sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Viagem

A morte,
Com seu branco véu
De noiva,
Cobre-te o rosto.

Silenciosa
Estátua de mármore,
Quedas-te cega:
Sobre as retinas
Baixam-se as pálpebras.

Permaneces muda
Com lábios de pedra
E dormes surda
Ao canto dos pássaros,
Ao pranto dos tristes.

A noite derrama
Sobre os teus olhos
Ainda verdes
A cortina de trevas:
O manto de terra
Úmida de lágrimas.

A noite caiu, abrupta,
Para que não vejas
Teu corpo, no barco
Onde velejas,


Para que não ouses
Ouvir o marulho
Do mar ininterrupto
Onde repousas,

Para que não toques,
Na hora absurda,
Em longo mergulho,
Os fundos abismos,
Com teus dedos lívidos.

A terra guardou-te
O Íntimo agasalho:
A roupa de barro
Negro, o escuro lençol
De areia, o duro
Manto de argila.

A negra noite
Aconchegou-te
Em seu regaço
Para que encetes
A ultima viagem.

Em pequeno barco,
Exíguo, conciso,
Agora navegas:
Navegar é preciso.

E tomas a rota
Das águas sem porto
Entre nuvens altas
E ondas revoltas.

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