobre as areias movediças
Da carnívora flor que tu aconchegas
No jardim, junto ao monte, de delícias,
Oculto sob o tufo de ervas negras.
Na linha desse vôo, salta o muro
Da lúcida manhã, o claro olhar,
E, pássaro lançado no futuro,
Vê, nos frutos colhidos no pomar,
Que os teus lábios são pêssegos maduros
A serem degustados devagar.
O sapato, entre chapéus de palha
O sapato, entre chapéus de palha,
Noctâmbulo, soluça à luz das velas,
(São luzes de néon) entre sandálias
Que sonham desfilar em passarelas.
Range a sola macia quando calha
Ao pé abotoar-se com fivelas,
E o sapato, em decúbito, agasalha,
Em seu ventre, as palmas amarelas
Do pé que não mais corre nem pula,
(Perdeu a liberdade do pivete
Que vagava na praia entre sereias)
E agora, limpíssimo de areias,
Segue preso sem dó pelo gasnete
Com o elegante cadarço que o estrangula
Noctâmbulo, soluça à luz das velas,
(São luzes de néon) entre sandálias
Que sonham desfilar em passarelas.
Range a sola macia quando calha
Ao pé abotoar-se com fivelas,
E o sapato, em decúbito, agasalha,
Em seu ventre, as palmas amarelas
Do pé que não mais corre nem pula,
(Perdeu a liberdade do pivete
Que vagava na praia entre sereias)
E agora, limpíssimo de areias,
Segue preso sem dó pelo gasnete
Com o elegante cadarço que o estrangula
Na tarde solitária
Na tarde solitária o pescador
Preparou-se em silêncio, pressentiu
O peixe debatendo-se nas malhas,
Náufrago na espuma de algum sonho.
A lua cheia, que define as safras,
A colheita dos frutos, as searas,
Ante o brilho das cúmplices estrelas,
Era símbolo de farta pescaria.
Na clara noite agora o pescador,
Após a solidão de navegar
Águas ásperas, atinge, no alto mar,
Sua rede, pejada de pescado,
Mas ao puxá-la percebe que o luar
Acende os olhos vítreos do afogado.
Preparou-se em silêncio, pressentiu
O peixe debatendo-se nas malhas,
Náufrago na espuma de algum sonho.
A lua cheia, que define as safras,
A colheita dos frutos, as searas,
Ante o brilho das cúmplices estrelas,
Era símbolo de farta pescaria.
Na clara noite agora o pescador,
Após a solidão de navegar
Águas ásperas, atinge, no alto mar,
Sua rede, pejada de pescado,
Mas ao puxá-la percebe que o luar
Acende os olhos vítreos do afogado.
A moça vem
A moça vem com seu jeito
De água viva e se achega
Com a fartura dos peitos
À minha mão, que os navega.
Derrama sobre a ribeira
Do meu corpo sem orgulho,
As ondas da cabeleira,
Profundas, onde mergulho.
As suas vagas devastam
As minhas ilhas desertas,
Refúgio, não de sereias,
Mas de dunas que se afastam,
Quando a tormenta desperta
Os redemoinhos de areia.
De água viva e se achega
Com a fartura dos peitos
À minha mão, que os navega.
Derrama sobre a ribeira
Do meu corpo sem orgulho,
As ondas da cabeleira,
Profundas, onde mergulho.
As suas vagas devastam
As minhas ilhas desertas,
Refúgio, não de sereias,
Mas de dunas que se afastam,
Quando a tormenta desperta
Os redemoinhos de areia.
No azul de fevereiro
No azul de fevereiro uma andorinha
Em círculos flutua, longe vai,
Adivinha os aguaceiros do verão.
Nas pautas do alto céu, escreve notas
Musicais, imaginárias,
Insólitas imagens desenhadas
Pelo frêmito de suas asas,
Em mergulhos rasantes
E longitudinais.
Vão, bem longe e bem alto, as andorinhas,
Depois tornam em silêncio.
Nuvens brancas
São as telas onde imprimem as silhuetas
Do vôo que elas deslizam na correnteza do ar,
Planando enquanto revolvem
As vastas extensões do céu de estio,
Abrindo sulcos no espaço iluminado.
Em círculos flutua, longe vai,
Adivinha os aguaceiros do verão.
Nas pautas do alto céu, escreve notas
Musicais, imaginárias,
Insólitas imagens desenhadas
Pelo frêmito de suas asas,
Em mergulhos rasantes
E longitudinais.
Vão, bem longe e bem alto, as andorinhas,
Depois tornam em silêncio.
Nuvens brancas
São as telas onde imprimem as silhuetas
Do vôo que elas deslizam na correnteza do ar,
Planando enquanto revolvem
As vastas extensões do céu de estio,
Abrindo sulcos no espaço iluminado.
No céu de abril
No céu de abril, o mês cruel, as nuvens são ovelhas
Que no pasto azul do dia, de cores, se apascentam,
E deixam-se depois levar à longe luz vermelha
Dos crepúsculos em flor das longas tardes lentas.
Caem podres as tardes, como torres, abolidas,
De príncipes no exílio de não saberem amar,
E as nuvens dispersam-se quando o vento do alto mar
Desampara, pérfido, o rebanho de ovelhas perdidas.
Pastor de ovelhas vivas em campos de sonhar,
No coração das tarde, quase como quem tange
Um rebanho de nuvens de balidos inaudíveis
Ao silêncio maior que nunca me constrange
Nem me atormenta jamais, o meu lúcido olhar
Vai devassando os longes, em todos os seus níveis.
Que no pasto azul do dia, de cores, se apascentam,
E deixam-se depois levar à longe luz vermelha
Dos crepúsculos em flor das longas tardes lentas.
Caem podres as tardes, como torres, abolidas,
De príncipes no exílio de não saberem amar,
E as nuvens dispersam-se quando o vento do alto mar
Desampara, pérfido, o rebanho de ovelhas perdidas.
Pastor de ovelhas vivas em campos de sonhar,
No coração das tarde, quase como quem tange
Um rebanho de nuvens de balidos inaudíveis
Ao silêncio maior que nunca me constrange
Nem me atormenta jamais, o meu lúcido olhar
Vai devassando os longes, em todos os seus níveis.
Prodígio
Era Marina, Judith, Mariana?
Melissa, de cabelos cor de mel
E de esféricos seios temporãos,
Como frutos
Que a mão sonhadora acariciava?
Talvez fosse Patrícia, de curvas perigosas,
Insensível ao assovio do Vento Sul
E ao baque surdo das ondas contra o cais.
Ou seria Maria
De sinuoso ventre como dunas,
De areias movediças,
Violada entre o promontório e mar?
Bebias champanhe nos lábios claros de Janaína,
Vinho tinto nos lábios róseos de Teresa,
Vinho branco nos lábios pálidos de Isabel.
As libações de amor eram sagradas
No limiar de seus lábios sumarentos:
- Fernanda, Paula, Sonia e sua irmã Luísa,
Elevadas à dignidade de Mitos Dionisíacos.
E bêbado ficavas
Dos beijos de suas bocas pródigas de sortilégio.
Melissa, de cabelos cor de mel
E de esféricos seios temporãos,
Como frutos
Que a mão sonhadora acariciava?
Talvez fosse Patrícia, de curvas perigosas,
Insensível ao assovio do Vento Sul
E ao baque surdo das ondas contra o cais.
Ou seria Maria
De sinuoso ventre como dunas,
De areias movediças,
Violada entre o promontório e mar?
Bebias champanhe nos lábios claros de Janaína,
Vinho tinto nos lábios róseos de Teresa,
Vinho branco nos lábios pálidos de Isabel.
As libações de amor eram sagradas
No limiar de seus lábios sumarentos:
- Fernanda, Paula, Sonia e sua irmã Luísa,
Elevadas à dignidade de Mitos Dionisíacos.
E bêbado ficavas
Dos beijos de suas bocas pródigas de sortilégio.
Água
Andando sobre pedras,
Mais que pedras, rochedos,
Em busca de ostras
E caranguejos,
Saltando as arestas
Das pedras, percebo
Que as águas são frágeis
E femininas, mas vejo
Também, por trás
De sua aparência
De mulher, que as águas
Escondem, fêmeas,
Suas armas, a constância
De ter, nas espumas,
Seus dentes de morder
A pedra, suas unhas
Que rasgam, com mágoa,
A pedra mais dura:
Estranha criatura
Dos naufrágios: água!
Mais que pedras, rochedos,
Em busca de ostras
E caranguejos,
Saltando as arestas
Das pedras, percebo
Que as águas são frágeis
E femininas, mas vejo
Também, por trás
De sua aparência
De mulher, que as águas
Escondem, fêmeas,
Suas armas, a constância
De ter, nas espumas,
Seus dentes de morder
A pedra, suas unhas
Que rasgam, com mágoa,
A pedra mais dura:
Estranha criatura
Dos naufrágios: água!
Entre monstros inocentes
Entre monstros inocentes e sinistros
-Medusas abstrusas e polvos desconexos-
O náufrago repousa sobre as areias ambarinas
No fundo abissal do mar.
Tem, vítreos, os olhos, roídos pelos peixes,
E roxos, os lábios, selados pelo silêncio.
Mas eis que chega
O súbito bando alegre das sereias,
E o consola com a música dos pianos submersos,
Para que não se perturbe
O seu doce sono, sem sonhos, de suicida.
-Medusas abstrusas e polvos desconexos-
O náufrago repousa sobre as areias ambarinas
No fundo abissal do mar.
Tem, vítreos, os olhos, roídos pelos peixes,
E roxos, os lábios, selados pelo silêncio.
Mas eis que chega
O súbito bando alegre das sereias,
E o consola com a música dos pianos submersos,
Para que não se perturbe
O seu doce sono, sem sonhos, de suicida.
A melancolia dos meus olhos
A melancolia dos meus olhos
Cai sobre as tuas espáduas:
Nasce um silêncio real de manhã jovem
Sonhando estios.
Ante os horizontes das águas fervilhantes,
Azul intenso, marinho, índigo blue,
Cresce o cheiro no ar, de ervas tontas,
Aromas da tua pele.
Nesta faixa de areia onde se alastra o mar,
As espumas fervem,
Ao árdego contato
Do corpo que adolesce, glorioso e nu.
O teu rosto rubro,
Despido até dos últimos ornatos,
Na moldura da negra cabeleira
Desatada sobre a luz pueril dos ombros.
A tua luz de apenas dezessete anos,
A refletir-se, metálica,
Nos teus dentes brancos,
Na franqueza dos olhos,
Na surpresa dos flancos esculpidos
Em carícia e carne:
A leveza dos lábios,
A solidez dos rins,
A pele a sorver pelos poros a seiva do verão.
Cai sobre as tuas espáduas:
Nasce um silêncio real de manhã jovem
Sonhando estios.
Ante os horizontes das águas fervilhantes,
Azul intenso, marinho, índigo blue,
Cresce o cheiro no ar, de ervas tontas,
Aromas da tua pele.
Nesta faixa de areia onde se alastra o mar,
As espumas fervem,
Ao árdego contato
Do corpo que adolesce, glorioso e nu.
O teu rosto rubro,
Despido até dos últimos ornatos,
Na moldura da negra cabeleira
Desatada sobre a luz pueril dos ombros.
A tua luz de apenas dezessete anos,
A refletir-se, metálica,
Nos teus dentes brancos,
Na franqueza dos olhos,
Na surpresa dos flancos esculpidos
Em carícia e carne:
A leveza dos lábios,
A solidez dos rins,
A pele a sorver pelos poros a seiva do verão.
