CAPA PRETA
Era um pássaro do sertão, um sofrê, belo, ágil, jovial, de dorso e asas negras e de peito amarelo. Um dia, por aqui passou um homem com ele encerrado em uma gaiola. Teceu elogio às suas qualidades, e propôs-me comprá-lo. Disse-me ser um passarinho especial, bom de canto, manso e ensinado a ponto de jamais fugir, mesmo diante da portinhola da gaiola aberta. E, ato contínuo, como demonstração do que dizia, escancarou-a. O pássaro ficou inquieto, saltitou, moveu com rapidez a cabecinha para todos os lados, inclinando-a, às vezes. Depois saiu da gaiola, e, chilreando, alçou vôo, volteou em torno do seu dono, que lhe estendeu o braço esquerdo, sobre o qual a ave pousou, vitoriosa, cantando ‘seu canto sem medida, alegre e brando’.
Fiquei maravilhado e imediatamente resolvi comprá-lo, com gaiola e tudo. Paguei baratinho, pois o homem era pobre e precisava de dinheiro, coitado. Provavelmente, sem tostão, olhou os cantos da casa, viu a gaiola e seu irrequieto habitante, e resolveu fazer uns trocados. Após alguns regateios, fechei o negócio, pendurei a gaiola na parede da sala, e o sofrê se tornou o novo membro da família.
Esta, por sua vez, surpresa e espantada diante das habilidades do pássaro, aprovou o negócio. Que amor!, dizia minha mãe, que passou a cuidar dele. Meu caçula, com sua mania de nomear os bois, às voltas com o tabuleiro de xadrez, decifrava partidas do Capablanca, e teve logo a idéia de batizar o jovem morador com o nome de Capa Preta, em razão da cor negra que se espalhava, brilhante, sobre o dorso e as asas da ave.
E assim, durante cerca de cinco anos, Capa Preta se tornou a criatura mais distinta da minha casa. Comia frutos e migalhas de pão ensopado em leite. Bicava, defensivo, os dedos da minha mãe, quando ela lhe ia trocar o alimento ou o vaso d’água e proceder à limpeza dos dejetos, de maneira que entre eles dois se estabeleceu uma relação direta e amorosa, pois o pássaro era inteligente, fazia diabruras e só faltava falar, e minha mãe, fingindo recriminá-lo, mitigava o seu próprio problema de solidão e viuvez. Aliás, ela, resmungona, ralhava o tempo inteiro com ele, que, teimoso, não deixava por menos e cacarejava em resposta. Mas, sobretudo, ele cantava, e como! Celebrava a alegria de viver. Era um pássaro feliz. Muitas vezes, eu me escondia atrás das portas para não o perturbar e escutar seu canto agudo e curioso. Depois, abria-lhe a porta da gaiola, e ele saia para o seu pequeno vôo matinal. Adejava da cozinha para a sala, pousava nos ombros e cabeças dos circunstantes, ou se escondia entre os livros da estante, e ali ficava quieto.
De repente, voava para a pequena varanda do apartamento e saltitava de uma planta a outra da comportadíssima floresta doméstica constituída de vasos e xaxins, contente de fruir um pouco de alguma liberdade. Era o rei do terraço.
Depois se cansava das brincadeiras, voava de volta para a sua casinha, entrava pela portinhola, pois, com apetite de leão, queria comer alguma coisa, bicar um pedacinho de maçã, e beber um pouco d’água, levantando a cabecinha a cada gole. Era de fato, um pássaro manso, domesticado, criado, desde tenra idade, em cativeiro, de sorte que parecia haver perdido a fé na virtude de voar. Voar, voar mesmo, voar de verdade, pelos céus azuis, saborear a verdadeira liberdade, entre os demais pássaros que gritavam nas árvores da vizinhança.
Às vezes, porém, ele ficava triste, enfezado, silencioso, e se recusava a sair da gaiola. Se alguém se aproximasse, ele se encolhia, em posição de ataque, agressivo. Estava com raiva. Nessas horas era necessário respeitá-lo, deixá-lo em paz com a sua mágoa, com a sua dor. Lembrava estas pessoas solitárias, abandonadas, sem parente nem aderente, sem amigos, sem ninguém, sem eira nem beira, que de repente sentem vontade de largar tudo, mandar tudo para o inferno, partir, meter o pé na estrada, sair pelo mundo afora. Que nós, humanos, também somos assim, seres do momento, inconstantes e ambivalentes.
Porém, na vida dos pássaros, como na dos homens, sempre chega um dia de rupturas e desafios.
Pois não é que ontem, num desses passeios matinais no interior da casa, o Capa Preta deu a louca, resolveu assumir os ônus e riscos da liberdade? Voou do terraço para uma árvore na rua, onde permaneceu alguns momentos, gritando, enquanto minha mãe, aflita e ingênua, pedia-lhe para voltar. Ele, porém, fugiu, deixando-nos a todos com o coração despedaçado. Sumiu, desapareceu, se escafedeu. Abandonou sua gaiola pendurada na parede, vazia, absurda, em silêncio veemente. Ficamos aflitos, pensando e temendo coisas, ele era bobinho, quase não sabia voar, um predador pode matá-lo, um gato comê-lo. Será que ele vai sobreviver, se adaptar á nova situação, se defender das intempéries, dos ataques, e conseguir alimentos? Para mitigar o sofrimento, preferimos acreditar que sim, que ele vai vencer e ser feliz em sua nova vida, e quase sorrimos interiormente, admirados, para não dizer invejosos, da sua coragem.
O certo, entretanto, é que todos em casa estamos tristes e chocados. De vez em quando, alguém diz: - ‘mas que bobagem, era só um passarinho’. E nos calamos, pensativos. Depois, para piorar o nosso ânimo, veio esta chuva, teimosa, insistente, este frio, cortante como a navalha de um espanhol, e o vento, um vento violento que vira e revira as copas das árvores, uivante. Estamos tristes e amolados. Saio ao terraço, olho as árvores vizinhas como quem procura alguma coisa. Depois, volto à sala, aborrecido e magoado. Imaginar que um passarinho, um simples passarinho, resolve ir-se embora e deixa uma família inteira triste, pensativa, saudosa, e à beira das lágrimas.
Carlos Roberto Santos Araujo.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
A chuva toca piano
Nos tímpanos da tarde nua,
Dedilha com dedos lânguidos
O teclado das lentas ruas.
O vento sopra e ressoa
Nos altos ramos dos plátanos
E arrepia suas folhas,
Com as unhas, em pizicatto.
As águas soluçam alto,
Sonoras, monumentais,
Precipitam-se num salto,
Depois caem dos beirais,
Deixam-se escorrer sobre o asfalto
Como notas musicais.
Nos tímpanos da tarde nua,
Dedilha com dedos lânguidos
O teclado das lentas ruas.
O vento sopra e ressoa
Nos altos ramos dos plátanos
E arrepia suas folhas,
Com as unhas, em pizicatto.
As águas soluçam alto,
Sonoras, monumentais,
Precipitam-se num salto,
Depois caem dos beirais,
Deixam-se escorrer sobre o asfalto
Como notas musicais.
As mãos
As mãos pálidas, marmóreas,
Alvas como a névoa a cobrir os olhos,
Frias como o gelo a juncar o peito,
Rijas como a pedra em que se convertera o corpo,
Escultura de si mesmo.
Mãos que trabalharam,
Fundaram afagos, confortaram solidões,
Derrotaram febres de infância,
Mãos que se abriam em forma de flor,
As pétalas em busca de luz.
As mãos, frágeis pássaros
Abatidos durante o vôo,
Não mais lavravam as manhãs,
Não combatiam à sombra,
Não modulavam sequer um gesto maternal
No rosto amigo,
Nada mais buscavam,
Não acariciavam nem queriam.
As mãos abertas, num gesto de renúncia.
As mãos pálidas, marmóreas,
Alvas como a névoa a cobrir os olhos,
Frias como o gelo a juncar o peito,
Rijas como a pedra em que se convertera o corpo,
Escultura de si mesmo.
Mãos que trabalharam,
Fundaram afagos, confortaram solidões,
Derrotaram febres de infância,
Mãos que se abriam em forma de flor,
As pétalas em busca de luz.
As mãos, frágeis pássaros
Abatidos durante o vôo,
Não mais lavravam as manhãs,
Não combatiam à sombra,
Não modulavam sequer um gesto maternal
No rosto amigo,
Nada mais buscavam,
Não acariciavam nem queriam.
As mãos abertas, num gesto de renúncia.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Quando a noite, nos ombros, aconchega
A túnica de estrelas, inconsútil,
Em cinza consumida, ouves, na sombra,
A conjura dos ventos inauditos,
O murmúrio do vento que se presta
A gritar impropérios e insultos,
Fantasma que se esgueira pela fresta,
Inútil como um cão morto e insepulto.
O vento se arremessa contra o muro,
Embriaga-se na fábula do abismo,
Salta o fosso da treva, vence o escuro.
Cavaleiro do sonho, andando a esmo,
Ei-lo a perseguir seu vão destino
De unânime girar sobre si mesmo.
A túnica de estrelas, inconsútil,
Em cinza consumida, ouves, na sombra,
A conjura dos ventos inauditos,
O murmúrio do vento que se presta
A gritar impropérios e insultos,
Fantasma que se esgueira pela fresta,
Inútil como um cão morto e insepulto.
O vento se arremessa contra o muro,
Embriaga-se na fábula do abismo,
Salta o fosso da treva, vence o escuro.
Cavaleiro do sonho, andando a esmo,
Ei-lo a perseguir seu vão destino
De unânime girar sobre si mesmo.
Soneto
Tantas tardes perdidas nos insólitos
Corredores vorazes, que absorvem
O tempo em que tecemos nossas vidas,
Como se fora sumo derramado.
Tantas luzes inúteis, refletidas
No mármore asséptico e polido
Onde os passos de um homem solitário
Em silêncio deslizam e se dispersam
E se deixam extinguir, malbaratados.
