sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Cada dia

Cada dia que passa, desde a aurora
Ao revérbero crepúsculo, descubro
Que o tempo inquieto me devora.

Semeia dentro em mim os seus astutos
Grãos de silêncio, aduba-os, cultiva-os,
Almejando colher seu tenro fruto.

O tempo fertiliza as suas lavras,
Irriga estames insólitos e rubros
E dissimula as últimas palavras.

Primeiro, o meu pai se foi embora
Ainda jovem, de pálpebras cerradas,
Quando o relógio tocou a sua Hora.

Depois a minha mãe, com os olhos abertos
De tanto me buscar, partiu angustiada
De me deixar às areias do deserto.

Filho único, fiquei nesse degredo
De viver solitário, e bem mais perto
Deles me sinto agora, e é menor o medo.

Nenhum comentário: