sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Balanço

Este homem de meia-idade
(Há pouco celebrou os cinqüent’anos)
Passou a ficar nostálgico,
Recear solidão, doença e morte;
Seus cabelos mudaram de textura
E começaram a embranquecer;
Doem-lhe as pernas, latejam-lhe os pés,
E embora um sulco em sua face esquerda
Confira-lhe um vago ar de sabedoria,
Ele reflete na mudança e sofre.
Está maduro e sente-se ainda forte,
Mas quando o sino toca, à meia-noite,
Ele escuta um pássaro sinistro
Ironizar, indiscreto, a sua sorte.

Hoje, entretanto, sentiu-se mais feliz,
Na manhã de sol, cheia de luz,
Ao descobrir-se no bairro suburbano,
De ingênuos jardins de lírios e gerânios
E muros a guardar velhos quintais.
Ante o canto de tantos passarinhos,
Sobretudo curiós, em gaiolas
De bojo, pendidas dos beirais,
Num recuo de mais de quarent’anos,
A memória saltou como relâmpago
Ao seu tempo de ainda ser menino
No casarão de pedra dos seus pais;
E durante alguns minutos ele riu
Dos seus medos inúteis, pois readquiriu
O ímpeto de viver, e sentiu-se eterno.

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