À margem da vida, uma vidraça
Separa-nos, fronteira inviolável,
Do que antes orvalho e agora esfinge,
Do que bálsamo outrora, então vertigem,
Beijo hoje de pedra em lábio descarnado.
Tantas tardes perdidas nos insólitos
Corredores vorazes, que absorvem
O tempo em que tecemos nossas vidas,
Como se fora sumo derramado.
Tantas luzes inúteis, refletidas
No mármore asséptico e polido
Onde os passos de um homem solitário
Em silêncio deslizam e se dispersam
E se deixam extinguir, malbaratados.
À margem da vida, uma vidraça
Separa-nos, fronteira inviolável,
Do que antes orvalho e agora esfinge,
Do que bálsamo outrora, então vertigem,
Beijo hoje de pedra em lábio descarnado.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Soneto dos olhos
Olhos ocos e vazios, guardados
No fundo calabouço dos espelhos,
Olhos cegos e nus, emparedados,
Como peixes em blocos de alvos gelos.
Olhos, antes azuis, agora ausentes
De lágrimas quaisquer, agora parcos
De imagens, de sinais, de marcos,
Precários por não mais clarividentes.
Olhos sequestrados pela morte,
A deixarem-se guardar no cativeiro
(Do tempo?) do destempo, o cofre-forte
Do não e do nada e do perdido,
Do náufrago insepulto, marinheiro
Nos abismos do mar inexistido.
Olhos ocos e vazios, guardados
No fundo calabouço dos espelhos,
Olhos cegos e nus, emparedados,
Como peixes em blocos de alvos gelos.
Olhos, antes azuis, agora ausentes
De lágrimas quaisquer, agora parcos
De imagens, de sinais, de marcos,
Precários por não mais clarividentes.
Olhos sequestrados pela morte,
A deixarem-se guardar no cativeiro
(Do tempo?) do destempo, o cofre-forte
Do não e do nada e do perdido,
Do náufrago insepulto, marinheiro
Nos abismos do mar inexistido.
Ubi Troia Fuit
Nesta cidade, que nega trégua às narinas,
Conserva seus excretos, destila ácido úrico,
Onde sarjetas escorrem em volta aos tribunais,
E transeuntes tropeçam nas pernas dos mendigos
Que manuseiam seus testículos debaixo das altas marquises;
Nesta, que foi, um dia, Tróia, a Mui Fiel,
E hoje não passa de uma lamentável Cabul,
Sem um sonho sequer, um mito, um homem honrado,
Sem um gesto de carícia, um riso de jubilação;
Nesta, onde busquei sempre, mais que exílios,
Ruivos crepúsculos e nuvens violetas,
E cavei (inútil!) uma fonte de águas limpas
Que me lavasse a alma, da pátina do tempo;
Nesta cidade maldita, opressora de poetas,
De ouvidos moucos às églogas dos seus pastores,
Mísera de outonos, pobre de primaveras,
Pródiga, porém, de verões, milionária de infernos;
Nesta cidade tecida de conjeturas e andrajos,
Embora em parte inchada por dólares e sestércios,
Definitivamente descoroçoei, dela me despeço
E levo só o estrito, o necessário mínimo:
Minhas cinzas e cruzes, tristes túmulos,
Lembrança de mãos inertes, sem desejos,
A urna lacrada dos meus beijos
E alguns poemas de amor, desmantelados.
16.04.09
Nesta cidade, que nega trégua às narinas,
Conserva seus excretos, destila ácido úrico,
Onde sarjetas escorrem em volta aos tribunais,
E transeuntes tropeçam nas pernas dos mendigos
Que manuseiam seus testículos debaixo das altas marquises;
Nesta, que foi, um dia, Tróia, a Mui Fiel,
E hoje não passa de uma lamentável Cabul,
Sem um sonho sequer, um mito, um homem honrado,
Sem um gesto de carícia, um riso de jubilação;
Nesta, onde busquei sempre, mais que exílios,
Ruivos crepúsculos e nuvens violetas,
E cavei (inútil!) uma fonte de águas limpas
Que me lavasse a alma, da pátina do tempo;
Nesta cidade maldita, opressora de poetas,
De ouvidos moucos às églogas dos seus pastores,
Mísera de outonos, pobre de primaveras,
Pródiga, porém, de verões, milionária de infernos;
Nesta cidade tecida de conjeturas e andrajos,
Embora em parte inchada por dólares e sestércios,
Definitivamente descoroçoei, dela me despeço
E levo só o estrito, o necessário mínimo:
Minhas cinzas e cruzes, tristes túmulos,
Lembrança de mãos inertes, sem desejos,
A urna lacrada dos meus beijos
E alguns poemas de amor, desmantelados.
16.04.09
domingo, 31 de janeiro de 2010
VIBRANTE VIOLA VELADA
Hélio Pólvora
Chama-se Viola Ferida o quarto livro de poemas de Carlos Roberto Santos Araujo. O título é colhido em Mário de Andrade, uma de suas admirações. Está em Lira Paulistana, edição póstuma. A viola do poeta era bonita, cresceu com ele nos devaneios, andou pelas Arábias, cantou e namorou em Granada, depois se feriu nas borrascas da vida e veio a se quebrar em São Paulo – logo em São Paulo... Mário produz um belo verso de desabafo: “Minha viola quebrada, / Raiva, anseios, lutas, vida, / Miséria, tudo passou-se / Em São Paulo”.
Mas ainda é cedo, para o poeta Carlos Roberto, natural de Ibirapitanga, no sul baiano, apostrofar as ilusões perdidas. Ele as tem nas imagens do avô e pai fazendeiros, da mãe que já se foi e com quem conversa, na morte dos amigos. É tocado, além disso, pelas imagens duras da decadência do cacau que chegou a esboçar os contornos de uma “civilização” peculiar. Nem por isso a tristeza funda o arrasta. Quando muito, roça-o, com a fímbria da asa de uma borboleta de verão perdida no outono – e deixa um pólen de odor amargo.
Porque ele é, e assim será por enquanto, um poeta da claridade. Poeta solar, do meio-dia, da luz que se reflete, se refracta e se estilhaça. Não será à-toa que uma de suas coletâneas intitula-se Sonetos da Luz Matinal. O poeta sabe que de Babilônia restam ruínas, e que ele, revisitando-a tantas vezes, poderá a ela escravizar-se – mas vê por entre pedras avançar a verde língua do musgo decorativo. A poesia será então passaporte para o amor que salva ou deveria salvar.
Seu lirismo difere do lirismo de Mário e de outros muitos poetas brasileiros. Eqüidistante, porém, de extremos: sem a secura de João Cabral, que alguns ainda procuram imitar em vão, pois ignoram que, ao talhar a pedra, ele cria um novo lirismo — a emoção altamente represada, como que petrificada. Tampouco será o lirismo da emoção desatada. Este, por sinal, é típico de Mario. No “Prefácio Interessantíssimo”, que tanta celeuma despertou, o grande teórico do Modernismo admite irrupções de poesia que após as explosões vulcânicas ele tenta disciplinar. Nem sempre consegue - e a camada discursiva acaba por entrar na composição de versos que pedem a liberdade da obra feita. Mas, se supera o seu furor vulcânico, o grande Mário é capaz de sussurrar, como se gritasse: “Quando eu morrer quero ficar/ Não contem aos meus inimigos,/ Sepultado em minha cidade. / Saudade.” E começa a distribuir os pedaços do corpo morto. O poeta se esquarteja como forma de permanecer inteiro e unido na cidade que ama.
Carlos Roberto é visual. A emoção somente é deflagrada depois de passar pelos olhos. Se escreve um soneto sobre Sosígenes Costa, de quem herdou parte da mitologia grapiúna, juntamente com Florisvaldo Mattos, precisa ver o poeta solitário na praia, ou sob o abano majestoso das caudas dos pavões. No poema sobre o homem só que caminha, incluído nesta coletânea, ele terá de ver, antes, ao menos a sombra do caminhante. Sua poética tem concretude, felizmente. É um fragmento de realidade que, arrancado de uma emoção ainda imprecisa, se metamorfoseia em um objeto autônomo. A lava interior que o queima é domada na recriação dos estados poéticos brutos, para que nos atinja. Por isso o poeta dá impressão de estar sempre a brandir armas – e quando não esgrime os estiletes de uma luminosidade solar, tem as pedras com que provocar em águas estagnadas da memória os sutis avanços de círculos até o infinito inaudível.
Sempre presas a uma origem concreta, suas metáforas apenas sobrecarregam uma realidade sentida ou pressentida, nela impondo os traços aparentemente deformadores dos pintores expressionistas. No belo poema, em versos curtos, quase de balada, de “O homem sozinho”, predomina a lucidez do poeta e da sua criatura:
Mas não se agarra
Aos dias idos
(Tudo se perde
Nos precipícios).
Apenas vive
O dia-a-dia,
O dia que vai,
O dia que vem,
O dia que passa,
Como sombra
Sobre a face
Das águas frias
E desconfia
Da eternidade. Etc.
Há neste poeta, de forma insistente, um espírito crítico desperto. Ele indaga, busca, questiona, duvida. A poética se livra do lugar-comum, ganha alturas, tem um teor de inquirição existencial que lhe transmite substância. Nada é gratuito, nada lançado ao acaso. A poesia conceitua o canto – e por isso o canto soa com diferente timbre. Diremos, animados: “Eis um poeta novo, um poeta que procura fazer-se segundo modelos árduos de expressão e experiência”. Esse poeta está prevenido contra si, contra os outros, contra a vida e as circunstâncias. Razão por que ao seu lirismo inato, de doce enleio no soneto “Certo Dia”, junta-se a ironia, às vezes a apóstrofe ferina, o vitupério. Ele se dá ao amor ao mesmo tempo que o sonega, há um jogo deliberado na tentativa de valorizar palavras e emoções desgastadas.