O tempo é o puro vento
O tempo é o puro vento soprando em plena praia
A poeira de luzes que os ares incendeia,
E à luz do sol da vida o tempo vai
À busca de si mesmo, por entre grãos de areia.
Entanto, é breve a hora, das luzes a colméia
Dissolve-se no ar, derrama-se o mel, se espraia,
Pois mal, vermelho, o dia, luminoso, raia,
Levanta-se no alto céu a branca lua cheia.
Não me parece justo agora a noite caia
E venha a morte abaixo pôr a vida alheia
Ao som com que, sereia, o navegante atraia.
Lateja o sangue quente em nossa veia,
Quer, do tempo, ficar entre as alfaias,
Mas, o tempo,ai!,não há quem nele creia.
A poeira de luzes que os ares incendeia,
E à luz do sol da vida o tempo vai
À busca de si mesmo, por entre grãos de areia.
Entanto, é breve a hora, das luzes a colméia
Dissolve-se no ar, derrama-se o mel, se espraia,
Pois mal, vermelho, o dia, luminoso, raia,
Levanta-se no alto céu a branca lua cheia.
Não me parece justo agora a noite caia
E venha a morte abaixo pôr a vida alheia
Ao som com que, sereia, o navegante atraia.
Lateja o sangue quente em nossa veia,
Quer, do tempo, ficar entre as alfaias,
Mas, o tempo,ai!,não há quem nele creia.
Escuta
Escuta o canto do pássaro,
Vê como sabe romper as malhas do silêncio
E lançar-se, arco-íris, no ar luminoso da manhã.
Se estiveres atento,
Verás que este arco sonoro te alcança,
Acaricia os teus ouvidos,
Suaviza o ritmo do teu coração.
Repara que o silêncio é a pauta branca
Onde o pássaro escreve a música da sua garganta.
Se estiveres atento,
Verás que a página virgem
Acha-se agora pródiga de imagens
Que o gorjeio do pássaro acrescenta:
A música da infância,
Os olhos da inocência,
A descoberta do amor.
Vê como sabe romper as malhas do silêncio
E lançar-se, arco-íris, no ar luminoso da manhã.
Se estiveres atento,
Verás que este arco sonoro te alcança,
Acaricia os teus ouvidos,
Suaviza o ritmo do teu coração.
Repara que o silêncio é a pauta branca
Onde o pássaro escreve a música da sua garganta.
Se estiveres atento,
Verás que a página virgem
Acha-se agora pródiga de imagens
Que o gorjeio do pássaro acrescenta:
A música da infância,
Os olhos da inocência,
A descoberta do amor.
Entre o azul turquesa
Entre o azul turquesa
E a brancura temporã,
A luz de sol põe à mesa
Os fogos da manhã.
O maravilhoso alfanje
Do raio de luz fende
O azul: abre-se em bandas
A dourada maçã.
O favo de mel
Da luz violenta
Escorre no céu
E logo alimenta
De laivos vermelhos
(rápidos reflexos)
Os claros espelhos
Da manhã, convexos.
A luz se distende
Dissolve a cortina
De nuvens, rasga o véu
Das sombras: ilumina!
E a brancura temporã,
A luz de sol põe à mesa
Os fogos da manhã.
O maravilhoso alfanje
Do raio de luz fende
O azul: abre-se em bandas
A dourada maçã.
O favo de mel
Da luz violenta
Escorre no céu
E logo alimenta
De laivos vermelhos
(rápidos reflexos)
Os claros espelhos
Da manhã, convexos.
A luz se distende
Dissolve a cortina
De nuvens, rasga o véu
Das sombras: ilumina!
Em calmo silêncio
Em calmo silêncio, as cousas,
Como recôndito ventre,
Contemplam-te quietas, entre
Sombras, enquanto repousas.
Indiferentes, no centro
Delas mesmas, rasas,
Elas fecham as próprias asas
E se agasalham por dentro.
Sorriem com muito sarcasmo
Quando te vêem? Ignoras,
Pois não deixam um só espasmo,
Nem mesmo um grito de espanto
A esmo, sequer um pranto
Fortuito, nas tuas horas.
Como recôndito ventre,
Contemplam-te quietas, entre
Sombras, enquanto repousas.
Indiferentes, no centro
Delas mesmas, rasas,
Elas fecham as próprias asas
E se agasalham por dentro.
Sorriem com muito sarcasmo
Quando te vêem? Ignoras,
Pois não deixam um só espasmo,
Nem mesmo um grito de espanto
A esmo, sequer um pranto
Fortuito, nas tuas horas.
Ainda agora
Ainda agora escuto os sons
Do oxigênio fluindo no interior da sonda
Que em tua garganta, pela fenda
Traqueotômica, alimenta os teus pulmões.
Lá fora a cidade se divide em parques
Dominicais, onde crianças gritam,
Aos céus unânimes, a alegria infinita
De inventar a vida, multiplicando os ecos
Na manhã de verão, cheias de luz.
Entretanto agonizas, nada inventas,
Na solidão das máquinas demoras,
E através das lágrimas contemplas,
Como um punhal cravado nos meus olhos,
O desespero mudo do teu filho.
Depois foi o silêncio irreversível.
Dificilmente poderias crer
Que estás melhor agora (é possível)
Que partiste livre por viver
Em sonho, do que teu filho que ficou
À espera da sua própria Hora.
Do oxigênio fluindo no interior da sonda
Que em tua garganta, pela fenda
Traqueotômica, alimenta os teus pulmões.
Lá fora a cidade se divide em parques
Dominicais, onde crianças gritam,
Aos céus unânimes, a alegria infinita
De inventar a vida, multiplicando os ecos
Na manhã de verão, cheias de luz.
Entretanto agonizas, nada inventas,
Na solidão das máquinas demoras,
E através das lágrimas contemplas,
Como um punhal cravado nos meus olhos,
O desespero mudo do teu filho.
Depois foi o silêncio irreversível.
Dificilmente poderias crer
Que estás melhor agora (é possível)
Que partiste livre por viver
Em sonho, do que teu filho que ficou
À espera da sua própria Hora.
Soneto do sol a pino
A pino, vertical, deflagra o sol
A luz que nos espelhos se estilhaça,
E, nos olhos acesos de quem passa,
A vida, como um cão latindo em prol
De nuvens em estado de arrebol,
Vai roendo voraz sua carcaça,
Ante as águas azuis que na hora escassa
Arrebentam-se nas pedras dos faróis.
De chofre, bate o sol na minha cara,
Interroga-me à luz dos holofotes,
E o gume em brasa dessa luz avara
Desnuda-me, pois nada foge ao jogo
Das alucinações do árdego chicote
A flamejar nas mãos do anjo de fogo.
A luz que nos espelhos se estilhaça,
E, nos olhos acesos de quem passa,
A vida, como um cão latindo em prol
De nuvens em estado de arrebol,
Vai roendo voraz sua carcaça,
Ante as águas azuis que na hora escassa
Arrebentam-se nas pedras dos faróis.
De chofre, bate o sol na minha cara,
Interroga-me à luz dos holofotes,
E o gume em brasa dessa luz avara
Desnuda-me, pois nada foge ao jogo
Das alucinações do árdego chicote
A flamejar nas mãos do anjo de fogo.
Um beijo
Um beijo, o leve contato
De lábios que se encontrem,
Esmaguem e degustem
Como pássaros a frutas.
No gatilho do tempo,
Trens-bala deflagram seu intenso movimento,
Navios de quilhas duras rasgam a pele seminal das águas,
Ônibus-espaciais devassam céus ainda virgens de navegações.
O mundo, porém, se apaga e foge de si mesmo,
Dissolve-se, vão, desnecessário.
Calam-se as palavras, morrem os ecos,
O sol falece, o corpo resta imóvel,
O braço perde a força, os cabelos param de crescer,
E a vida se agarra às formas irredutíveis.
Um beijo, apenas um beijo,
De lábios que sedentos se visitem,
De túmidas línguas que se enlacem
E resvalem nos úmidos abismos,
Perplexas, em busca do sonho e do estupor
De lábios que se encontrem,
Esmaguem e degustem
Como pássaros a frutas.
No gatilho do tempo,
Trens-bala deflagram seu intenso movimento,
Navios de quilhas duras rasgam a pele seminal das águas,
Ônibus-espaciais devassam céus ainda virgens de navegações.
O mundo, porém, se apaga e foge de si mesmo,
Dissolve-se, vão, desnecessário.
Calam-se as palavras, morrem os ecos,
O sol falece, o corpo resta imóvel,
O braço perde a força, os cabelos param de crescer,
E a vida se agarra às formas irredutíveis.
Um beijo, apenas um beijo,
De lábios que sedentos se visitem,
De túmidas línguas que se enlacem
E resvalem nos úmidos abismos,
Perplexas, em busca do sonho e do estupor
O sol fere sem nexo
O sol fere sem nexo, com finos
Punhais de luz. Não há quem veja
Um palmo além do meio-dia a pino
No ar irrespirável. A luz lateja.
A luz do trópico solstício, acesa,
Sangra na veia do dia nordestino,
A luz que vaza os olhos, de surpresa,
Como pássaro voando ao seu destino.
Línguas de luz invadem agora o cais
Confundem o marinheiro, engolem os barcos,
Que fogem aos deixar os litorais.
A luz dissolve as formas e os marcos,
Bebe os faróis da minha terra, parcos,
E os barcos, bêbados de luz, não voltam mais.
Punhais de luz. Não há quem veja
Um palmo além do meio-dia a pino
No ar irrespirável. A luz lateja.
A luz do trópico solstício, acesa,
Sangra na veia do dia nordestino,
A luz que vaza os olhos, de surpresa,
Como pássaro voando ao seu destino.
Línguas de luz invadem agora o cais
Confundem o marinheiro, engolem os barcos,
Que fogem aos deixar os litorais.
A luz dissolve as formas e os marcos,
Bebe os faróis da minha terra, parcos,
E os barcos, bêbados de luz, não voltam mais.
Certo dia.
Certo dia, verdugo de mim mesmo,
Perfurei os meus olhos abolidos
E, cego de remorso, andei a esmo,
Ante os sóis dos janeiros ressequidos.
Saltei, ladrão de mim, os altos muros
Do coração, roubei-me os meus tesouros,
Das mãos os desviei, a peso de ouro,
Na colheita de frutos imaturos.
Às Parcas peço agora alguns minutos
Em suas contas de multiplicar,
Antes que me venha o meu esterco,
Para que eu possa pagar o meu tributo
À Poesia traída e resgatar
Os delitos da vida em que me perco.
Perfurei os meus olhos abolidos
E, cego de remorso, andei a esmo,
Ante os sóis dos janeiros ressequidos.
Saltei, ladrão de mim, os altos muros
Do coração, roubei-me os meus tesouros,
Das mãos os desviei, a peso de ouro,
Na colheita de frutos imaturos.
Às Parcas peço agora alguns minutos
Em suas contas de multiplicar,
Antes que me venha o meu esterco,
Para que eu possa pagar o meu tributo
À Poesia traída e resgatar
Os delitos da vida em que me perco.
Talvez
Talvez a vida
Vivida em frangalhos,
Ache-se perdida
Em cartas de baralho,
Buscando saída,
Inútil retalho,
Às cegas, ferida,
Entre pedra e malho.
Possui rosto péssimo
De franzido cenho,
Não merece um décimo
Do meu sonho, venho
A sorrir, mas cresce-m’o
Seu espectro (quem o?)
Vivida em frangalhos,
Ache-se perdida
Em cartas de baralho,
Buscando saída,
Inútil retalho,
Às cegas, ferida,
Entre pedra e malho.
Possui rosto péssimo
De franzido cenho,
Não merece um décimo
Do meu sonho, venho
A sorrir, mas cresce-m’o
Seu espectro (quem o?)
Amanhecer
A luz da madrugada fere o céu,
Quebra-se no cais,
Reflete-se nos edifícios
De mármore e vidro,
Esboça o dia loquaz.
- “A Tarde!”, o jornaleiro grita,
Enquanto homens atônitos
Esfregam nos olhos úmidos os fragmentos dos sonhos.
Automóveis burgueses perseguem, nas avenidas
Multiplicadas, a fileira de ônibus operários,
Enquanto a cortesã de lábios pressurosos,
Molhados ainda pelo grosso orvalho noturno,
Recolhe-se ao paraíso, enfim!, de uma cama limpa.
Um pássaro canta, de metal e quartzo,
Convoca-me à sedução do novo dia,
Que ressuscita, divino, entre latões de lixo.
Mastigo meu pão de raivas
E saio à rua, cheio de aspirações.
Junto ao ponto de táxi
A tabuleta vermelha
(Não pise na grama!)
Inicia o ritual diário das proibições.
Quebra-se no cais,
Reflete-se nos edifícios
De mármore e vidro,
Esboça o dia loquaz.
- “A Tarde!”, o jornaleiro grita,
Enquanto homens atônitos
Esfregam nos olhos úmidos os fragmentos dos sonhos.
Automóveis burgueses perseguem, nas avenidas
Multiplicadas, a fileira de ônibus operários,
Enquanto a cortesã de lábios pressurosos,
Molhados ainda pelo grosso orvalho noturno,
Recolhe-se ao paraíso, enfim!, de uma cama limpa.
Um pássaro canta, de metal e quartzo,
Convoca-me à sedução do novo dia,
Que ressuscita, divino, entre latões de lixo.
Mastigo meu pão de raivas
E saio à rua, cheio de aspirações.
Junto ao ponto de táxi
A tabuleta vermelha
(Não pise na grama!)
Inicia o ritual diário das proibições.
Os relógios dos amantes
Os relógios dos amantes
Andam sempre adiantados
Pois a volúpia é urgente
E provê-la necessário.
Quando ao fim da longa tarde
O crepúsculo desce ao mar
Um seio floresce e arde,
Não pode mais esperar.
Assim a tarde crepita,
Na rubra chama de um beijo,
E sua ardência destila
O vinho volátil que excita
Memória e sonho, desejo,
Que invade a noite e cintila.
Andam sempre adiantados
Pois a volúpia é urgente
E provê-la necessário.
Quando ao fim da longa tarde
O crepúsculo desce ao mar
Um seio floresce e arde,
Não pode mais esperar.
Assim a tarde crepita,
Na rubra chama de um beijo,
E sua ardência destila
O vinho volátil que excita
Memória e sonho, desejo,
Que invade a noite e cintila.
O homem na praia
O homem sozinho
Caminha na praia
Na tarde estival.
Solitário pisa
O lençol de areia,
Areia molhada
Onde a luz do sol
Despe-se inteira
E, nua, estilhaça-se
Em cintilações.
O homem sozinho
Caminha na areia
E como companhia
Tem a sua sombra,
Uma sombra amarga,
Uma sombra magra,
Oblíqua, esticada,
De final de tarde.
O homem caminha
Em silêncio, olhando
A paisagem marinha,
E busca na tarde
Mais do que areias.
Mas o procura
Nas espumas brancas,
Nas espumas bruscas,
Nas espumas cheias?
E por que sorri
Para si mesmo
Quando o mar ondeia
As suas escamas?
Procura sereias
Nadando na crista
Das ondas do mar?
Sereias à vista
De um perdido olhar?
Sereias em bando,
Todas a cantar?
Sereias de vozes
Quase musicais
A enlouquecerem
Os heróis?
Mas não é um herói
Nosso homem na praia
Nem sonha sequer
Ser o que já foi:
Um jovem a viver
Nas praias de sol,
Nas praias do Sul,
Celebrando a fábula
De ter seu amor.
Não sonha sereias
Em praias alheias,
Sabe que é um homem
Qualquer e sem nome
E muito lhe dói
Não a falta de deuses
Mas de uma mulher.
O que medita
Buscando longe
Nos horizontes
Que trazem a noite?
Pensa as imagens
Que se perderam,
Pura miragem
Nos seus desertos?
Talvez recorde,
Num claro dia,
Ainda jovem,
Em outra praia,
O rosto amigo,
Os olhos cúmplices,
Os olhos súplices,
Talvez recorde.
Mas não se agarra
Aos dias idos
(Tudo se perde
Nos precipícios).
Apenas vive
O dia a dia,
O dia que vai,
O dia que vem,
O dia que passa
Como sombra
Sobre a face
Das águas frias,
E desconfia
Da eternidade.
Mas não é jovem
Aquele homem
E eis que pende
Para o maduro
Colhido à custa
De muitas luas,
De muitos dias,
De muitas safras
De riso e lágrima,
De muitas nuvens
Plúmbeas, feridas
Pelos relâmpagos.
Por isso vai
Sem olhar atrás,
Ao longo da praia,
À borda do mar.
Sem recuar,
Ele caminha
No escuro dorso
Do entardecer,
Em busca da noite,
A noite fechada,
Como quem sonha
Nela se perder.
Caminha na praia
Na tarde estival.
Solitário pisa
O lençol de areia,
Areia molhada
Onde a luz do sol
Despe-se inteira
E, nua, estilhaça-se
Em cintilações.
O homem sozinho
Caminha na areia
E como companhia
Tem a sua sombra,
Uma sombra amarga,
Uma sombra magra,
Oblíqua, esticada,
De final de tarde.
O homem caminha
Em silêncio, olhando
A paisagem marinha,
E busca na tarde
Mais do que areias.
Mas o procura
Nas espumas brancas,
Nas espumas bruscas,
Nas espumas cheias?
E por que sorri
Para si mesmo
Quando o mar ondeia
As suas escamas?
Procura sereias
Nadando na crista
Das ondas do mar?
Sereias à vista
De um perdido olhar?
Sereias em bando,
Todas a cantar?
Sereias de vozes
Quase musicais
A enlouquecerem
Os heróis?
Mas não é um herói
Nosso homem na praia
Nem sonha sequer
Ser o que já foi:
Um jovem a viver
Nas praias de sol,
Nas praias do Sul,
Celebrando a fábula
De ter seu amor.
Não sonha sereias
Em praias alheias,
Sabe que é um homem
Qualquer e sem nome
E muito lhe dói
Não a falta de deuses
Mas de uma mulher.
O que medita
Buscando longe
Nos horizontes
Que trazem a noite?
Pensa as imagens
Que se perderam,
Pura miragem
Nos seus desertos?
Talvez recorde,
Num claro dia,
Ainda jovem,
Em outra praia,
O rosto amigo,
Os olhos cúmplices,
Os olhos súplices,
Talvez recorde.
Mas não se agarra
Aos dias idos
(Tudo se perde
Nos precipícios).
Apenas vive
O dia a dia,
O dia que vai,
O dia que vem,
O dia que passa
Como sombra
Sobre a face
Das águas frias,
E desconfia
Da eternidade.
Mas não é jovem
Aquele homem
E eis que pende
Para o maduro
Colhido à custa
De muitas luas,
De muitos dias,
De muitas safras
De riso e lágrima,
De muitas nuvens
Plúmbeas, feridas
Pelos relâmpagos.
Por isso vai
Sem olhar atrás,
Ao longo da praia,
À borda do mar.
Sem recuar,
Ele caminha
No escuro dorso
Do entardecer,
Em busca da noite,
A noite fechada,
Como quem sonha
Nela se perder.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Conversa com minha mãe
Estive, mãe, revendo a casa,
Onde viveste durante tantos anos,
Entre flores belíssimas da selva,
Plantadas no jardim, e, no quintal,
As árvores do Sul, feitas de fábula
E lenho escurecido em cujos galhos,
Cheios de frutos auríferos e oblongos,
O vento murmurava antigas confidências.
Ao pisar a soleira da tua porta,
Vi que a poeira, sarcástica, sorria
Dos cuidados que tinhas com limpeza,
Ao tentares varrer o pó do mundo:
A limpeza das roupas e das mãos,
A mesa limpa, a vida limpa:
-Meu filho, ao tomares banho,
Esfrega-te bastante com sabão e bucha!
E como reprovavas a sujeira,
A nódoa de banana na camisa,
A mancha de café na minha gola,
O cheiro de suor no colarinho.
Porque sempre sonhaste a transparência:
Expulsavas aranhas e baratas
Que se escondiam sob pedras negras,
Embora respeitasses a esperança verde
E outros seres frágeis
Que nas noites chuvosas chegavam de visita.
Agora, todavia, a poeira ri,
Salta como clown sobre o tablado,
E, feérica, flutua e rodopia
No luminoso raio de sol
Que a telha vã projeta no soalho;
Espalha-se nos móveis e alfaias,
Tapa as frinchas deixadas nas paredes
E desenha bastos bigodes nas meninas
Que brincam de ciranda no álbum de fotografias.
Ratos roem caminhos indevassáveis,
Na cumeeira, cupins se banqueteiam.
A memória, porém, resta intocada,
E nela tua casa resplandece,
Onde falávamos de coisas corriqueiras,
Formigas pixixicas e mitos familiares.
“O cacau é boa lavra”, tu cantavas,
E, cantando, choravas de saudade
Dos dias de ainda ser menina
Numa terra negra, de massapé e lama,
Lavrada pela foice e pela enxada.
Por isso sugerias-me plantar
Cacaueiros, somente cacaueiros,
Em honra do teu pai, um pioneiro
Das atlânticas matas grapiúnas.
E o vulto do meu avô
Saía da sua bruma,
Descia da serra mais alta,
Com passos de quem nem pisa,
Adentrava tua casa,
E pousava no meu ombro,
A mão, levíssima brisa,
Como o toque de uma sombra.
Num canto do quarto, tua máquina
De costura, Vigorelli,
Recorda os tempos de vigor e sacrifício
Em que os teus olhos estavam sempre atentos
Às meias furadas do teu filho adolescente.
Cerzideira de lavras e palavras,
Costureira do ardor e da memória,
Remendavas os dias prisioneiros dos bordados.
No interior de tua solidão sem lágrimas,
Desafiavas o alpendre,
Elevavas torres orgulhosas
A céus nem sempre unânimes
Pois transidos de nuvens.
Relâmpagos cintilavam nos teus olhos
E chuvas molhavam-te os lábios pressurosos
De vinho purpúreo
Sabendo a sangue de martírios e avelãs.
Chegou então a hora dos destroços,
Teu corpo se quebrou sobre teus próprios ossos,
As estruturas da casa saltaram
Nos ares, aos pedaços.
O telefone rompeu o silêncio da madrugada
Anunciando o fim da tua longa espera.
Agora que o sol da tua pele
Dissimula os últimos revérberos,
A noite desce sobre os arrozais dos teus cabelos,
Dissolve os campos de ontem,
Transforma em cinza o trigo do teu ventre.
Teu corpo se verga como folha seca,
Não mais respira, pelos poros dos instantes,
O ardor violento do dia que se esvai,
Enquanto a tua fronte se eleva lentamente
Às dimensões perenes
Como rosa colhida na manhã da véspera.
Agora, em tua varanda, procuro o teu rosto
Embuçado talvez entre as sombras da noite,
Converso contigo que me escutas em silêncio
E em silêncio respondes com teu sorriso discreto.
Nunca tivemos um colóquio tão sereno,
Nunca tivemos um diálogo tão completo.
