sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Esta manhã

Esta manhã, ao despertares
Viste o lençol batizado
Pela mancha do teu esperma.

Teu corpo tinha um segredo,
Um cheiro acre, das axilas
Fluíam eflúvios azedos.

Olhaste pela janela
Mas o mundo pareceu-te
Hostil, através da remela.

E sentiste por um triz
Que a sinusite escorria
Pingava do teu nariz,

E das narinas, estranhos
Corpos saíam, sutis:
Eram pedaços de ranho.

Então procuraste cheio
De nojo, o banheiro
Buscando um pouco de asseio.

Porém diante do espelho
Teus olhos estavam sujos
Lacrimosos e vermelhos.

Passaste a mão nas orelhas
Mas elas escorregaram
Devido à seborréia.

Ao sacudires a vasta
Guedelha, viste voar
A branca nuvem de caspas.

Estavas muito gripado
E borrifavas o ar
Com úmidas gotas de orvalho.

Também estavas bem rouco
E, ao tentares falar,
Expelias perdigotos.

Em razão dos teus cigarros,
Tossias, distribuías
Pedacinhos de catarro.

E como achaste teu rosto
Grotesco, quase a máscara
De um monstro, descomposto.

E sentiste que teu hálito
Cheirava, desagradável,
Mais forte do que de hábito

Pois havia um gosto amargo
Na tua língua pastosa,
Uma mistura de sarro

E saburra, cheirando a lixo,
Ó filho da tua mãe,
Tu te sentias um bicho.

No sanitário (talvez te
Doesse então a barriga),
Tu te sentaste e espremeste

E te sentiste uma pipa
Cheia de gases, pois um ronco
Terrível te vinha das tripas,

E logo bem quente e roto
De ti algo escorregava
E descia pelo esgoto.

Depois tu tomaste um banho
Morno, ensaboaste
O corpo, como num sonho.

Por fim abriste a gaveta,
Vestiste o terno elegante,
Puseste a melhor gravata,

E saíste de uma vez
Feliz, irreconhecível,
No teu perfume francês.

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