Talvez seja o soneto a sua forma preferida de expressão. É dos melhores sonetistas novos da língua. E a prova disso vem, no fecho de Viola Ferida, sob forma de uma surpreendente coroa de sonetos. Um desafio, um tour-de-force. Poucos se aventuram em águas de correntes traiçoeiras e torvelinhos. Poucos têm a paciência de escolher o fio, trançar, tramar, infiltrar, corresponder, consumar. O último verso de um dos quinze sonetos inaugurando o soneto seguinte — e assim por diante, até o décimo-quinto, composto com os últimos versos de todos os sonetos da paciente e severa composição de origem medieval. Já autor de uma sextina, incluída em volume anterior, Carlos Roberto aplica sua maestria a essas formas fixas, fechadas, obstinadas, que o Modernismo afastou, mas não baniu, e que por suas mãos ressurgem, modernas e aliciantes. A última coroa de sonetos que lemos foi do poeta Geir Campos, nos idos de 1960 ou 1970.
De resto, reponta neste livro o empenho em variar de formas, com Carlos Roberto Santos Araujo empenhado em expor todo um vocabulário de poesia, todo um hinário de sonoridades, senhor de suas convenções, de seus ritos sagrados, sumo-sacerdote na hora de entoar a elevação.
© 2007-2009 - Hélio Pólvora - Escritor
Hélio Pólvora
Chama-se Viola Ferida o quarto livro de poemas de Carlos Roberto Santos Araujo. O título é colhido em Mário de Andrade, uma de suas admirações. Está em Lira Paulistana, edição póstuma. A viola do poeta era bonita, cresceu com ele nos devaneios, andou pelas Arábias, cantou e namorou em Granada, depois se feriu nas borrascas da vida e veio a se quebrar em São Paulo – logo em São Paulo... Mário produz um belo verso de desabafo: “Minha viola quebrada, / Raiva, anseios, lutas, vida, / Miséria, tudo passou-se / Em São Paulo”.
Mas ainda é cedo, para o poeta Carlos Roberto, natural de Ibirapitanga, no sul baiano, apostrofar as ilusões perdidas. Ele as tem nas imagens do avô e pai fazendeiros, da mãe que já se foi e com quem conversa, na morte dos amigos. É tocado, além disso, pelas imagens duras da decadência do cacau que chegou a esboçar os contornos de uma “civilização” peculiar. Nem por isso a tristeza funda o arrasta. Quando muito, roça-o, com a fímbria da asa de uma borboleta de verão perdida no outono – e deixa um pólen de odor amargo.
Porque ele é, e assim será por enquanto, um poeta da claridade. Poeta solar, do meio-dia, da luz que se reflete, se refracta e se estilhaça. Não será à-toa que uma de suas coletâneas intitula-se Sonetos da Luz Matinal. O poeta sabe que de Babilônia restam ruínas, e que ele, revisitando-a tantas vezes, poderá a ela escravizar-se – mas vê por entre pedras avançar a verde língua do musgo decorativo. A poesia será então passaporte para o amor que salva ou deveria salvar.
Seu lirismo difere do lirismo de Mário e de outros muitos poetas brasileiros. Eqüidistante, porém, de extremos: sem a secura de João Cabral, que alguns ainda procuram imitar em vão, pois ignoram que, ao talhar a pedra, ele cria um novo lirismo — a emoção altamente represada, como que petrificada. Tampouco será o lirismo da emoção desatada. Este, por sinal, é típico de Mario. No “Prefácio Interessantíssimo”, que tanta celeuma despertou, o grande teórico do Modernismo admite irrupções de poesia que após as explosões vulcânicas ele tenta disciplinar. Nem sempre consegue - e a camada discursiva acaba por entrar na composição de versos que pedem a liberdade da obra feita. Mas, se supera o seu furor vulcânico, o grande Mário é capaz de sussurrar, como se gritasse: “Quando eu morrer quero ficar/ Não contem aos meus inimigos,/ Sepultado em minha cidade. / Saudade.” E começa a distribuir os pedaços do corpo morto. O poeta se esquarteja como forma de permanecer inteiro e unido na cidade que ama.
Carlos Roberto é visual. A emoção somente é deflagrada depois de passar pelos olhos. Se escreve um soneto sobre Sosígenes Costa, de quem herdou parte da mitologia grapiúna, juntamente com Florisvaldo Mattos, precisa ver o poeta solitário na praia, ou sob o abano majestoso das caudas dos pavões. No poema sobre o homem só que caminha, incluído nesta coletânea, ele terá de ver, antes, ao menos a sombra do caminhante. Sua poética tem concretude, felizmente. É um fragmento de realidade que, arrancado de uma emoção ainda imprecisa, se metamorfoseia em um objeto autônomo. A lava interior que o queima é domada na recriação dos estados poéticos brutos, para que nos atinja. Por isso o poeta dá impressão de estar sempre a brandir armas – e quando não esgrime os estiletes de uma luminosidade solar, tem as pedras com que provocar em águas estagnadas da memória os sutis avanços de círculos até o infinito inaudível.
Sempre presas a uma origem concreta, suas metáforas apenas sobrecarregam uma realidade sentida ou pressentida, nela impondo os traços aparentemente deformadores dos pintores expressionistas. No belo poema, em versos curtos, quase de balada, de “O homem sozinho”, predomina a lucidez do poeta e da sua criatura:
Mas não se agarra
Aos dias idos
(Tudo se perde
Nos precipícios).
Apenas vive
O dia-a-dia,
O dia que vai,
O dia que vem,
O dia que passa,
Como sombra
Sobre a face
Das águas frias
E desconfia
Da eternidade. Etc.
Há neste poeta, de forma insistente, um espírito crítico desperto. Ele indaga, busca, questiona, duvida. A poética se livra do lugar-comum, ganha alturas, tem um teor de inquirição existencial que lhe transmite substância. Nada é gratuito, nada lançado ao acaso. A poesia conceitua o canto – e por isso o canto soa com diferente timbre. Diremos, animados: “Eis um poeta novo, um poeta que procura fazer-se segundo modelos árduos de expressão e experiência”. Esse poeta está prevenido contra si, contra os outros, contra a vida e as circunstâncias. Razão por que ao seu lirismo inato, de doce enleio no soneto “Certo Dia”, junta-se a ironia, às vezes a apóstrofe ferina, o vitupério. Ele se dá ao amor ao mesmo tempo que o sonega, há um jogo deliberado na tentativa de valorizar palavras e emoções desgastadas.
Talvez seja o soneto a sua forma preferida de expressão. É dos melhores sonetistas novos da língua. E a prova disso vem, no fecho de Viola Ferida, sob forma de uma surpreendente coroa de sonetos. Um desafio, um tour-de-force. Poucos se aventuram em águas de correntes traiçoeiras e torvelinhos. Poucos têm a paciência de escolher o fio, trançar, tramar, infiltrar, corresponder, consumar. O último verso de um dos quinze sonetos inaugurando o soneto seguinte — e assim por diante, até o décimo-quinto, composto com os últimos versos de todos os sonetos da paciente e severa composição de origem medieval. Já autor de uma sextina, incluída em volume anterior, Carlos Roberto aplica sua maestria a essas formas fixas, fechadas, obstinadas, que o Modernismo afastou, mas não baniu, e que por suas mãos ressurgem, modernas e aliciantes. A última coroa de sonetos que lemos foi do poeta Geir Campos, nos idos de 1960 ou 1970.
De resto, reponta neste livro o empenho em variar de formas, com Carlos Roberto Santos Araujo empenhado em expor todo um vocabulário de poesia, todo um hinário de sonoridades, senhor de suas convenções, de seus ritos sagrados, sumo-sacerdote na hora de entoar a elevação.
© 2007-2009 - Hélio Pólvora - Escritor
Memória e transfiguração
[in Jornal A Tarde, 11.06.2005]
Eis o Memorial de outono, editado pela Bertrand Brasil, através de esmerada feitura gráfica, roupagem digna de agasalhar o texto de um mestre na arte da prosa. Trata-se da viagem através da memória, em que, à busca do tempo perdido e do Paraíso irrecuperado, Hélio Pólvora, em certos momentos, toca os limites do seu próprio coração. Latifundiário de temas, com jurisdição em inúmeras comarcas, Hélio Pólvora pontifica em vários gêneros literários, com trâmite do conto ao romance, da poesia à crônica, da crítica ao ensaio. E agora desbrava um continente virgem, conquista o terreno resvaladiço do tempo e envereda pelas areias movediças da memória.
Logo se nota o garbo irônico da sua frase estilística, a irreverência sutil, a fina ironia machadiana, a leitura variada, a insatisfação fecunda. E se percebe o Hélio depurado, fruto de décadas de labor literário, consciente do seu ofício, refinado como o Senhor da festa a brindar os seus convidados com vinhos cada vez mais saborosos, o que não é normal, pois, desde os tempos bíblicos, o hábito é servir o vinho melhor no início da festa e o inferior depois, quando os convidados já estão todos bêbados e não percebem a menor diferença.
Neste Memorial de outono, Hélio Pólvora revisita sua infância e nos dá o retrato do pai lavrador e perito na arte de podar cacaueiros. Resgata do limbo os personagens que povoaram sua adolescência: o tio Américo, o tabelião Crescêncio, a professora Hélène, ávida de galanteios.
Menino grapiúna, Hélio cultiva um milharal imaginário, a fluir e refluir como onda eterna e verde, um milharal que prevalece sobre as injunções de uma realidade submetida ao ciclo biológico de vida e morte, um milharal que não morre jamais, pois, livre das mazelas do tempo, enraíza-se no território do sonho e vive numa quarta dimensão, a da poesia.
FICÇÃO EM CARNE VIVA - Em busca de si mesmo, Hélio Pólvora une, à maneira de Machado de Assis, pendularmente, as duas pontas de sua vida: a infância e o tempo de madureza. E nos revela, no Rio de Janeiro, o homem feito, preparado para o sofrimento e para a vida. Ali, profissional de imprensa, escreve, quase ghost writer, crônicas de Maísa, e convive com escritores famosos.