Morreres foi para mim teu ensinamento supremo.
Tu, que me ensinaste a vida, hoje me ensinas a morte,
Pois se pudeste morrer, de que me serve outra sorte?
Agora a morte me assusta muito menos.
Onde viveste durante tantos anos,
Entre flores belíssimas da selva,
Plantadas no jardim, e, no quintal,
As árvores do Sul, feitas de fábula
E lenho escurecido em cujos galhos,
Cheios de frutos auríferos e oblongos,
O vento murmurava antigas confidências.
Ao pisar a soleira da tua porta,
Vi que a poeira, sarcástica, sorria
Dos cuidados que tinhas com limpeza,
Ao tentares varrer o pó do mundo:
A limpeza das roupas e das mãos,
A mesa limpa, a vida limpa:
-Meu filho, ao tomares banho,
Esfrega-te bastante com sabão e bucha!
E como reprovavas a sujeira,
A nódoa de banana na camisa,
A mancha de café na minha gola,
O cheiro de suor no colarinho.
Porque sempre sonhaste a transparência:
Expulsavas aranhas e baratas
Que se escondiam sob pedras negras,
Embora respeitasses a esperança verde
E outros seres frágeis
Que nas noites chuvosas chegavam de visita.
Agora, todavia, a poeira ri,
Salta como clown sobre o tablado,
E, feérica, flutua e rodopia
No luminoso raio de sol
Que a telha vã projeta no soalho;
Espalha-se nos móveis e alfaias,
Tapa as frinchas deixadas nas paredes
E desenha bastos bigodes nas meninas
Que brincam de ciranda no álbum de fotografias.
Ratos roem caminhos indevassáveis,
Na cumeeira, cupins se banqueteiam.
A memória, porém, resta intocada,
E nela tua casa resplandece,
Onde falávamos de coisas corriqueiras,
Formigas pixixicas e mitos familiares.
“O cacau é boa lavra”, tu cantavas,
E, cantando, choravas de saudade
Dos dias de ainda ser menina
Numa terra negra, de massapé e lama,
Lavrada pela foice e pela enxada.
Por isso sugerias-me plantar
Cacaueiros, somente cacaueiros,
Em honra do teu pai, um pioneiro
Das atlânticas matas grapiúnas.
E o vulto do meu avô
Saía da sua bruma,
Descia da serra mais alta,
Com passos de quem nem pisa,
Adentrava tua casa,
E pousava no meu ombro,
A mão, levíssima brisa,
Como o toque de uma sombra.
Num canto do quarto, tua máquina
De costura, Vigorelli,
Recorda os tempos de vigor e sacrifício
Em que os teus olhos estavam sempre atentos
Às meias furadas do teu filho adolescente.
Cerzideira de lavras e palavras,
Costureira do ardor e da memória,
Remendavas os dias prisioneiros dos bordados.
No interior de tua solidão sem lágrimas,
Desafiavas o alpendre,
Elevavas torres orgulhosas
A céus nem sempre unânimes
Pois transidos de nuvens.
Relâmpagos cintilavam nos teus olhos
E chuvas molhavam-te os lábios pressurosos
De vinho purpúreo
Sabendo a sangue de martírios e avelãs.
Chegou então a hora dos destroços,
Teu corpo se quebrou sobre teus próprios ossos,
As estruturas da casa saltaram
Nos ares, aos pedaços.
O telefone rompeu o silêncio da madrugada
Anunciando o fim da tua longa espera.
Agora que o sol da tua pele
Dissimula os últimos revérberos,
A noite desce sobre os arrozais dos teus cabelos,
Dissolve os campos de ontem,
Transforma em cinza o trigo do teu ventre.
Teu corpo se verga como folha seca,
Não mais respira, pelos poros dos instantes,
O ardor violento do dia que se esvai,
Enquanto a tua fronte se eleva lentamente
Às dimensões perenes
Como rosa colhida na manhã da véspera.
Agora, em tua varanda, procuro o teu rosto
Embuçado talvez entre as sombras da noite,
Converso contigo que me escutas em silêncio
E em silêncio respondes com teu sorriso discreto.
Nunca tivemos um colóquio tão sereno,
Nunca tivemos um diálogo tão completo.
Morreres foi para mim teu ensinamento supremo.
Tu, que me ensinaste a vida, hoje me ensinas a morte,
Pois se pudeste morrer, de que me serve outra sorte?
Agora a morte me assusta muito menos.
Agosto
Imolamos teus seios em agosto,
Quando as chuvas afogam os arrozais,
E devido a relampagos demais
Os frutos se abandonam com desgosto,
Ainda verdes e com o talo exposto
No regaço do fundos quintais
E as uvas, dormentes, nos vinhais,
Avinagram de vez, e sabem a mosto.
Decepamos depois a tua rosa,
A inexpugnavel, a misteriosa,
A extasiante visão de cem mil sóis,
Tua rosa vermelha como vinho
Derramado, na palidez do linho,
Do cálice tombado nos lençois,
Quando as chuvas afogam os arrozais,
E devido a relampagos demais
Os frutos se abandonam com desgosto,
Ainda verdes e com o talo exposto
No regaço do fundos quintais
E as uvas, dormentes, nos vinhais,
Avinagram de vez, e sabem a mosto.
Decepamos depois a tua rosa,
A inexpugnavel, a misteriosa,
A extasiante visão de cem mil sóis,
Tua rosa vermelha como vinho
Derramado, na palidez do linho,
Do cálice tombado nos lençois,
Soneto do adeus
Morri de não viver, não te encontrar,
A meu lado, bebendo o mesmo vinho
De uvas primordiais, de estar sozinho
E sem amor, entre rochedo e mar.
Rios fluíram de leve, devagar,
Pois é a vida dos rios, devagarinho,
Escorrer entre pedras, de mansinho,
Em busca de outro tempo e outro lugar.
Eu não segui o rio: pura mágoa,
Debrucei-me na ponte dos momentos
E vi meu rosto a refletir, nas águas,
A minha solidão, e pude ver
Teus lábios, no meu fundo pensamento,
A me dizerem adeus: morri de te perder.
A meu lado, bebendo o mesmo vinho
De uvas primordiais, de estar sozinho
E sem amor, entre rochedo e mar.
Rios fluíram de leve, devagar,
Pois é a vida dos rios, devagarinho,
Escorrer entre pedras, de mansinho,
Em busca de outro tempo e outro lugar.
Eu não segui o rio: pura mágoa,
Debrucei-me na ponte dos momentos
E vi meu rosto a refletir, nas águas,
A minha solidão, e pude ver
Teus lábios, no meu fundo pensamento,
A me dizerem adeus: morri de te perder.
A voz
Na luz úmida de chuva
O galo canta distante
E a sua voz soluça
Tremulando na garganta.
O que pretende esse pássaro
Vibrando o bico no bronze
Do sino que ouvi em menino,
Do sino que ouvi tão longe?
Essa voz que se derrama
Parece o leve arco-íris
Sobre o céu da clara infância
Pois a manhã se ilumina
Nas suas cores azuis
Conmo um grito de criança.
.
O galo canta distante
E a sua voz soluça
Tremulando na garganta.
O que pretende esse pássaro
Vibrando o bico no bronze
Do sino que ouvi em menino,
Do sino que ouvi tão longe?
Essa voz que se derrama
Parece o leve arco-íris
Sobre o céu da clara infância
Pois a manhã se ilumina
Nas suas cores azuis
Conmo um grito de criança.
.
Colheita
Teu sorriso me fez perder o folego,
Busquei fugindo o ardor de um sopro lívido,
Teu hálito provei, em desassossego
De tocar o amor com lábios tímidos.
Era o sopro terrível do destino
Estremecendo o pássaro do medo
Nos pomares frutíferos do menino,
Que via, revelado, o seu segrredo.
Estranha decoberta, esta de amar
Entre coisas insólitas, silentes,
Que de repente querem nos falar,
E dos dizem na voz do pintassilgo
Que o sonho aconteceu e doravante
Será o nosso eterno grão de trigo.
Busquei fugindo o ardor de um sopro lívido,
Teu hálito provei, em desassossego
De tocar o amor com lábios tímidos.
Era o sopro terrível do destino
Estremecendo o pássaro do medo
Nos pomares frutíferos do menino,
Que via, revelado, o seu segrredo.
Estranha decoberta, esta de amar
Entre coisas insólitas, silentes,
Que de repente querem nos falar,
E dos dizem na voz do pintassilgo
Que o sonho aconteceu e doravante
Será o nosso eterno grão de trigo.
Posse
Enterrei no teu ventre de noviça
A lâmina que fere mas consola,
E o lírio, junto à rosa submissa,
Despetalou a lívida corola.
Um ramo de roseira, sem preguiça,
Plantei na terra, como quem imola
A terra transformada, de caliça,
Em cálice que a luz dos viola.
A terra virgem amanheceu mulher,
Deixou-se fecundar pela semente,
Grão de pólen que algum pássaro trouxe.
E, da terra fecunda, um bem-me-quer
Emergiu e sorriu alegremente
À luz que do silêncio libertou-se.
A lâmina que fere mas consola,
E o lírio, junto à rosa submissa,
Despetalou a lívida corola.
Um ramo de roseira, sem preguiça,
Plantei na terra, como quem imola
A terra transformada, de caliça,
Em cálice que a luz dos viola.
A terra virgem amanheceu mulher,
Deixou-se fecundar pela semente,
Grão de pólen que algum pássaro trouxe.
E, da terra fecunda, um bem-me-quer
Emergiu e sorriu alegremente
À luz que do silêncio libertou-se.
A chuva
A chuva, pela mão do vento, veio,
Dos mares solitários, inauditos,
Atravessou distâncias,de permeio,
Chicoteou rochedos, com atrito.
A saraiva de raivas e de gritos
Espalhou pela noite, nomes feios,
Denunciou insólitos delitos,
Urdidos nos espíritos alheios.
A espuma do mar cobriu penedos
Altíssimos, na ponta das falésias,
Depois disse, do náufrago Tirésias,
Cego no seu líquido degredo:
As suas orações, de pronto, reze-as,
Que este tempo é de pânicos e medos.
Dos mares solitários, inauditos,
Atravessou distâncias,de permeio,
Chicoteou rochedos, com atrito.
A saraiva de raivas e de gritos
Espalhou pela noite, nomes feios,
Denunciou insólitos delitos,
Urdidos nos espíritos alheios.
A espuma do mar cobriu penedos
Altíssimos, na ponta das falésias,
Depois disse, do náufrago Tirésias,
Cego no seu líquido degredo:
As suas orações, de pronto, reze-as,
Que este tempo é de pânicos e medos.
Toquei
Toquei, nos teus quadris, uma guitarra
Ainda em flor, de abismos e vertigens,
De pétalas que se precipitavam,
Efêmeras, da rosa pressentida.
Em tuas curvas de súbitas surpresas,
Cenário de desastres e sinistros,
Eu vi os amantes mais desgovernados,
Sonhando paraísos, derraparem,
Seios abaixo, patéticos, na aurora
Do teu negro jardim, clara açucena,
A entreabrir, de pronto, suas pálpebras,
De cílios pálidos e lívidos cabelos,
Nas horas que nasciam sumarentas
Silvestres como pêssegos vermelhos
Ainda em flor, de abismos e vertigens,
De pétalas que se precipitavam,
Efêmeras, da rosa pressentida.
