O homem sozinho
Caminha na praia
Na tarde estival.
Solitário pisa
O lençol de areia,
Areia molhada
Onde a luz do sol
Despe-se inteira
E, nua, estilhaça-se
Em cintilações.
O homem sozinho
Caminha na areia
E como companhia
Tem a sua sombra,
Uma sombra amarga,
Uma sombra magra,
Oblíqua, esticada,
De final de tarde.
O homem caminha
Em silêncio, olhando
A paisagem marinha,
E busca na tarde
Mais do que areias.
Mas o procura
Nas espumas brancas,
Nas espumas bruscas,
Nas espumas cheias?
E por que sorri
Para si mesmo
Quando o mar ondeia
As suas escamas?
Procura sereias
Nadando na crista
Das ondas do mar?
Sereias à vista
De um perdido olhar?
Sereias em bando,
Todas a cantar?
Sereias de vozes
Quase musicais
A enlouquecerem
Os heróis?
Mas não é um herói
Nosso homem na praia
Nem sonha sequer
Ser o que já foi:
Um jovem a viver
Nas praias de sol,
Nas praias do Sul,
Celebrando a fábula
De ter seu amor.
Não sonha sereias
Em praias alheias,
Sabe que é um homem
Qualquer e sem nome
E muito lhe dói
Não a falta de deuses
Mas de uma mulher.
O que medita
Buscando longe
Nos horizontes
Que trazem a noite?
Pensa as imagens
Que se perderam,
Pura miragem
Nos seus desertos?
Talvez recorde,
Num claro dia,
Ainda jovem,
Em outra praia,
O rosto amigo,
Os olhos cúmplices,
Os olhos súplices,
Talvez recorde.
Mas não se agarra
Aos dias idos
(Tudo se perde
Nos precipícios).
Apenas vive
O dia a dia,
O dia que vai,
O dia que vem,
O dia que passa
Como sombra
Sobre a face
Das águas frias,
E desconfia
Da eternidade.
Mas não é jovem
Aquele homem
E eis que pende
Para o maduro
Colhido à custa
De muitas luas,
De muitos dias,
De muitas safras
De riso e lágrima,
De muitas nuvens
Plúmbeas, feridas
Pelos relâmpagos.
Por isso vai
Sem olhar atrás,
Ao longo da praia,
À borda do mar.
Sem recuar,
Ele caminha
No escuro dorso
Do entardecer,
Em busca da noite,
A noite fechada,
Como quem sonha
Nela se perder.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
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