Parte importante do livro é dedicada às viagens, uma de suas paixões. Viagens a Portugal e Espanha, viagens à América. Comoventes são os seus diálogos com os lisboetas, sob o olhar cismarento de Eça de Queiroz. Maliciosa a sua conversa com o astucioso motorista de táxi que lhe queria empurrar uma Quinta portuguesa, com certeza, às margens do Ribatejo. Pungente, sobretudo, é o relato da morte do romancista Adonias Filho, o transporte do corpo hirto do velho escritor em uma carroceria de caminhonete, debaixo de chuva, pelas estradas lamacentas de Inema, aos pés da Serra da Temerosa.
Disse, no início, que este livro é uma viagem através da memória, mas não a mera memória de quem relatasse fatos de sua vida ou de quem fizesse o levantamento histórico de um período. Que Hélio Pólvora não é historiador nem biógrafo. É um autêntico ficcionista. Este livro é a memória de um escritor de ficção em carne viva, em que a recriação literária é obra de transfiguração, não só da memória, mas da memória imaginária.
As reminiscências, em Hélio Pólvora, são feitas de várias camadas de lembranças reais e fictícias. E arriscaríamos dizer que estas últimas são as mais capitosas. A maioria dos personagens que habitam sua memória é produto da sua fantasia. Que Hélio Pólvora é homem de imaginação, e grande parte de suas viagens é imaginária, pois ele, como disse o poeta, “imagina a viagem, retorna, e morre de saudades”.
Carlos Roberto Santos Araújo é poeta, autor de A nave submersa, Lira destemperada e Sonetos da luz matinal.
[in Jornal A Tarde, 11.06.2005]
Eis o Memorial de outono, editado pela Bertrand Brasil, através de esmerada feitura gráfica, roupagem digna de agasalhar o texto de um mestre na arte da prosa. Trata-se da viagem através da memória, em que, à busca do tempo perdido e do Paraíso irrecuperado, Hélio Pólvora, em certos momentos, toca os limites do seu próprio coração. Latifundiário de temas, com jurisdição em inúmeras comarcas, Hélio Pólvora pontifica em vários gêneros literários, com trâmite do conto ao romance, da poesia à crônica, da crítica ao ensaio. E agora desbrava um continente virgem, conquista o terreno resvaladiço do tempo e envereda pelas areias movediças da memória.
Logo se nota o garbo irônico da sua frase estilística, a irreverência sutil, a fina ironia machadiana, a leitura variada, a insatisfação fecunda. E se percebe o Hélio depurado, fruto de décadas de labor literário, consciente do seu ofício, refinado como o Senhor da festa a brindar os seus convidados com vinhos cada vez mais saborosos, o que não é normal, pois, desde os tempos bíblicos, o hábito é servir o vinho melhor no início da festa e o inferior depois, quando os convidados já estão todos bêbados e não percebem a menor diferença.
Neste Memorial de outono, Hélio Pólvora revisita sua infância e nos dá o retrato do pai lavrador e perito na arte de podar cacaueiros. Resgata do limbo os personagens que povoaram sua adolescência: o tio Américo, o tabelião Crescêncio, a professora Hélène, ávida de galanteios.
Menino grapiúna, Hélio cultiva um milharal imaginário, a fluir e refluir como onda eterna e verde, um milharal que prevalece sobre as injunções de uma realidade submetida ao ciclo biológico de vida e morte, um milharal que não morre jamais, pois, livre das mazelas do tempo, enraíza-se no território do sonho e vive numa quarta dimensão, a da poesia.
FICÇÃO EM CARNE VIVA - Em busca de si mesmo, Hélio Pólvora une, à maneira de Machado de Assis, pendularmente, as duas pontas de sua vida: a infância e o tempo de madureza. E nos revela, no Rio de Janeiro, o homem feito, preparado para o sofrimento e para a vida. Ali, profissional de imprensa, escreve, quase ghost writer, crônicas de Maísa, e convive com escritores famosos.
Parte importante do livro é dedicada às viagens, uma de suas paixões. Viagens a Portugal e Espanha, viagens à América. Comoventes são os seus diálogos com os lisboetas, sob o olhar cismarento de Eça de Queiroz. Maliciosa a sua conversa com o astucioso motorista de táxi que lhe queria empurrar uma Quinta portuguesa, com certeza, às margens do Ribatejo. Pungente, sobretudo, é o relato da morte do romancista Adonias Filho, o transporte do corpo hirto do velho escritor em uma carroceria de caminhonete, debaixo de chuva, pelas estradas lamacentas de Inema, aos pés da Serra da Temerosa.
Disse, no início, que este livro é uma viagem através da memória, mas não a mera memória de quem relatasse fatos de sua vida ou de quem fizesse o levantamento histórico de um período. Que Hélio Pólvora não é historiador nem biógrafo. É um autêntico ficcionista. Este livro é a memória de um escritor de ficção em carne viva, em que a recriação literária é obra de transfiguração, não só da memória, mas da memória imaginária.
As reminiscências, em Hélio Pólvora, são feitas de várias camadas de lembranças reais e fictícias. E arriscaríamos dizer que estas últimas são as mais capitosas. A maioria dos personagens que habitam sua memória é produto da sua fantasia. Que Hélio Pólvora é homem de imaginação, e grande parte de suas viagens é imaginária, pois ele, como disse o poeta, “imagina a viagem, retorna, e morre de saudades”.
Carlos Roberto Santos Araújo é poeta, autor de A nave submersa, Lira destemperada e Sonetos da luz matinal.
Um despertar perplexo
A poesia de Manuel Bandeira se caracteriza pela linguagem franca e direta. Nela nada existe de postiço nem decorativo. As palavras que o poeta utiliza são sempre necessárias ao poema, de forma que, retirada qualquer delas, este perderia a sua força expressiva. Singular, também, a sua escolha de temas. Enquanto outros poetas cantam o grandioso, o abstrato, Bandeira nos fala do pequeno, do insignificante, do concreto: um gato, um sapo, um casal de namorados, um mendigo a revirar o lixo. Coisas corriqueiras, encontradiças em becos e ruas, Bandeira as vê e transfigura através do olhar. E nos mostra como as pobres coisas cotidianas nos podem de repente emocionar. Alumbramentos. Epifanias.
Um belo exemplo desta linguagem direta e simples é o “Poema só para Jaime Ovalle”. O poeta e músico Ovalle foi uma das amizades permanentes de Manuel Bandeira, com quem este travou um longo diálogo poético. Ovalle era alma gêmea do velho bardo, ambos solitários e tristes: “Jaime Ovalle, poeta, homem triste, / Faz treze anos que tu partiste/ Para Londres imensa e triste. /Ias triste: voltaste mais triste”. Ovalle não foi personagem ‘inventado’ por Manuel Bandeira, como ‘Laura Moura’ o fora por Mário de Andrade, ‘Nega Fulô’ por Jorge de Lima , ‘Jandira’ por Murilo Mendes, ‘Luísa Porto’ por Drumonnd. Não. Era de carne e osso, e, como o velho Manuel, solitário. Daí, o tema do “Poema só para Jaime Ovalle” ser a própria solidão.
Neste poema, falaria o poeta de si mesmo ou de um alter-ego? Ou daquele “Eu que é outro”, a que se referia Rimbaud na sua Lettre du Voyant? Acredito que fala de si mesmo, do seu dia-a-dia de solteirão solitário, em um pequeno apartamento, no Rio de Janeiro. Afinal, Bandeira evitava abstrações e sua arte poética elegia sempre o real e a concretude.
Eis o primeiro verso: ”Quando hoje acordei ainda fazia escuro”. Um despertar perplexo. Todo um clima sombrio é estabelecido. A escuridão como símbolo da incerteza, do medo, da solidão, da perda. O poeta se encontra na cama, pois, afinal, ainda não se levantou. Apenas, despertou: ‘quando acordei’. Percebe, espantando, que seu quarto estava cheio de sombras, e que a manhã era triste, pois desprovida do signo vital, a luz: ‘fazia escuro’. Diz ‘fazia escuro’, e não ‘estava escuro’, como se dissesse ‘fazia frio’, com a finalidade de acentuar o desconforto que tal escuridão causava no seu espírito. Esta expressão (‘fazer’) sensibilizou muito gente boa, tanto que Tiago de Melo escreveu uma canção cujo título era nada mais nada menos que “Faz escuro, mas eu canto”, e Joaquim Cardoso, elegíaco, dizia: “A chuva cai, alaga o chão, encharca os ventos. / Ventos, velas fantasmas que vêm perdidas do alto mar./ A noite faz muito tarde.”
Descobre o poeta que dormiu demasiado, pois, malgrado fizesse escuro, o dia ia bem adiantado: “(Embora a manhã já estivesse avançada)”. Este segundo verso, de arte maior, com acento na quinta sílaba e cesura na sexta, vem entre parênteses, pois o poeta visa enfatizar a estranheza desta manhã soturna e penumbrosa. Daí colocá-la, (como a situação existencial do poeta), desprendida da dimensão espaço-temporal, e em condição suspensiva.
Só no terceiro verso compreendemos a causa da escuridão: a chuva. O poeta está desperto, deitado em sua cama, e percebe que ‘fazia escuro’. Escuta o barulho característico da água caindo nos beirais. O terceiro verso se resume neste único verbo intransitivo: ”Chovia”. Ele escuta o som da chuva e, de chofre, desvenda a causa de tamanha escuridão. Este verso vem solitário e em destaque no campo visual, como um dado imediato irrompido na consciência. A expressão ‘Chovia’ vem isolada, constituindo um único verso, pois o poeta busca dar maior força emotiva ao elemento deflagrador do sentimento de abandono vivido por ele: a chuva.
A chuva irrompe de súbito no poema, como pura presença. Ainda mal desperto das areias movediças do sono, o poeta escuta o barulho persistente das águas, e pensa: chove. Aliás, a chuva tem sido tema poético associado ao sentimento de tristeza e melancolia misturada com doçura e lágrima. Vide Verlaine, que o próprio Bandeira traduziu: “Il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville./ Quelle est cette langueur / qui penètre mon coeur?// O le douce bruit de la pluie...”