Em tuas curvas de súbitas surpresas,
Cenário de desastres e sinistros,
Eu vi os amantes mais desgovernados,
Sonhando paraísos, derraparem,
Seios abaixo, patéticos, na aurora
Do teu negro jardim, clara açucena,
A entreabrir, de pronto, suas pálpebras,
De cílios pálidos e lívidos cabelos,
Nas horas que nasciam sumarentas
Silvestres como pêssegos vermelhos
Ardência
No campo esmeraldino a potra esgalga
Galopa ao fim da tarde derradeira,
Obstáculos vence, rasga a sombra
Ainda azul da noite zodiacal.
Sangra o peito do dia que esvai
Nas cores do crepúsculo sanguíneo,
Enquanto neste pasto de luares
Relampeja-lhe a clina em labaredas.
Dispara a cavalinha na paisagem
E seus cascos acesos repercutem
Nos tímpanos da insone madrugada.
Amanhã tornará, pluviosa, úmida
De orvalhos, minha bárbara potranca
De olhos verdes como águas marinhas.
Galopa ao fim da tarde derradeira,
Obstáculos vence, rasga a sombra
Ainda azul da noite zodiacal.
Sangra o peito do dia que esvai
Nas cores do crepúsculo sanguíneo,
Enquanto neste pasto de luares
Relampeja-lhe a clina em labaredas.
Dispara a cavalinha na paisagem
E seus cascos acesos repercutem
Nos tímpanos da insone madrugada.
Amanhã tornará, pluviosa, úmida
De orvalhos, minha bárbara potranca
De olhos verdes como águas marinhas.
Ontem
Ainda ontem, amiga, um vento frio
Trouxe a chuva do mar, nos encharcou
With a shower of rain. Em calafrios
Nós hibernamos no interior
Do automóvel. Depois, em cio,
Nos beijamos: ligamos o motor.
Como as folhas caíam sem pudor,
De repente, lembramos que era abril,
Pois árvores em flor ficavam nuas
No mês cruel. Viramos as esquinas
Como páginas perdidas pelas ruas,
No encalço do amor. E à tarde inteira,
O teu corpo cheiroso de menina
Orvalhou sua flor de laranjeira.
Trouxe a chuva do mar, nos encharcou
With a shower of rain. Em calafrios
Nós hibernamos no interior
Do automóvel. Depois, em cio,
Nos beijamos: ligamos o motor.
Como as folhas caíam sem pudor,
De repente, lembramos que era abril,
Pois árvores em flor ficavam nuas
No mês cruel. Viramos as esquinas
Como páginas perdidas pelas ruas,
No encalço do amor. E à tarde inteira,
O teu corpo cheiroso de menina
Orvalhou sua flor de laranjeira.
Soneto do silêncio
Cala-te, poeta, cala-te de vez,
Olha em silêncio o dia que anoitece
Nesse lento murmúrio, quase prece
De cores violáceas. Tal nudez
Nos cobre como véu, com todo esse
Crepuscular encanto. A embriaguez
De estarmos todos vivos nos aquece
No vinho de nossa vida, que não vês.
Contempla o coração da luz do sol,
O sol, que após vencer os altos céus,
Agoniza sozinho, peixe no anzol,
Nas espumas do mar, nos elementos,
Para amanhã erguer-se como um deus.
E seja, sua luz, teu pensamento.
Olha em silêncio o dia que anoitece
Nesse lento murmúrio, quase prece
De cores violáceas. Tal nudez
Nos cobre como véu, com todo esse
Crepuscular encanto. A embriaguez
De estarmos todos vivos nos aquece
No vinho de nossa vida, que não vês.
Contempla o coração da luz do sol,
O sol, que após vencer os altos céus,
Agoniza sozinho, peixe no anzol,
Nas espumas do mar, nos elementos,
Para amanhã erguer-se como um deus.
E seja, sua luz, teu pensamento.
As emendas e o soneto
Era um soneto cheio de emendas,
As emendas, maiores que o soneto,
Um soneto, não há quem o compreenda,
Em busca de si mesmo, insatisfeito
De suas formas atuais, seu jeito
De estar num mundo sem nenhuma lenda,
Um mundo extraviado e sem respeito
Pelo modo sutil com que se renda
Preito a flores e a coisas mais efêmeras,
Uma coisa qualquer, sem artifício,
O testemunho com que se venera
O sonho que sonho se perdeu,
A beleza do vôo e o precipício
Inventados pelo pássaro no céu.
As emendas, maiores que o soneto,
Um soneto, não há quem o compreenda,
Em busca de si mesmo, insatisfeito
De suas formas atuais, seu jeito
De estar num mundo sem nenhuma lenda,
Um mundo extraviado e sem respeito
Pelo modo sutil com que se renda
Preito a flores e a coisas mais efêmeras,
Uma coisa qualquer, sem artifício,
O testemunho com que se venera
O sonho que sonho se perdeu,
A beleza do vôo e o precipício
Inventados pelo pássaro no céu.
Soneto da celebração
Aqui me encontro sozinho,
Com a minha poesia,
Esse aceso passarinho
A cantar, não de alegria,
Mas de haver bebido o vinho
Donde emerge, todavia,
A verdade, no seu ninho
De insubmissa agonia.
A verdade, nua e crua,
A ser comida com coentro,
Os olhos voltados à lua
No reino do eu-sozinho,
A engolir, goela a dentro,
O rícino que adivinho.
Com a minha poesia,
Esse aceso passarinho
A cantar, não de alegria,
Mas de haver bebido o vinho
Donde emerge, todavia,
A verdade, no seu ninho
De insubmissa agonia.
A verdade, nua e crua,
A ser comida com coentro,
Os olhos voltados à lua
No reino do eu-sozinho,
A engolir, goela a dentro,
O rícino que adivinho.
Lâmina
O relâmpago agita,
Azul, no alvo linho
Do pescoço esguio,
A lâmina faminta.
A vida, por um fio,
Dia a dia, vivida,
Perde altura, erguida
Sobre o seu vazio,
E cai, leve pétala
De rosa, sépala
E cálice, do galho.
Na elegante gola,
A cabeleira rola
E mergulha no orvalho.
Azul, no alvo linho
Do pescoço esguio,
A lâmina faminta.
A vida, por um fio,
Dia a dia, vivida,
Perde altura, erguida
Sobre o seu vazio,
E cai, leve pétala
De rosa, sépala
E cálice, do galho.
Na elegante gola,
A cabeleira rola
E mergulha no orvalho.
A meus olhos
A meus olhos de súbitas carências
Arremessas o alfanje mais terrível
Decapitando as nuvens passageiras
Onde repousa o pássaro ferido.
Desta vez entretanto retornei
Disfarçado em mágico e vaqueiro
De cavalos e vacas, tresmalhados
Pelos campos molhados da memória.
Na verdade, vaqueiro, eu possuía
O dom de transmutar-me em esfinge
Qual se fora secreto personagem.
Agora, nessa íntima refrega,
Descubro a tua essência verdadeira
De ser tímida corça que se entrega.
Arremessas o alfanje mais terrível
Decapitando as nuvens passageiras
Onde repousa o pássaro ferido.
Desta vez entretanto retornei
Disfarçado em mágico e vaqueiro
De cavalos e vacas, tresmalhados
Pelos campos molhados da memória.
Na verdade, vaqueiro, eu possuía
O dom de transmutar-me em esfinge
Qual se fora secreto personagem.
Agora, nessa íntima refrega,
Descubro a tua essência verdadeira
De ser tímida corça que se entrega.
Nua
Nua
Nos brancos
Lençóis
Da noite.
Carregas
Nos olhos
As cargas
Do imponderável.
Úmida
De seiva e cálcio,
Súbita nuvem.
Iluminada
Pelos
Relâmpagos.
Nos brancos
Lençóis
Da noite.
Carregas
Nos olhos
As cargas
Do imponderável.
Úmida
De seiva e cálcio,
Súbita nuvem.
Iluminada
Pelos
Relâmpagos.
Palavra e silêncio
As palavras que procuro
Passam altas como nuvens,
Distantes, inacessíveis,
No claro céu do verão.
São nuvens que se dispersam
E se perdem, se diluem,
Desenhando novas formas,
E buscando novos sonhos.
Por isso fico em silêncio
Nesta praia solitária,
Adormecido na areia,
Sentindo a carícia do sol,
Sobre a minha face inútil
Enquanto a noite não vem.
Passam altas como nuvens,
Distantes, inacessíveis,
No claro céu do verão.
São nuvens que se dispersam
E se perdem, se diluem,
Desenhando novas formas,
E buscando novos sonhos.
Por isso fico em silêncio
Nesta praia solitária,
Adormecido na areia,
Sentindo a carícia do sol,
Sobre a minha face inútil
Enquanto a noite não vem.
Soneto da leve luz
A leve luz das nove da manhã
Pousa, eterna, no dia que se espelha
Em mitos joviais. Na janela
Do azul, um rosto jovem de mulher
Assoma a sorrir dos rituais.
Às nove, a vida urge. Agora, às dez,
Ela ruge na jaula do talvez,
Como sombra confusa que se esgarça
Em muros infiéis. E nas paredes
De grutas e cavernas, vejo a imagem
Da moça a pedalar o claro corpo
Do amor: o sedutor. Ah me seduz
Saber que na paisagem sou ninguém
Que sabe, por um triz, que vai morrer.
Pousa, eterna, no dia que se espelha
Em mitos joviais. Na janela
Do azul, um rosto jovem de mulher
Assoma a sorrir dos rituais.
Às nove, a vida urge. Agora, às dez,
Ela ruge na jaula do talvez,
Como sombra confusa que se esgarça
Em muros infiéis. E nas paredes
De grutas e cavernas, vejo a imagem
Da moça a pedalar o claro corpo
Do amor: o sedutor. Ah me seduz
Saber que na paisagem sou ninguém
Que sabe, por um triz, que vai morrer.
Soneto à l'après midi d'un faune
A procura do amor no fim da tarde
Amarela de um fauno que se assume:
Dissolve-se em paixão e em chamas arde
O sedutor lascivo, cheio de ciúme.
Fauno velho demais, jamais covarde,
Desejando aspirar, fundo, o perfume
Do seio da menina ainda implume
Que se entregue de vez, não se retarde.
Antes que o sol se ponha e venha a lua,
Cresce-lhe a paixão de lua cheia,
Um fauno a planejar uma das suas...
As ninfetas , porém, fogem na areia
Da praia ainda quente e onde, nuas,
Entregaram-se ao Sol, como sereias.
Caminhando
inventar outra vez a solidão,
caminhando, criar o bom caminho,
sentir, árdego, o sangue, como vinho,
e fresca a madrugada, como o pão.
Ser aquele que sempre se descobre
na esquina das mortes e das vidas,
sozinho contudo não se sente pobre
e procura somente uma saída.
Pode a a vida ser leve como o vento,
pena de pássaro perdido, pétala
da rosa que respiro desatento.
Ração de sol no meu quinhão de areia,
por isso busco as cores amarelas
que incandescem os fogos da sereia.
Amarela de um fauno que se assume:
Dissolve-se em paixão e em chamas arde
O sedutor lascivo, cheio de ciúme.
Fauno velho demais, jamais covarde,
Desejando aspirar, fundo, o perfume
Do seio da menina ainda implume
Que se entregue de vez, não se retarde.
Antes que o sol se ponha e venha a lua,
Cresce-lhe a paixão de lua cheia,
Um fauno a planejar uma das suas...
As ninfetas , porém, fogem na areia
Da praia ainda quente e onde, nuas,
Entregaram-se ao Sol, como sereias.
Caminhando
inventar outra vez a solidão,
caminhando, criar o bom caminho,
sentir, árdego, o sangue, como vinho,
e fresca a madrugada, como o pão.
Ser aquele que sempre se descobre
na esquina das mortes e das vidas,
sozinho contudo não se sente pobre
e procura somente uma saída.
Pode a a vida ser leve como o vento,
pena de pássaro perdido, pétala
da rosa que respiro desatento.
Ração de sol no meu quinhão de areia,
por isso busco as cores amarelas
que incandescem os fogos da sereia.
domingo, 19 de agosto de 2007
Projeto
Outra coisa não quero em minha vida
Senão vivê-la de uma vez e sempre,
A teu lado de calma companheira,
Aceso no arco-íris do teu riso,
Atingido, à luz do teu relâmpago,
Pelos olhos cerúleos e azuis,
Com que de madrugada me despertas
Ofertando-me as cores da manhã.
Outra coisa não quero, nem montanha,
Onde gados ruminem preguiçosos,
Nem mesmo o vale onde frutos cresçam
Ao pé das graves chuvas de equinócio.
- Destas, basta fruir o só murmúrio
Com que misteriosas buscam o mar.
Senão vivê-la de uma vez e sempre,
A teu lado de calma companheira,
Aceso no arco-íris do teu riso,
Atingido, à luz do teu relâmpago,
Pelos olhos cerúleos e azuis,
Com que de madrugada me despertas
Ofertando-me as cores da manhã.
Outra coisa não quero, nem montanha,
Onde gados ruminem preguiçosos,
Nem mesmo o vale onde frutos cresçam
Ao pé das graves chuvas de equinócio.
- Destas, basta fruir o só murmúrio
Com que misteriosas buscam o mar.
No flanco do tempo
No flanco do tempo, dulcíssima bruma,
Grão de areia fina, o dia desmaia,
Pássaro ferido pelo leve raio
Caindo no abismo de brancas espumas.
Barco de papel em mar de tormentas
A chuva dissolve meu velho trabalho
E na chuva das horas em que me amortalho
Espero a manhã renascer desatenta.
Às vezes, a vida tem sabor antigo,
Como fosse côdea de pão amanhecido:
Invernos, verões, novembros e maios.
Tenho fome dos gomos dessa doce fruta
Do mel que escorresse como luz enxuta,
Dos olhos acesos para a flor dos lábios.
Grão de areia fina, o dia desmaia,
Pássaro ferido pelo leve raio
Caindo no abismo de brancas espumas.
Barco de papel em mar de tormentas
A chuva dissolve meu velho trabalho
E na chuva das horas em que me amortalho
Espero a manhã renascer desatenta.
Às vezes, a vida tem sabor antigo,
Como fosse côdea de pão amanhecido:
Invernos, verões, novembros e maios.
Tenho fome dos gomos dessa doce fruta
Do mel que escorresse como luz enxuta,
Dos olhos acesos para a flor dos lábios.
Miragens
Gritam pelos poros, pela carne,
Teus cantos de sereia, branca espuma,
Por isso busco, nesse mar selvagem,
Tua salgada face de medusa.
Ondas, sal, sargaços, arrebentam
A tua imagem trêmula, intranqüila,
Por isso nessas águas violentas
Abandono, de mim, toda procura.
Diante de miragens, me interrogo:
Oh, lágrima escrava dos meus olhos,
Como resgatar a minha imagem?
Onde me encontrar na sombra urgente,
Para experimentar nos meus sedentos lábios
A embriaguez dos vinhos que não mentem?
Teus cantos de sereia, branca espuma,
Por isso busco, nesse mar selvagem,
Tua salgada face de medusa.
Ondas, sal, sargaços, arrebentam
A tua imagem trêmula, intranqüila,
Por isso nessas águas violentas
Abandono, de mim, toda procura.
Diante de miragens, me interrogo:
Oh, lágrima escrava dos meus olhos,
Como resgatar a minha imagem?
Onde me encontrar na sombra urgente,
Para experimentar nos meus sedentos lábios
A embriaguez dos vinhos que não mentem?
Limite
No limite da última palavra
Onde o grito de amor se precipita,
Onde a língua de fogo se escalavra
E abre sua lâmina faminta,
Na fronteira, que faz, da voz, astuto
Conluio, feroz conciliábulo,
Onde a noite resgata seu tributo
E o musgo vai crescendo sobre o lábio,
A solitária corça capturei,
Debrucei-a no peito meu, de borco,
E acerei meu punhal de samurai.
E no ventre do silêncio navegamos
Nossos corpos exaustos como barcos
Quando as águas se fendem para os remos
Onde o grito de amor se precipita,
Onde a língua de fogo se escalavra
E abre sua lâmina faminta,
Na fronteira, que faz, da voz, astuto
Conluio, feroz conciliábulo,
Onde a noite resgata seu tributo
E o musgo vai crescendo sobre o lábio,
A solitária corça capturei,
Debrucei-a no peito meu, de borco,
E acerei meu punhal de samurai.
E no ventre do silêncio navegamos
Nossos corpos exaustos como barcos
Quando as águas se fendem para os remos
Cacaueiros de abril
Cacaueiros de abril, descendo a encosta,
Ouvem vozes de chuvas perfumadas,
Veludíssimas folhas encharcadas
Da lágrima sutil que não se mostra,
Cântico das águas derramadas,
Beijo de amor, que a planta gosta,
Recebendo-o na face descarnada,
Para lhe dar, depois, franca resposta.
Cacaueiros, sob chuvas mais avulsas
E geladas, a molhar velhas janelas,
Onde o antigo menino se debruça
À noite, combatendo à luz de velas,
A escuridão da treva mais pressaga,
No sonho da manhã que não se apaga.
Ouvem vozes de chuvas perfumadas,
Veludíssimas folhas encharcadas
Da lágrima sutil que não se mostra,
Cântico das águas derramadas,
Beijo de amor, que a planta gosta,
Recebendo-o na face descarnada,
Para lhe dar, depois, franca resposta.
Cacaueiros, sob chuvas mais avulsas
E geladas, a molhar velhas janelas,
Onde o antigo menino se debruça
À noite, combatendo à luz de velas,
A escuridão da treva mais pressaga,
No sonho da manhã que não se apaga.
Soneto de agosto
Ave do tempo, vinho, que elaboras,
Em tonéis de carvalho o leve gosto
Do sangue destilado das amoras
E de uvas mergulhadas no desgosto
De atravessar o litoral das horas
Para alcançar o litoral do mosto,
Este grito claríssimo de auroras
Esmagadas nos dentes do sol-posto.
Áspero sangue em lacerado lábio
Sedento de carícias e de beijos
Que se oferecem sedutores, sábios,
Como guardaste tantas cicatrizes
Na embriaguez do amor, fúria e desejo,
Sugada ao chão por ávidas raízes?
Em tonéis de carvalho o leve gosto
Do sangue destilado das amoras
E de uvas mergulhadas no desgosto
De atravessar o litoral das horas
Para alcançar o litoral do mosto,
Este grito claríssimo de auroras
Esmagadas nos dentes do sol-posto.
Áspero sangue em lacerado lábio
Sedento de carícias e de beijos
Que se oferecem sedutores, sábios,
Como guardaste tantas cicatrizes
Na embriaguez do amor, fúria e desejo,
Sugada ao chão por ávidas raízes?
Posse
Alguma coisa agora se inaugura,
Põe-se logo a pulsar, e sinto preso,
No peito, dentro, o pássaro indefeso,
A cantar sua própria conjetura
De erguer no alto céu todo o seu peso,
Tão só para embalar, na urdidura
Do cântico longínquo, leve, aceso,
O sujo ouvido de toda criatura.
Eis o pássaro ferido, que se arrasta
No espinheiro, sangrando por amor,
Fremindo asas após, inaugurando
O mais azul dos céus, reconquistando
No céu azul a posse do seu vôo
(Seu vôo é sua vida), que lhe basta.
Põe-se logo a pulsar, e sinto preso,
No peito, dentro, o pássaro indefeso,
A cantar sua própria conjetura
De erguer no alto céu todo o seu peso,
Tão só para embalar, na urdidura
Do cântico longínquo, leve, aceso,
O sujo ouvido de toda criatura.
Eis o pássaro ferido, que se arrasta
No espinheiro, sangrando por amor,
Fremindo asas após, inaugurando
O mais azul dos céus, reconquistando
No céu azul a posse do seu vôo
(Seu vôo é sua vida), que lhe basta.
Roleta russa
Saciar a fome
Do absoluto
É antever o homem
Além do seu vulto,
A sombra que some
Para seu reduto,
Até que detone
O eterno minuto,
Grito que se cala
Sob lábio enxuto,
Como se a fala
Fosse só insulto,
Como se uma bala
Fosse doce fruto.
Do absoluto
É antever o homem
Além do seu vulto,
A sombra que some
Para seu reduto,
Até que detone
O eterno minuto,
Grito que se cala
Sob lábio enxuto,
Como se a fala
Fosse só insulto,
Como se uma bala
Fosse doce fruto.
Questões
Até quando, meu Deus, a indumentária
De ossos e de peles e de pelos,
Essa trança de lírios e cabelos,
Trigo maduro e pasto de alimária
Que se debruça, louca e solitária,
Nos pântanos, gemendo, e a gemê-lo,
Atira-se às águas, sem apelo,
Com essa fúria de coisa itinerária?
Até quando, meu Deus, mas Deus, que Deus,
Senão o gesto de quem diz adeus
Ao grito que soluça na garganta
Daquele que, escalando seus escombros,
Enfrenta com estranho desassombro
O medo de morrer, e sempre canta?
De ossos e de peles e de pelos,
Essa trança de lírios e cabelos,
Trigo maduro e pasto de alimária
Que se debruça, louca e solitária,
Nos pântanos, gemendo, e a gemê-lo,
Atira-se às águas, sem apelo,
Com essa fúria de coisa itinerária?
Até quando, meu Deus, mas Deus, que Deus,
Senão o gesto de quem diz adeus
Ao grito que soluça na garganta
Daquele que, escalando seus escombros,
Enfrenta com estranho desassombro
O medo de morrer, e sempre canta?
sábado, 18 de agosto de 2007
Soneto da Adolescência
Eras bem jovem, como nunca mais,
Como jamais em toda a tua vida,
E tinhas salso gosto de partida,
Águas do mar nos olhos e nos lábios
Sôfregos de amor, sedentos, sábios
De tantos beijos imemoriais
Que eu lhes mordia a carne proibida,
Em desafio aos códigos penais,
Pois não podia possuir-te a pura
Nudez de fruta em dádiva madura,
Cuja casca se rasga como roupa,
Cuja pele se fende como hímen,
Entretanto bem doce foi o crime
De saborear-te, fruta, o gomo, a polpa,
Como jamais em toda a tua vida,
E tinhas salso gosto de partida,
Águas do mar nos olhos e nos lábios
Sôfregos de amor, sedentos, sábios
De tantos beijos imemoriais
Que eu lhes mordia a carne proibida,
Em desafio aos códigos penais,
Pois não podia possuir-te a pura
Nudez de fruta em dádiva madura,
Cuja casca se rasga como roupa,
Cuja pele se fende como hímen,
Entretanto bem doce foi o crime
De saborear-te, fruta, o gomo, a polpa,
Soneto da Busca
Tantos anos depois, eu te procuro
Nos corredores deste labirinto
Onde esquecemos a canção dos pássaros
Em troca de tesouros insepultos.
Tanta gente passou por esta ponte,
Precipícios de loucos e suicidas,
Tantas folhas caíram destas árvores,
Testemunhas fiéis da nossa ausência.
Muitos anos depois, inda procuro
A luz do arco-íris nos teus olhos,
E de repente a máquina do tempo
Ressuscita, cerúleo, este relâmpago,
Movimentando os dínamos do sonho
No interstício da pálida memória.
