Esta manhã, ao despertares
Viste o lençol batizado
Pela mancha do teu esperma.
Teu corpo tinha um segredo,
Um cheiro acre, das axilas
Fluíam eflúvios azedos.
Olhaste pela janela
Mas o mundo pareceu-te
Hostil, através da remela.
E sentiste por um triz
Que a sinusite escorria
Pingava do teu nariz,
E das narinas, estranhos
Corpos saíam, sutis:
Eram pedaços de ranho.
Então procuraste cheio
De nojo, o banheiro
Buscando um pouco de asseio.
Porém diante do espelho
Teus olhos estavam sujos
Lacrimosos e vermelhos.
Passaste a mão nas orelhas
Mas elas escorregaram
Devido à seborréia.
Ao sacudires a vasta
Guedelha, viste voar
A branca nuvem de caspas.
Estavas muito gripado
E borrifavas o ar
Com úmidas gotas de orvalho.
Também estavas bem rouco
E, ao tentares falar,
Expelias perdigotos.
Em razão dos teus cigarros,
Tossias, distribuías
Pedacinhos de catarro.
E como achaste teu rosto
Grotesco, quase a máscara
De um monstro, descomposto.
E sentiste que teu hálito
Cheirava, desagradável,
Mais forte do que de hábito
Pois havia um gosto amargo
Na tua língua pastosa,
Uma mistura de sarro
E saburra, cheirando a lixo,
Ó filho da tua mãe,
Tu te sentias um bicho.
No sanitário (talvez te
Doesse então a barriga),
Tu te sentaste e espremeste
E te sentiste uma pipa
Cheia de gases, pois um ronco
Terrível te vinha das tripas,
E logo bem quente e roto
De ti algo escorregava
E descia pelo esgoto.
Depois tu tomaste um banho
Morno, ensaboaste
O corpo, como num sonho.
Por fim abriste a gaveta,
Vestiste o terno elegante,
Puseste a melhor gravata,
E saíste de uma vez
Feliz, irreconhecível,
No teu perfume francês.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
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