A chuva, água, alimento, alívio, força da natureza, com sua carga de emoções e reminiscências, envolve a manhã do nosso poeta. Só aí, após se dar conta da chuva, da sua presença viva, ele a qualifica e nomeia amiga e sofredora; “Chovia uma triste chuva de resignação” Por que triste, porque de resignação? As chuvas não têm sentimentos, não são tristes nem alegres, não são insatisfeitas nem resignadas, elas apenas caem, molham, escorrem, inundam. São apenas chuvas. Aqueles, entretanto, são os sentimentos do nosso poeta, resignado e triste. A chuva conduz o personagem ao clima de intimidade e meditação capaz de gestar as condições necessárias ao nascimento do poema.
No verso seguinte, o quinto – um verso longo, cadenciado, com aliterações em ‘n’, ‘c’ e‘t’, e em que a reiteração da vogal ‘o’ sugere, monocórdia e arrastada como nota de violoncelo, o estado de subjetividade meditativa do poeta, um verso sonoro, em que a palavra ‘contraste’ percute no homoteleuto ‘triste’ do verso anterior, e ecoa, adiante, na palavra ‘noite’ – neste quinto verso, “Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite’, o poeta proclama aquela chuva como bálsamo para sua alma inquieta. Talvez ele não tenha dormido bem, pois a noite fora quente, de ‘calor tempestuoso’. E tanto não dormiu bem que acordou tarde quando a manhã já estava ‘avançada’. A expressão ‘calor tempestuoso’ merece também um comentário. O calor em si mesmo não é tempestuoso, porém o seu excesso provoca tempestades. No estio, produz ‘chuvas de verão’, tempestuosas, provavelmente a chuva que irrompeu na manhã do poeta. Por outro lado, o calor pode ter sido tempestuoso, isto é, excessivo, e provocado o desconforto psicológico do poeta, durante a noite, tornando-lhe o sono angustiado e infeliz. Por isso a chuva era agora refrigério, amenizava a temperatura, viabilizava-lhe a sensação de aconchego e recolhimento mesclada de tristeza e resignação.
Somente então o poeta resolveu levantar-se do leito e enfrentar as tarefas do dia. No sexto verso ele nos informa: “Então me levantei”. Neste momento toda a solidão do poeta se revela e se instala no poema. Percebemos que o poeta dormia sozinho, sem companheira que o facultasse dizer: “Então nos levantamos”. Não, ele fala na primeira pessoa: “Então me levantei”. Este ‘me levantei’ soa como tremendo esforço, o preparo para o enfrentamento de mais um dia inútil e vazio. A sensação de vida sem sentido, à toa, como ele como ele o afirma alhures, em Andorinha: “Passei a vida, à toa, à toa”.
O poema em análise foi publicado no livro “Belo Belo”, de 1948. Tudo indica haver sido escrito por volta de 1945, quando o poeta tinha cerca de sessenta anos, idade que hoje simboliza força e maturidade, mas que, àquela época, significava estar o poeta de marcha picada para a velhice, sentindo já o frio da solidão, do vazio, da enfermidade, que cercavam a sua vida. Naquela época, ele cantava o inaccessível e a distância: “Vi uma estrela tão alta, / Vi uma estrela tão fria, / Vi uma estrela luzindo / Na minha vida vazia”.
Tal sentimento de vazio e de solidão, sempre presente na existência do poeta, é reforçado, aqui, pelo sexto verso: “Bebi o café que eu mesmo preparei”. Observe-se que o poeta não dispunha de quem lhe preparasse o café, tarefa declaradamente feminina naqueles idos de 1945. Não tinha companheira. Sequer uma empregada doméstica. Uma vida de anacoreta. “Eu mesmo preparei”, ele nos informa. E, o que é pior e robustece ainda mais o seu sentimento de solidão: não teve com quem partilhar a bebida. Tomou o seu café sozinho: “Bebi o café”.
Somente no verso seguinte é que nos damos conta de que a sua solidão é bem maior do que aparenta, pois ele não sabe sequer o que fazer do seu dia. Tanto que, após beber o café, retorna ao leito. “Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...” Dezoito sílabas, um verso longo, demorado, arrastado, sofrido, sugestivo do estado de espírito meditativo, dispersivo, em que se acha o poeta. Parece que, livre de obrigações corriqueiras, vítima da rotina, provavelmente aposentado, sentindo-se ocioso e inútil, num dia úmido, sem maiores compromissos nem solicitações, ele não sabia como preencher o tempo. Por isso, desamparado e em busca de consolo, retorna à cama: “Depois, me deitei novamente”.
A cama não é somente lugar de repouso. É também refúgio, sítio onde se evita o cansativo esforço muscular da posição vertical e se busca o esquecimento do mundo através do sono ou do alheamento. Metáfora de abrigo, consolo e retorno ao útero materno.
Deitado, sem ninguém a quem dirigir a palavra, privado de toda a comunicação humana naqueles dias em que o telefone era um luxo aristocrático, o poeta se agarra a um apoio: o maço de cigarros. Após um gole de café, nada melhor que uma boa tragada: “Acendi um cigarro”. Fumando, ele se põe a pensar vagamente, seguindo, com o olhar, a espiral da fumaça. Note-se que o verbo ‘pensar’ vem seguido de reticências, sugestivas do estado subjetivo de vagueza e devaneio propício à gestação do poema.
Em que pensava o nosso poeta? Pensava na vida, na sua vida, vazia, triste, solitária, que ele chama de ‘traição’. Seus pais e irmãos já estavam todos mortos, ‘dormindo profundamente’. E ele era homem sem família, sem mulher, sem filhos, sem ninguém. Pensava em quão ingrata lhe fora a existência, que lhe negara o amor, e , ainda agora, em seu outono, lhe negava a companhia feminina capaz de redimir os sofrimentos de um homem cansado. E como é a mulher quem preenche o vazio da vida deste homem, ele se põe a pensar nas mulheres com que teve relacionamentos íntimos, e que são hoje imagens saudosas do passado: “Humildemente, pensando na vida e nas mulheres que amei”.
‘Humildemente’, diz o poeta, pois se sente batido pelo destino e pela perda irreversível da sua juventude, e com ela, a perda das mulheres.Todo este poema tem o tom da humildade. O poeta não se revolta, aceita a solidão, o vazio, e se mantém resignado, em sua casa, em seu quarto, em sua cama, fumando e ouvindo a música da chuva, e pensando na vida, ‘a vida inteira que podia ter sido e que não foi’, a recordar as mulheres que se foram e não voltaram mais: “Foram as sereias. / Quem as viu voltar? / Não voltaram nunca. / Viraram espumas / Das ondas do mar”.
Versos simples, palavras comuns. A beleza deste poema se encontra na própria banalidade do fato a que se reporta, símbolo de solidão de toda uma vida. Bandeira quase nunca fala do grandioso. Limita-se ao comum. A intensidade da sua poesia reside na captação do grandioso que o banal carrega dentro de si.
“Poema só para Jaime Ovalle
Quando hoje acordei ainda estava escuro,
Embora a manhã já estivesse avançada.
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente e fiquei pensando...
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.”
Carlos Roberto Santos Araújo
Poeta, autor de Sonetos da Luz Matinal.
A poesia de Manuel Bandeira se caracteriza pela linguagem franca e direta. Nela nada existe de postiço nem decorativo. As palavras que o poeta utiliza são sempre necessárias ao poema, de forma que, retirada qualquer delas, este perderia a sua força expressiva. Singular, também, a sua escolha de temas. Enquanto outros poetas cantam o grandioso, o abstrato, Bandeira nos fala do pequeno, do insignificante, do concreto: um gato, um sapo, um casal de namorados, um mendigo a revirar o lixo. Coisas corriqueiras, encontradiças em becos e ruas, Bandeira as vê e transfigura através do olhar. E nos mostra como as pobres coisas cotidianas nos podem de repente emocionar. Alumbramentos. Epifanias.
Um belo exemplo desta linguagem direta e simples é o “Poema só para Jaime Ovalle”. O poeta e músico Ovalle foi uma das amizades permanentes de Manuel Bandeira, com quem este travou um longo diálogo poético. Ovalle era alma gêmea do velho bardo, ambos solitários e tristes: “Jaime Ovalle, poeta, homem triste, / Faz treze anos que tu partiste/ Para Londres imensa e triste. /Ias triste: voltaste mais triste”. Ovalle não foi personagem ‘inventado’ por Manuel Bandeira, como ‘Laura Moura’ o fora por Mário de Andrade, ‘Nega Fulô’ por Jorge de Lima , ‘Jandira’ por Murilo Mendes, ‘Luísa Porto’ por Drumonnd. Não. Era de carne e osso, e, como o velho Manuel, solitário. Daí, o tema do “Poema só para Jaime Ovalle” ser a própria solidão.
Neste poema, falaria o poeta de si mesmo ou de um alter-ego? Ou daquele “Eu que é outro”, a que se referia Rimbaud na sua Lettre du Voyant? Acredito que fala de si mesmo, do seu dia-a-dia de solteirão solitário, em um pequeno apartamento, no Rio de Janeiro. Afinal, Bandeira evitava abstrações e sua arte poética elegia sempre o real e a concretude.
Eis o primeiro verso: ”Quando hoje acordei ainda fazia escuro”. Um despertar perplexo. Todo um clima sombrio é estabelecido. A escuridão como símbolo da incerteza, do medo, da solidão, da perda. O poeta se encontra na cama, pois, afinal, ainda não se levantou. Apenas, despertou: ‘quando acordei’. Percebe, espantando, que seu quarto estava cheio de sombras, e que a manhã era triste, pois desprovida do signo vital, a luz: ‘fazia escuro’. Diz ‘fazia escuro’, e não ‘estava escuro’, como se dissesse ‘fazia frio’, com a finalidade de acentuar o desconforto que tal escuridão causava no seu espírito. Esta expressão (‘fazer’) sensibilizou muito gente boa, tanto que Tiago de Melo escreveu uma canção cujo título era nada mais nada menos que “Faz escuro, mas eu canto”, e Joaquim Cardoso, elegíaco, dizia: “A chuva cai, alaga o chão, encharca os ventos. / Ventos, velas fantasmas que vêm perdidas do alto mar./ A noite faz muito tarde.”