Nos corredores deste labirinto
Onde esquecemos a canção dos pássaros
Em troca de tesouros insepultos.
Tanta gente passou por esta ponte,
Precipícios de loucos e suicidas,
Tantas folhas caíram destas árvores,
Testemunhas fiéis da nossa ausência.
Muitos anos depois, inda procuro
A luz do arco-íris nos teus olhos,
E de repente a máquina do tempo
Ressuscita, cerúleo, este relâmpago,
Movimentando os dínamos do sonho
No interstício da pálida memória.
Pátria minha
Eis o reino das terras cacaueiras
Onde escorrem sumos e delícias,
Frutos amarelos de promessas,
Para lábios famintos de carícias.
Sementes, gomos e primícias,
Arrebentam nos ramos encharcados,
Quando as chuvas desabam como alvíssaras
Jubilosas e quase musicais.
Aqui nós mergulhamos na vertigem
Do grão que debulhamos das espigas
Para nutrir estranhos estrangeiros.
Aqui nós habitamos a poeira
Onde os ventos fustigam tantas rugas,
Com o látego na mão. Ó minha pátria...
Onde escorrem sumos e delícias,
Frutos amarelos de promessas,
Para lábios famintos de carícias.
Sementes, gomos e primícias,
Arrebentam nos ramos encharcados,
Quando as chuvas desabam como alvíssaras
Jubilosas e quase musicais.
Aqui nós mergulhamos na vertigem
Do grão que debulhamos das espigas
Para nutrir estranhos estrangeiros.
Aqui nós habitamos a poeira
Onde os ventos fustigam tantas rugas,
Com o látego na mão. Ó minha pátria...
domingo, 12 de agosto de 2007
Os mortos
Estamos mortos, sem escapatória,
Mergulhados, sulfúricos, no ácido,
Procurando, fantasmas sem memória,
O resgate do tempo vivo e plácido.
Arquipélagos de pélagos gelados,
Somos sofreguidão e vil matéria
À espera de espíritos alados
Que a tornem mais leve e mais aérea.
Se o punhal dessa esfera tanto fere,
A noite desce em nós, pássaro cego
Sem Estrela Vésper a iluminar-lhe a sorte.
É o grão na ampulheta, o pó que adere
À nossa pele, implacável, e nos persegue:
Conteúdo final da nossa morte.
Mergulhados, sulfúricos, no ácido,
Procurando, fantasmas sem memória,
O resgate do tempo vivo e plácido.
Arquipélagos de pélagos gelados,
Somos sofreguidão e vil matéria
À espera de espíritos alados
Que a tornem mais leve e mais aérea.
Se o punhal dessa esfera tanto fere,
A noite desce em nós, pássaro cego
Sem Estrela Vésper a iluminar-lhe a sorte.
É o grão na ampulheta, o pó que adere
À nossa pele, implacável, e nos persegue:
Conteúdo final da nossa morte.
O fim da picada
O sapato, cambaio como o dono,
É sapato andarilho e sem destino,
Como a planta do pé que se aconchega,
Companheira, em seu peito, a completá-lo.
O cadarço de linho, o toque inglês,
Como laço elegante de gravata,
Puído, pende, para que o pé se deixe
Demorar nos vinhosos descaminhos.
À luz do sol da vida, certa vez,
Ele pisou com força, na esperança
De alcançar sua Terra Prometida.
Agora é um traste só e abandonado,
(O outro pé sumiu) na viuvez
Que uma lata de lixo dissimula.
É sapato andarilho e sem destino,
Como a planta do pé que se aconchega,
Companheira, em seu peito, a completá-lo.
O cadarço de linho, o toque inglês,
Como laço elegante de gravata,
Puído, pende, para que o pé se deixe
Demorar nos vinhosos descaminhos.
À luz do sol da vida, certa vez,
Ele pisou com força, na esperança
De alcançar sua Terra Prometida.
Agora é um traste só e abandonado,
(O outro pé sumiu) na viuvez
Que uma lata de lixo dissimula.
Soneto dos meninos buliçosos
Na luz oblíquia da manhã suave
Os meninos se quedam, pensativos,
Flutuando no sonho, como aves,
No céu vazio e isento de motivos.
São meninos, enfim, de carne e osso,
Ou são anjos de asas invisíveis,
Um anjo cara a cara, todo nosso,
Mensageiro de mundos intangíveis?
O arco-íris que escorresse luz
Fosse talvez apenas o reflexo
Dessas cores castanhas ou azuis
A iluminar o olhar destes meninos
Que amanhecem fazendo desatinos
E adormecem a falar coisas sem nexo.
Os meninos se quedam, pensativos,
Flutuando no sonho, como aves,
No céu vazio e isento de motivos.
São meninos, enfim, de carne e osso,
Ou são anjos de asas invisíveis,
Um anjo cara a cara, todo nosso,
Mensageiro de mundos intangíveis?
O arco-íris que escorresse luz
Fosse talvez apenas o reflexo
Dessas cores castanhas ou azuis
A iluminar o olhar destes meninos
Que amanhecem fazendo desatinos
E adormecem a falar coisas sem nexo.
Soneto do vaso sanitário
Vaso sanitário
És o testemunho
De quanto é precário
O sumo do sonho.
Lábios abertos,
Sempre à espera
De escarros e vômitos,
Mijo e diarréia.
Tens estranha fome,
E se engoles do homem
O que lhe dá pejo,
A descarga canta
E lava a garganta
No teu gargarejo.
És o testemunho
De quanto é precário
O sumo do sonho.
Lábios abertos,
Sempre à espera
De escarros e vômitos,
Mijo e diarréia.
Tens estranha fome,
E se engoles do homem
O que lhe dá pejo,
A descarga canta
E lava a garganta
No teu gargarejo.
Revelia
Eu me procuro à minha revelia,
Não encontro senão a sombra estranha,
Aquela que me segue noite e dia
E quando me depeço, me acompanha.
Vou percorrendo o mundo, na enfadonha
Estrada, e comigo alguém caminha
No estranho labirinto de quem sonha
Um roteiro cerúleo de andorinha.
Quando, no intervalo da viagem,
Desprovido mas minhas equipagens,
No escuro, tateio os meus cabelos,
Uma sombra se acresce à minha face,
Meu perfil se dissolve sem apelo
Como se um espelho se despedaçasse.
Não encontro senão a sombra estranha,
Aquela que me segue noite e dia
E quando me depeço, me acompanha.
Vou percorrendo o mundo, na enfadonha
Estrada, e comigo alguém caminha
No estranho labirinto de quem sonha
Um roteiro cerúleo de andorinha.
Quando, no intervalo da viagem,
Desprovido mas minhas equipagens,
No escuro, tateio os meus cabelos,
Uma sombra se acresce à minha face,
Meu perfil se dissolve sem apelo
Como se um espelho se despedaçasse.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Narciso
Estás velho, meu caro, sinto pena
Do teu rosto no fundo deste espelho,
Onde Narciso, o afogado, acena
E te espia com seus olhos vermelhos.
Às vezes parece-me que o menino
Emerge como náufrago na espuma,
Agitando no ar as mãos, em suma,
Tentando se agarrar ao seu destino.
Mas sabes ser inútil (sentes medo)
Salvar o que se afoga nessas águas,
Pois tais águas se chocam no rochedo
Do espelho maldito onde arrebentas,
Estilhaças com um tiro nas tormentas
Desse mar onde moram tuas mágoas.
Do teu rosto no fundo deste espelho,
Onde Narciso, o afogado, acena
E te espia com seus olhos vermelhos.
Às vezes parece-me que o menino
Emerge como náufrago na espuma,
Agitando no ar as mãos, em suma,
Tentando se agarrar ao seu destino.
Mas sabes ser inútil (sentes medo)
Salvar o que se afoga nessas águas,
Pois tais águas se chocam no rochedo
Do espelho maldito onde arrebentas,
Estilhaças com um tiro nas tormentas
Desse mar onde moram tuas mágoas.
O Outro
De calar as palavras e verdades,
Quem fala por meus lábios não sou eu,
Porém a oculta voz de quem morreu
E ressucita em mim, pura linguagem.
Estranho som egresso da viagem
Daquele que no sonho se perdeu
E foi pastor, amigo, rei, imagem
Renascida afinal no rosto meu.
Por isso se me chamam não respondo,
Se evocam meu nome, silencio,
Se procuram por mim, logo me escondo.
Sou o grito , no escuro, consciente,
De, na concha entrebaerta desse búzio,
Que os lábios falam mas os corpos sentem.
Quem fala por meus lábios não sou eu,
Porém a oculta voz de quem morreu
E ressucita em mim, pura linguagem.
Estranho som egresso da viagem
Daquele que no sonho se perdeu
E foi pastor, amigo, rei, imagem
Renascida afinal no rosto meu.
Por isso se me chamam não respondo,
Se evocam meu nome, silencio,
Se procuram por mim, logo me escondo.
Sou o grito , no escuro, consciente,
De, na concha entrebaerta desse búzio,
Que os lábios falam mas os corpos sentem.
Cintilações
As estrelas cintilam como beijos
Na face do guerreiro agonizante
E a noite recompõe-se de asas negras
Como pássaro sem voz, decapitado.
Eis o tempo em que as gaivotas
Vencem mares de aquáticos silêncios,
E gritando proclamam-se mensagem
Revelada nos lábios do Poeta.
As sílabas levadas pelo vento
Como folhas de outono, secas, cegas,
Arrastam-se nas praias inocentes.
E nas amplas alvuras debruçadas
Na terra virgem do papel sem mácula,
Espalho ao vento o sêmen das palavras.
Na face do guerreiro agonizante
E a noite recompõe-se de asas negras
Como pássaro sem voz, decapitado.
Eis o tempo em que as gaivotas
Vencem mares de aquáticos silêncios,
E gritando proclamam-se mensagem
Revelada nos lábios do Poeta.
As sílabas levadas pelo vento
Como folhas de outono, secas, cegas,
Arrastam-se nas praias inocentes.
E nas amplas alvuras debruçadas
Na terra virgem do papel sem mácula,
Espalho ao vento o sêmen das palavras.
Por do sol
Ao por do sol
A luz do verão
Tem a maciez
Do primeiro beijo.
A leve ternura
Dessa luz suave
Que vem, não do céu,
Dos olhos da amada.
Por isso me esqueço
Na esquiva ardência
Da luz sonolenta
Onde nasce o silêncio,
Em busca da paz
Que perdi no tempo.
A luz do verão
Tem a maciez
Do primeiro beijo.
A leve ternura
Dessa luz suave
Que vem, não do céu,
Dos olhos da amada.
Por isso me esqueço
Na esquiva ardência
Da luz sonolenta
Onde nasce o silêncio,
Em busca da paz
Que perdi no tempo.
Recusa
Não aceito o mundo com suas partilhas
Seu jorro de pássaros num vôo sem trilhas,
Seus duros caminhos que só levam às ilhas,
Seus homens traídos por encruzilhadas.
Não aceito nada que nada me prove,
Pois contemplo o mundo, como ele se move:
Os remos que rasgam as águas imóveis
São asas de águias mas não me comovem.
Porém me comove e aceito essa face
De quem despojado de qualquer disfarce,
Essa face que fica no pouco em que nasce
E assim se dissipa no seu nascedouro,
Sem brilho de estrela, sem prata, nem ouro:
Aceito essta face, intenso tesouro.
Seu jorro de pássaros num vôo sem trilhas,
Seus duros caminhos que só levam às ilhas,
Seus homens traídos por encruzilhadas.