Descobre o poeta que dormiu demasiado, pois, malgrado fizesse escuro, o dia ia bem adiantado: “(Embora a manhã já estivesse avançada)”. Este segundo verso, de arte maior, com acento na quinta sílaba e cesura na sexta, vem entre parênteses, pois o poeta visa enfatizar a estranheza desta manhã soturna e penumbrosa. Daí colocá-la, (como a situação existencial do poeta), desprendida da dimensão espaço-temporal, e em condição suspensiva.
Só no terceiro verso compreendemos a causa da escuridão: a chuva. O poeta está desperto, deitado em sua cama, e percebe que ‘fazia escuro’. Escuta o barulho característico da água caindo nos beirais. O terceiro verso se resume neste único verbo intransitivo: ”Chovia”. Ele escuta o som da chuva e, de chofre, desvenda a causa de tamanha escuridão. Este verso vem solitário e em destaque no campo visual, como um dado imediato irrompido na consciência. A expressão ‘Chovia’ vem isolada, constituindo um único verso, pois o poeta busca dar maior força emotiva ao elemento deflagrador do sentimento de abandono vivido por ele: a chuva.
A chuva irrompe de súbito no poema, como pura presença. Ainda mal desperto das areias movediças do sono, o poeta escuta o barulho persistente das águas, e pensa: chove. Aliás, a chuva tem sido tema poético associado ao sentimento de tristeza e melancolia misturada com doçura e lágrima. Vide Verlaine, que o próprio Bandeira traduziu: “Il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville./ Quelle est cette langueur / qui penètre mon coeur?// O le douce bruit de la pluie...”
A chuva, água, alimento, alívio, força da natureza, com sua carga de emoções e reminiscências, envolve a manhã do nosso poeta. Só aí, após se dar conta da chuva, da sua presença viva, ele a qualifica e nomeia amiga e sofredora; “Chovia uma triste chuva de resignação” Por que triste, porque de resignação? As chuvas não têm sentimentos, não são tristes nem alegres, não são insatisfeitas nem resignadas, elas apenas caem, molham, escorrem, inundam. São apenas chuvas. Aqueles, entretanto, são os sentimentos do nosso poeta, resignado e triste. A chuva conduz o personagem ao clima de intimidade e meditação capaz de gestar as condições necessárias ao nascimento do poema.
No verso seguinte, o quinto – um verso longo, cadenciado, com aliterações em ‘n’, ‘c’ e‘t’, e em que a reiteração da vogal ‘o’ sugere, monocórdia e arrastada como nota de violoncelo, o estado de subjetividade meditativa do poeta, um verso sonoro, em que a palavra ‘contraste’ percute no homoteleuto ‘triste’ do verso anterior, e ecoa, adiante, na palavra ‘noite’ – neste quinto verso, “Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite’, o poeta proclama aquela chuva como bálsamo para sua alma inquieta. Talvez ele não tenha dormido bem, pois a noite fora quente, de ‘calor tempestuoso’. E tanto não dormiu bem que acordou tarde quando a manhã já estava ‘avançada’. A expressão ‘calor tempestuoso’ merece também um comentário. O calor em si mesmo não é tempestuoso, porém o seu excesso provoca tempestades. No estio, produz ‘chuvas de verão’, tempestuosas, provavelmente a chuva que irrompeu na manhã do poeta. Por outro lado, o calor pode ter sido tempestuoso, isto é, excessivo, e provocado o desconforto psicológico do poeta, durante a noite, tornando-lhe o sono angustiado e infeliz. Por isso a chuva era agora refrigério, amenizava a temperatura, viabilizava-lhe a sensação de aconchego e recolhimento mesclada de tristeza e resignação.
Somente então o poeta resolveu levantar-se do leito e enfrentar as tarefas do dia. No sexto verso ele nos informa: “Então me levantei”. Neste momento toda a solidão do poeta se revela e se instala no poema. Percebemos que o poeta dormia sozinho, sem companheira que o facultasse dizer: “Então nos levantamos”. Não, ele fala na primeira pessoa: “Então me levantei”. Este ‘me levantei’ soa como tremendo esforço, o preparo para o enfrentamento de mais um dia inútil e vazio. A sensação de vida sem sentido, à toa, como ele como ele o afirma alhures, em Andorinha: “Passei a vida, à toa, à toa”.
O poema em análise foi publicado no livro “Belo Belo”, de 1948. Tudo indica haver sido escrito por volta de 1945, quando o poeta tinha cerca de sessenta anos, idade que hoje simboliza força e maturidade, mas que, àquela época, significava estar o poeta de marcha picada para a velhice, sentindo já o frio da solidão, do vazio, da enfermidade, que cercavam a sua vida. Naquela época, ele cantava o inaccessível e a distância: “Vi uma estrela tão alta, / Vi uma estrela tão fria, / Vi uma estrela luzindo / Na minha vida vazia”.
Tal sentimento de vazio e de solidão, sempre presente na existência do poeta, é reforçado, aqui, pelo sexto verso: “Bebi o café que eu mesmo preparei”. Observe-se que o poeta não dispunha de quem lhe preparasse o café, tarefa declaradamente feminina naqueles idos de 1945. Não tinha companheira. Sequer uma empregada doméstica. Uma vida de anacoreta. “Eu mesmo preparei”, ele nos informa. E, o que é pior e robustece ainda mais o seu sentimento de solidão: não teve com quem partilhar a bebida. Tomou o seu café sozinho: “Bebi o café”.
Somente no verso seguinte é que nos damos conta de que a sua solidão é bem maior do que aparenta, pois ele não sabe sequer o que fazer do seu dia. Tanto que, após beber o café, retorna ao leito. “Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...” Dezoito sílabas, um verso longo, demorado, arrastado, sofrido, sugestivo do estado de espírito meditativo, dispersivo, em que se acha o poeta. Parece que, livre de obrigações corriqueiras, vítima da rotina, provavelmente aposentado, sentindo-se ocioso e inútil, num dia úmido, sem maiores compromissos nem solicitações, ele não sabia como preencher o tempo. Por isso, desamparado e em busca de consolo, retorna à cama: “Depois, me deitei novamente”.
A cama não é somente lugar de repouso. É também refúgio, sítio onde se evita o cansativo esforço muscular da posição vertical e se busca o esquecimento do mundo através do sono ou do alheamento. Metáfora de abrigo, consolo e retorno ao útero materno.
Deitado, sem ninguém a quem dirigir a palavra, privado de toda a comunicação humana naqueles dias em que o telefone era um luxo aristocrático, o poeta se agarra a um apoio: o maço de cigarros. Após um gole de café, nada melhor que uma boa tragada: “Acendi um cigarro”. Fumando, ele se põe a pensar vagamente, seguindo, com o olhar, a espiral da fumaça. Note-se que o verbo ‘pensar’ vem seguido de reticências, sugestivas do estado subjetivo de vagueza e devaneio propício à gestação do poema.
Em que pensava o nosso poeta? Pensava na vida, na sua vida, vazia, triste, solitária, que ele chama de ‘traição’. Seus pais e irmãos já estavam todos mortos, ‘dormindo profundamente’. E ele era homem sem família, sem mulher, sem filhos, sem ninguém. Pensava em quão ingrata lhe fora a existência, que lhe negara o amor, e , ainda agora, em seu outono, lhe negava a companhia feminina capaz de redimir os sofrimentos de um homem cansado. E como é a mulher quem preenche o vazio da vida deste homem, ele se põe a pensar nas mulheres com que teve relacionamentos íntimos, e que são hoje imagens saudosas do passado: “Humildemente, pensando na vida e nas mulheres que amei”.
‘Humildemente’, diz o poeta, pois se sente batido pelo destino e pela perda irreversível da sua juventude, e com ela, a perda das mulheres.Todo este poema tem o tom da humildade. O poeta não se revolta, aceita a solidão, o vazio, e se mantém resignado, em sua casa, em seu quarto, em sua cama, fumando e ouvindo a música da chuva, e pensando na vida, ‘a vida inteira que podia ter sido e que não foi’, a recordar as mulheres que se foram e não voltaram mais: “Foram as sereias. / Quem as viu voltar? / Não voltaram nunca. / Viraram espumas / Das ondas do mar”.
Versos simples, palavras comuns. A beleza deste poema se encontra na própria banalidade do fato a que se reporta, símbolo de solidão de toda uma vida. Bandeira quase nunca fala do grandioso. Limita-se ao comum. A intensidade da sua poesia reside na captação do grandioso que o banal carrega dentro de si.
“Poema só para Jaime Ovalle
Quando hoje acordei ainda estava escuro,
Embora a manhã já estivesse avançada.
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente e fiquei pensando...
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.”
Carlos Roberto Santos Araújo
Poeta, autor de Sonetos da Luz Matinal.
Aos poucos, o poeta REF vem produzindo uma obra poética marcada pelo signo do conflito. À memória da infância ele acrescenta as rupturas da maturidade; à reflexão adulta adiciona a atmosfera do mistério; ao pensamento lúcido junta visões oníricas. A dimensão dramática emerge da maioria dos seus versos, mesmos os mais líricos. Tal conflito não se revela de súbito. Há que rastreá-lo com os instrumentos da compreensão crítica e decifrar seus enigmas, somando as partes, para formar a visão de conjunto capaz de desvendar o poema e rasgar os véus que escondem sua face. Em alguns casos, seus poemas têm feição hermética, noutros, seus elementos constitutivos, embora transparentes, parecem aleatórios e sem conexão mútua. Tal desconexão é ilusória: por trás das imagens imediatas escondem-se os laços integradores das partes aparentemente alheias umas nas outras, para que se forme a visão do todo e o poema revele sua beleza. Neste particular, um dos poemas mais significativos de REF, escrito há mais de trinta anos e incluído em seu livro de estréia, intitula-se “Os objetos”.
“Os objetos
Os objetos
Permanecem claros.
Habita a moldura
Uma mulher de faces
Cor-de-rosa.
Sobre a mesa de mármore
Um cavaleiro de porcelana
Saúda as visita.