Não aceito nada que nada me prove,
Pois contemplo o mundo, como ele se move:
Os remos que rasgam as águas imóveis
São asas de águias mas não me comovem.
Porém me comove e aceito essa face
De quem despojado de qualquer disfarce,
Essa face que fica no pouco em que nasce
E assim se dissipa no seu nascedouro,
Sem brilho de estrela, sem prata, nem ouro:
Aceito essta face, intenso tesouro.
Temporal
Aos poucos,
A tarde
Do office-boy
Empalidece.
O temporal
Escorre
Pelos bueiros
Imundos.
A chuva encharca
Os passgeiros
Na fila de ônibus.
E no galho molhado
Um pássaro triste
pipila.
A tarde
Do office-boy
Empalidece.
O temporal
Escorre
Pelos bueiros
Imundos.
A chuva encharca
Os passgeiros
Na fila de ônibus.
E no galho molhado
Um pássaro triste
pipila.
A folhagem do fogo
A folhagem do fogo em que se expõe
O teu pálido corpo dessangrado
Cintilante de súbitas carícias
E silêncios de céus assassinados
Pelo vôo dos pássaros simbólicos
Que nasceram dos meus ramos e galhos
Como beijos nascidos nos meus lábios
E suicidas pousados nos teus olhos,
Essas águas de pura transparência
Onde o peixe mergulha o seu desejo
De ser o gume do punhal, aceso,
Eis a dádiva de sonho e adolescência
Que se oferece, toda vez que a vejo,
Aos meus olhos de súbitas carências.
O teu pálido corpo dessangrado
Cintilante de súbitas carícias
E silêncios de céus assassinados
Pelo vôo dos pássaros simbólicos
Que nasceram dos meus ramos e galhos
Como beijos nascidos nos meus lábios
E suicidas pousados nos teus olhos,
Essas águas de pura transparência
Onde o peixe mergulha o seu desejo
De ser o gume do punhal, aceso,
Eis a dádiva de sonho e adolescência
Que se oferece, toda vez que a vejo,
Aos meus olhos de súbitas carências.
Soneto para Jorge Medauar
Saudemos, companheiros, neste abril,
O altíssimo Poeta Medauar,
Aquele que viveu sempre a buscar
Uma rosa nas grimpas da montanha,
Esta rosa vermelha de quem sonha
E nas luzes do sonho sse ofusca,
Mas nunca duvidou da sua busca,
E sempre respondeu ao desafio.
Saudemos, companheiros, o Poeta
Do mar, da terra, do ar, dos elementos,
E também desta coisa mais secreta
Que ao mistério da vida se acrescenta,
Mas sempre se revela, o sentimento
Do amor, o puro amor, quando aos setenta.
O altíssimo Poeta Medauar,
Aquele que viveu sempre a buscar
Uma rosa nas grimpas da montanha,
Esta rosa vermelha de quem sonha
E nas luzes do sonho sse ofusca,
Mas nunca duvidou da sua busca,
E sempre respondeu ao desafio.
Saudemos, companheiros, o Poeta
Do mar, da terra, do ar, dos elementos,
E também desta coisa mais secreta
Que ao mistério da vida se acrescenta,
Mas sempre se revela, o sentimento
Do amor, o puro amor, quando aos setenta.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Soneto para Sosígenes Costa II
Às vezes, caminhando pela areia
Das praias do Sem-fim, vejo castelos,
Como jubas azuis, erguidos pelos
Dedos tímidos de pálidas sereias.
Vejo o ouro dos poentes amarelos
Nas penas do pavão, que pavoneia
Seu desespero de saber-se belo
Entre coisas tristíssimas e feias.
E vejo, longe, o vulto do Poeta,
Acenando-me, sim, a que descubra
O segredo da coisa mais secreta,
Qual se divisasse nos espelhos
A lágrima sutil de cor mais rubra
Que cintila nos meus olhos vermelhos.
Das praias do Sem-fim, vejo castelos,
Como jubas azuis, erguidos pelos
Dedos tímidos de pálidas sereias.
Vejo o ouro dos poentes amarelos
Nas penas do pavão, que pavoneia
Seu desespero de saber-se belo
Entre coisas tristíssimas e feias.
E vejo, longe, o vulto do Poeta,
Acenando-me, sim, a que descubra
O segredo da coisa mais secreta,
Qual se divisasse nos espelhos
A lágrima sutil de cor mais rubra
Que cintila nos meus olhos vermelhos.
Soneto para Sosígenes Costa I
De repente, vagando pela areia,
Surge o poeta, Sosígenes, sozinho,
A falar-me de lúbricas sereias,
Que me esperam nos pélagos marinhos.
Alguma coisa em mim se incendeia
Na curva solitária do caminho,
O sangue latejante de uma veia,
Queimando de esperanças como vinho.
- Não me tentes poeta que estou triste
De tanta solidão que agora existe
Nesta praia tão fria e sem rochedo.
- Vai-te embora sozinho sobre as ondas,
Não me leves tão cedo (para onde?)
Que estou ébrio de amor, bêbedo, bêbedo.
Surge o poeta, Sosígenes, sozinho,
A falar-me de lúbricas sereias,
Que me esperam nos pélagos marinhos.
Alguma coisa em mim se incendeia
Na curva solitária do caminho,
O sangue latejante de uma veia,
Queimando de esperanças como vinho.
- Não me tentes poeta que estou triste
De tanta solidão que agora existe
Nesta praia tão fria e sem rochedo.
- Vai-te embora sozinho sobre as ondas,
Não me leves tão cedo (para onde?)
Que estou ébrio de amor, bêbedo, bêbedo.
Depois
Depois de inverno e vento furioso
Aqui chegamos nos confins do mundo
Onde plantamos úmidas sementes
Desejando colheitas,sim, de sonhos.
E, mais que sonhos, almejamos frutos,
A doçura dos frutos amarelos,
Irmãos gêmeos do sol quando maduros,
Claro anúncio das cores da manhã.
Assim, colhemos rútilas espigas,
O grão de alpiste para o passarinho,
O pão na farta mesa, puro trigo,
E em leve lábio, o mel, o doce vinho,
Embriagando as ânforas antigas,
Tudo o que a musgo o tempo reduziu.
Aqui chegamos nos confins do mundo
Onde plantamos úmidas sementes
Desejando colheitas,sim, de sonhos.
E, mais que sonhos, almejamos frutos,
A doçura dos frutos amarelos,
Irmãos gêmeos do sol quando maduros,
Claro anúncio das cores da manhã.
Assim, colhemos rútilas espigas,
O grão de alpiste para o passarinho,
O pão na farta mesa, puro trigo,
E em leve lábio, o mel, o doce vinho,
Embriagando as ânforas antigas,
Tudo o que a musgo o tempo reduziu.
Dezembro
Eis o dia de fogo e nordestino,
Litorâneo e metálico, magnético,
Uma adaga de luz no meu destino,
Esse dédalo de sol onde poético
Vou desvendando sonhos ilusórios,
Labirinto de pedras e areias,
Onde em busca de um som encantatório
Sigo escutando o canto das sereias.
Nessa faixa de areia tao serena
Nós desenhamos sobre o peito vário
Esse raio de luz de cor morena
E nas águas azuis como alegrias
Enxaguamos o dia planetário
Nas espumas das nossas agonias.
Litorâneo e metálico, magnético,
Uma adaga de luz no meu destino,
Esse dédalo de sol onde poético
Vou desvendando sonhos ilusórios,
Labirinto de pedras e areias,
Onde em busca de um som encantatório
Sigo escutando o canto das sereias.
Nessa faixa de areia tao serena
Nós desenhamos sobre o peito vário
Esse raio de luz de cor morena
E nas águas azuis como alegrias
Enxaguamos o dia planetário
Nas espumas das nossas agonias.
Os dias
Os dias amanhecem como frutos
A porejar o mel de suas favas,
Como loucas mulheres que se entregam
Aos abismos que descem pela carne.
Flores arrebentam como beijos
Em lábios que, sedentos, se entreabrem,
Amarelos, brancos e vermelhos,
Buganvílias e prímulas selvagens.
Pássaros proclamam-se a mensagem
De coisas inocentes e desnudas,
Levadas pelo vento, na folhagem,
E seu canto de amor crepita e arde
Com um gosto de gozo e despedida
Na garganta faminta de saudades.
A porejar o mel de suas favas,
Como loucas mulheres que se entregam
Aos abismos que descem pela carne.
Flores arrebentam como beijos
Em lábios que, sedentos, se entreabrem,
Amarelos, brancos e vermelhos,
Buganvílias e prímulas selvagens.
Pássaros proclamam-se a mensagem
De coisas inocentes e desnudas,
Levadas pelo vento, na folhagem,
E seu canto de amor crepita e arde
Com um gosto de gozo e despedida
Na garganta faminta de saudades.
sábado, 4 de agosto de 2007
Para sempre
A Vida, tento fruí-la,
A Vida, tento vivê-la,
Mas me enredo na Mentira
Eternamente a perdê-la.
Quando a lua vai bem alta,
Ao longe a coruja canta,
E há um gosto de lágrima
Amargando-me a garganta.
Minha vida que passa para sempre.
A Vida, tento vivê-la,
Mas me enredo na Mentira
Eternamente a perdê-la.
Quando a lua vai bem alta,
Ao longe a coruja canta,
E há um gosto de lágrima
Amargando-me a garganta.
Minha vida que passa para sempre.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Marinha
Lúcida canção de quem se encontra
Debruçado nas altas amuradas
Do cais que se projeta e se levanta
Nas espumas das águas seqüestradas.
Nesses muros erguidos na argamassa
De areias e de musgos inauditos
Os mares arrebentam como gritos
De sereias serenas e comparsas
Do destino de cinza e noite amarga,
Pois se os olhos se voltam para o céu
As estrelas cintilam como lágrimas,
Do destino de cinza e solidão
Quando o vento cavalgo, leve, alísio,
Nas praias solitárias do meu ‘não’.
Debruçado nas altas amuradas
Do cais que se projeta e se levanta
Nas espumas das águas seqüestradas.
Nesses muros erguidos na argamassa
De areias e de musgos inauditos
Os mares arrebentam como gritos
De sereias serenas e comparsas
Do destino de cinza e noite amarga,
Pois se os olhos se voltam para o céu
As estrelas cintilam como lágrimas,
Do destino de cinza e solidão
Quando o vento cavalgo, leve, alísio,
Nas praias solitárias do meu ‘não’.
O argonauta
Como esquecer a lúcida mensagem
No céu violeta de hélices exangues,
As lâminas no ar, sujas de sangue,
Armadilhas de pássaros selvagens?
Eis o grito lancinante da linguagem
De trovões e de pálidos relâmpagos,
Quando os homens abrigam-se no âmago
Do alto sonho que se faz viagem.
Um dia, inda menino, olhei, no espaço,
O desenho das cores do arco-íris,
A cerúlea fumaça, o branco traço,
E quis fugir, nem mesmo sei para onde,
Mas agora na hora de partires
Meu pobre coração, por que te escondes?
No céu violeta de hélices exangues,
As lâminas no ar, sujas de sangue,
Armadilhas de pássaros selvagens?
Eis o grito lancinante da linguagem
De trovões e de pálidos relâmpagos,
Quando os homens abrigam-se no âmago
Do alto sonho que se faz viagem.
Um dia, inda menino, olhei, no espaço,
O desenho das cores do arco-íris,
A cerúlea fumaça, o branco traço,
E quis fugir, nem mesmo sei para onde,
Mas agora na hora de partires
Meu pobre coração, por que te escondes?
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