A caneta ainda escreve
Com a mesma tinta
De um azul levemente melancólico.
Na gaveta, dormindo
Sob cartas e poemas,
O revólver aguarda.”
Nos dois primeiros versos o poeta chama a atenção para a clareza das coisas: “Os objetos permanecem claros”. Neste caso, a clareza não é referência às cores dos objetos, porém à sua inequivocidade. Diferentemente dos homens, confusos e obscuros, os objetos são inequívocos e exatos, com um poder de comunicação que transcende a esfera evasiva e cheia de subterfúgios dos homens. Os objetos eloqüentes a que o poeta se refere são aqueles que compõem o seu cotidiano doméstico: a moldura, a fotografia, o biscuit, a mesa de mármore, a caneta, os poemas, as cartas e o revólver. Nesta ordem. Articulando, uns aos outros, estes elementos desconexos e não relacionados, o poeta constrói sua mensagem. Os objetos que povoam o poema devem, portanto, ser claros e inequívocos, pois têm algo a dizer; porque, através de suas inter-relações, o poeta pretende mostrar o seu conflito interior. Aliás, um conflito amoroso, mágoa de paixão contrariada.
Na segunda estrofe surge o elemento deflagrador do conflito: a mulher. Como sempre. No caso, a amada ausente, presente apenas em fotografia. Seu retrato na moldura nos dá a pista do amor perdido, a atormentar o espírito do poeta. A moça que, presume-se, habitava a casa do amante, partiu e deixou somente sua imagem fotográfica. Somente sua imagem agora ‘habita’ a moldura.
A solidão do poeta se revela. A mulher na moldura, provavelmente jovem e bela, pois tem ‘ faces cor-de-rosa’, o abandonou inapelavelmente, deixou a habitação real e passou a ‘habitar’ metaforicamente a moldura e a memória do amante.
Na terceira estrofe, outro objeto, um enfeite, se manifesta: ‘sobre a mesa de mármore/ um cavaleiro de porcelana/ saúda as visitas’. O poeta, infeliz e desamparado, fecha-se em copas, emudece, perde a vontade de se comunicar com as pessoas, a ponto de a pequena estátua, o cavaleiro de porcelana, ter de lhe assumir o papel social e ‘saudar’ as visitas.
Aborrecido, o poeta se limita a escrever cartas e poemas. Cartas à amante, provavelmente buscando reconciliação; poemas de amor à musa de faces coradas, almejando sublimar a angústia de havê-la perdido. Ele sente-se ausente, ao escrever, pois seus pensamentos e obsessões se voltam para a amada. Assim como o cavaleiro de porcelana ‘saúda’ as visitas, a própria caneta, de maneira autônoma e mecânica, “escreve’ em lugar do poeta. ‘A caneta ainda escreve.’ Observe-se as restrições do advérbio “ainda”, revelador de precariedade e cansaço existencial, demonstrativo de que a caneta escreve para apenas suprir a inércia do poeta que, parece, desistiu de toda comunicação.
A tinta com que a caneta escreve é de “um azul levemente melancólico”. Também Brás Cubas, personagem machadiano, ao se achar solitário com a perda da amante, passa a escrever suas memórias “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Se, no poema em análise, a caneta evita a auto-ironia, nem por isso abre mão da tristeza. É que no caso de Brás Cubas, a tinta devia ser preta, cor indicativa de luto, enquanto no poema em apreço ela é azul e portadora de uma ‘leve’ melancolia.
Na quarta estrofe, outros objetos expressam os sentimentos do poeta; uma gaveta, quiçá da mesa sobre cujo tampo de mármore o cavaleiro de porcelana saúda as visitas que vieram importunar ou consolar o poeta, jazem as cartas e poemas que este, ou melhor, sua caneta escreveu. E, last, not least, debaixo destes escritos se dissimula o objeto mais inquietante e ameaçador: o revólver do poeta: “Na gaveta, dormindo/ sob cartas e poemas, / o revólver aguarda”.Observe-se que tais objetos, as cartas, os poemas, se acham guardados, talvez escondidos na gaveta indevassável aos olhos dos circunstantes. Debaixo das cartas e poemas, haurindo-lhes o sofrimento, dissimulado como um predador, o revólver, dormindo, ou melhor, fingindo dormir, “aguarda”.
O revólver aguarda, afirma o poeta. Como o verbo ‘aguardar’ é transitivo direto, ficamos a imaginar que coisa o revólver aguarda, qual o objeto da sua espera. E concluímos pelo mais lógico, pois todos os elementos da tragédia estão reunidos: a fotografia da mulher ausente, as cartas, os poemas e... o revólver. Este, escondido dentro da gaveta, debaixo das cartas e poemas, mas presente na mente do poeta, com sua carga de violência e chumbo, palpitante como um taxímetro à espera do passageiro retardatário, este revólver “aguarda” a solução do problema do poeta através do retorno da mulher amada que atenderá ao apelo das cartas, ou mediante o alívio da dor pela sublimação proporcionada pela poesia. Caso não haja o retorno da mulher nem a sublimação da angustia, aí sim, o revólver dirá a última palavra, porá fim ao impasse e colocará o próprio poeta na alça da sua mira.
O tema subjacente ao poema é trágico e anuncia uma intenção proibida: o suicídio. Visando burlar a culpa de pensar a própria morte, o poeta, como ventríloquo, usa linguagem indireta e delega aos objetos cotidianos a missão de falar em seu nome. Nesta pequena obra-prima de lírica amorosa, a paixão vive as aporias de sua condição moderna de beco-sem-saída. REF humaniza as coisas que habitam o poema para que elas, cúmplices e amigas, o ajudem a expressar a fúria dos desejos insatisfeitos.
Carlos Roberto Santos Araújo
“Os objetos
Os objetos
Permanecem claros.
Habita a moldura
Uma mulher de faces
Cor-de-rosa.
Sobre a mesa de mármore
Um cavaleiro de porcelana
Saúda as visita.
A caneta ainda escreve
Com a mesma tinta
De um azul levemente melancólico.
Na gaveta, dormindo
Sob cartas e poemas,
O revólver aguarda.”
Nos dois primeiros versos o poeta chama a atenção para a clareza das coisas: “Os objetos permanecem claros”. Neste caso, a clareza não é referência às cores dos objetos, porém à sua inequivocidade. Diferentemente dos homens, confusos e obscuros, os objetos são inequívocos e exatos, com um poder de comunicação que transcende a esfera evasiva e cheia de subterfúgios dos homens. Os objetos eloqüentes a que o poeta se refere são aqueles que compõem o seu cotidiano doméstico: a moldura, a fotografia, o biscuit, a mesa de mármore, a caneta, os poemas, as cartas e o revólver. Nesta ordem. Articulando, uns aos outros, estes elementos desconexos e não relacionados, o poeta constrói sua mensagem. Os objetos que povoam o poema devem, portanto, ser claros e inequívocos, pois têm algo a dizer; porque, através de suas inter-relações, o poeta pretende mostrar o seu conflito interior. Aliás, um conflito amoroso, mágoa de paixão contrariada.
Na segunda estrofe surge o elemento deflagrador do conflito: a mulher. Como sempre. No caso, a amada ausente, presente apenas em fotografia. Seu retrato na moldura nos dá a pista do amor perdido, a atormentar o espírito do poeta. A moça que, presume-se, habitava a casa do amante, partiu e deixou somente sua imagem fotográfica. Somente sua imagem agora ‘habita’ a moldura.
A solidão do poeta se revela. A mulher na moldura, provavelmente jovem e bela, pois tem ‘ faces cor-de-rosa’, o abandonou inapelavelmente, deixou a habitação real e passou a ‘habitar’ metaforicamente a moldura e a memória do amante.
Na terceira estrofe, outro objeto, um enfeite, se manifesta: ‘sobre a mesa de mármore/ um cavaleiro de porcelana/ saúda as visitas’. O poeta, infeliz e desamparado, fecha-se em copas, emudece, perde a vontade de se comunicar com as pessoas, a ponto de a pequena estátua, o cavaleiro de porcelana, ter de lhe assumir o papel social e ‘saudar’ as visitas.
Aborrecido, o poeta se limita a escrever cartas e poemas. Cartas à amante, provavelmente buscando reconciliação; poemas de amor à musa de faces coradas, almejando sublimar a angústia de havê-la perdido. Ele sente-se ausente, ao escrever, pois seus pensamentos e obsessões se voltam para a amada. Assim como o cavaleiro de porcelana ‘saúda’ as visitas, a própria caneta, de maneira autônoma e mecânica, “escreve’ em lugar do poeta. ‘A caneta ainda escreve.’ Observe-se as restrições do advérbio “ainda”, revelador de precariedade e cansaço existencial, demonstrativo de que a caneta escreve para apenas suprir a inércia do poeta que, parece, desistiu de toda comunicação.
A tinta com que a caneta escreve é de “um azul levemente melancólico”. Também Brás Cubas, personagem machadiano, ao se achar solitário com a perda da amante, passa a escrever suas memórias “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Se, no poema em análise, a caneta evita a auto-ironia, nem por isso abre mão da tristeza. É que no caso de Brás Cubas, a tinta devia ser preta, cor indicativa de luto, enquanto no poema em apreço ela é azul e portadora de uma ‘leve’ melancolia.
Na quarta estrofe, outros objetos expressam os sentimentos do poeta; uma gaveta, quiçá da mesa sobre cujo tampo de mármore o cavaleiro de porcelana saúda as visitas que vieram importunar ou consolar o poeta, jazem as cartas e poemas que este, ou melhor, sua caneta escreveu. E, last, not least, debaixo destes escritos se dissimula o objeto mais inquietante e ameaçador: o revólver do poeta: “Na gaveta, dormindo/ sob cartas e poemas, / o revólver aguarda”.Observe-se que tais objetos, as cartas, os poemas, se acham guardados, talvez escondidos na gaveta indevassável aos olhos dos circunstantes. Debaixo das cartas e poemas, haurindo-lhes o sofrimento, dissimulado como um predador, o revólver, dormindo, ou melhor, fingindo dormir, “aguarda”.
O revólver aguarda, afirma o poeta. Como o verbo ‘aguardar’ é transitivo direto, ficamos a imaginar que coisa o revólver aguarda, qual o objeto da sua espera. E concluímos pelo mais lógico, pois todos os elementos da tragédia estão reunidos: a fotografia da mulher ausente, as cartas, os poemas e... o revólver. Este, escondido dentro da gaveta, debaixo das cartas e poemas, mas presente na mente do poeta, com sua carga de violência e chumbo, palpitante como um taxímetro à espera do passageiro retardatário, este revólver “aguarda” a solução do problema do poeta através do retorno da mulher amada que atenderá ao apelo das cartas, ou mediante o alívio da dor pela sublimação proporcionada pela poesia. Caso não haja o retorno da mulher nem a sublimação da angustia, aí sim, o revólver dirá a última palavra, porá fim ao impasse e colocará o próprio poeta na alça da sua mira.
O tema subjacente ao poema é trágico e anuncia uma intenção proibida: o suicídio. Visando burlar a culpa de pensar a própria morte, o poeta, como ventríloquo, usa linguagem indireta e delega aos objetos cotidianos a missão de falar em seu nome. Nesta pequena obra-prima de lírica amorosa, a paixão vive as aporias de sua condição moderna de beco-sem-saída. REF humaniza as coisas que habitam o poema para que elas, cúmplices e amigas, o ajudem a expressar a fúria dos desejos insatisfeitos.
Carlos Roberto Santos Araújo
O Triunfo de Sosígenes Costa
Carlos Roberto Santos Araújo
Se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo, perguntava-se Machado de Assis, em uma de suas crônicas escritas no final do séc. XIX. Parece que o bruxo de Cosme Velho não apreciava os tons dourados. Naqueles tempos, de conservadorismo puritano, o bom gosto pressupunha sobriedade e discrição. Repelia-se a cor solar, espalhafatosa. Em razão disso, o criador do Brás Cubas optava pelas cores escuras e cinzentas, que ele, por intermédio do seu personagem, chamava de “tinta da melancolia”.
Isto demonstra como as cores sempre foram temas prediletos dos poetas. Rimbaud escreveu um soneto célebre em que atribuía a cada vogal uma cor. Mallarmé citou o azul, mais de cinqüentas vezes, em sua obra poética. Cruz e Souza endeusou a cor branca. Garcia Lorca celebrou o “verde que te quiero verde”. E o maior deles, Camões, falou de “uns olhos verdes”, tão verdes como as esmeraldas que Paes Leme nunca achou numa Sabarabuçu de meras turmalinas.
Como tudo tem a sua vez, chegou, um dia, a hora do amarelo. E este, como um Luis XIV redivivo, reinou, absoluto, dominou a pintura e a poesia, para não falar na Indústria da Moda, de tal forma que hoje ele se acha em todas os lugares, envolvendo, voluptuoso, o corpo das elegantes.
No Brasil tropical, ensolarado e sem fronteira, o amarelo, também, teria a sua vez. O amarelo das flores, das aves,dos crepúsculos, do azeite de dendê da nossa culinária. A gradação dos tons, a refração da luz. O amarelo invadiu todos os domínios. E, na literatura, o fez através de poesia do baiano Sosígenes Costa. Este, poeta sensual, esmerou-se em uma poesia visual, olfativa, auditiva. Uma poesia que celebrava a plasticidade do ambiente e se voltava para as cores fortes e para a intensidade de luz. Não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. E sua cor predileta, seria, nada mais e nada menos, que o amarelo. Não teria, como Picasso, uma fase azul, outra, rosa. Não. Seria o puro amarelo. Sua poesia, que nada tinha de intelectiva nem de conceitual, era, ao contrário, feita de imagens, sobretudo de imagens coloridas, de cores quentes e sensuais, sugestivas de um forte erotismo disseminado na paisagem. Como em um Van Gogh tropical, em Sosígenes predomina um amarelo pródigo que, muitas vezes, se desdobra em gradações de “sépia, topázio, abóbora, berilo”, verso de um dos seus sonetos mais belos, “O triunfo do amarelo”.
Inspirado neste título, agora, os escritores Cyro de Mattos e Aleiton Fonseca, prestam homenagem ao poeta de Belmonte, com o livro “o Triunfo de Sosígenes Costa”. O livro reúne ensaios e notas de diversos autores. Heitor Brasileiro levanta os dados biográficos do poeta, e tece considerações a respeito de sua participação na Academia dos Rebeldes, criada em 1927 e extinta em 1931, e que tentava imprimir uma linha independente às letras baianas. O ensaísta, contista e romancista Helio Pólvora, em “Sosígenes e o Modernismo Histórico”, chama a atenção às características pré-modernas do poeta, que reagiu aos cânones da escola de 22. Sua poesia, entretanto, nos diz o lúcido crítico literário, “tinha espírito moderno e trazia no sangue o caráter espontâneo do povo, as caudas pavônicas dos coqueiros, o ruído dos remos nas águas do Jequitinhonha, o pedido de casamento a Mariá, as sereias, as agonias lentas do pôr-do-sol, a roxa flor do cacau”. Gerana Demulakis analisa a mistura de simbolismo e parnasianismo na fatura dos sonetos pavônicos; Cyro de Matos destaca a vertente negra daquela poesia; Rui Povoas analisa a linguagem dos descendentes de escravos, que o poeta utilizou com virtuosismo, em seus poemas africanos; Aleilton Fonseca chama a atenção ao imagismo dos seus versos; Florisvaldo Mattos, poeta também sensorial, examina o cromatismo do belmontino e demonstra o paralelo entre sua obra e os movimentos pictóricos europeus dos fins do século XIX. Jorge Araújo sublinha o exotismo da poesia de Sosígenes e coloca a analogia entre seus poemas negros e os de Jorge de Lima. Maria Berenice Costa envereda pela análise do poema “Case comigo Mariá”, enquanto Cid Seixas observa na poesia de Sosígenes a mistura de mitologias indígena e clássica, no poema Iararana. Celina Scheinowitz refere-se à linguagem deste poema mitológico, ao passo que Marcos Aurélio Souza enfatiza-lhe a autonomia em relação aos movimentos Verde e Amarelo e Antropofagia. Elucidativos são, também, os depoimentos dos irmãos Amado (James e Jorge), de Zélia Gattai e de Waldir Freitas Oliveira, a respeito de episódios da vida do poeta. A última parte do livro é uma coletânea de poemas do homenageado. Percebe-se aqui o bom gosto dos autores, durante a escolha dos textos, pois reuniram os mais significativos poemas de Sosígenes, com ênfase aos sonetos pavônicos.
De uns tempos a esta parte, vários estudos têm sido consagrados ao poeta. Recentemente, à frente de Fundação Cultural de Ilhéus, Hélio Pólvora surpreendeu a comunidade literária brasileira com uma edição, de alto padrão gráfico, da obra poética de Sosígenes, comemorativa do centenário de seu nascimento. Na mesma oportunidade, lançou um CD com belos poemas de Sosígenes, recitados por grandes atores brasileiros. E ainda trouxe a lume uma antologia, “A Sosígenes com carinho”, com estudos críticos e poemas de vários poetas baianos, em homenagem a Sosígenes, além de uma coletânea do poeta. Mais recentemente, o poeta Florisvaldo Mattos fez um estudo técnico de grande profundidade crítica, a respeito da obra de Sosígenes, enfatizando o cromatismo da sua obra.
Tem razão Hélio Pólvora, quando vê em Sosígenes um poeta de expressão pré-modernista, que rejeitou inicialmente a escola moderna, à época chamada de futurista. Isto porque a melhor poesia de Sosígenes é aquela dos Sonetos Pavônicos, nos quais o poeta usa os procedimentos das escolas parnasiana e simbolista. Parnasiano pelo rigor do verso e da métrica, pela perfeição da forma, pelo uso da mitologia clássica e do próprio soneto como o gênero literário de sua preferência. Lembre-se que tal forma poética era simplesmente abominada nos primeiros anos do modernismo brasileiro. Simbolista foi também Sosígenes pela sua plasticidade, pelas sinestesias, pela musicalidade, pelos recursos de aliteração, pelo cromatismo intenso de suas imagens. Tudo isto vinha de Baudelaire, que abriu o caminho para a poesia moderna. Aliás, o autor das Flores do Mal, precursor do moderno, inicia estes procedimentos poéticos, influencia o simbolismo, lança mão de novos recursos, faz o intercâmbio dos sentidos. No soneto Correspondances, ele diz: ‘Comme de longs échos qui de loin se confondent / Dans une ténébreuse et profonde unité, /Vaste comme la nuit et comme la clarté, /Les parfums, les couleurs et les sons se répondent’
Este tipo de correspondência, mistura de cores, sons e perfumes, iria se disseminar, através do movimento simbolista, e, aqui na Bahia, seria largamente utilizada por Sosígenes, durante a gestação dos seus belos sonetos, sobretudo os “pavônicos”. Só depois, Sosígenes aderiu ao Modernismo, através de Iararana, poema mítico, escrito nos moldes do “Cobra Norato”, de Raul Bopp. A poesia brasileira vivia, àquela época, o dilema de ser nacionalista, de buscar raízes brasileiras e procurar sua identidade. “Tupi or not tupi, that is the question”, diziam os poetas dos grupos Antropofagia, do Verde-Amarelo, e Anta. Mario de Andrade, com sua trupe de paulistas, viaja ao Amazonas, em busca de lendas e mitos, à procura do Brasil. Escreve o Poema do Seringueiro e diz: “Este homem é brasileiro que nem eu”. Traz a lume Macunaíma e a Toada do Pai do Mato. Cassiano Ricardo apresenta o Martin Cererê e Oswald publica Pau Brasil. Redescobria-se o Brasil. Foi através destas escolas que Sosígenes participou do modernismo, e escreveu Iararana. Outra vertente que também firmou moda na época foi a valorização da cultura negra. Mario escreve os Poemas da Negra. Jorge de Lima, Raul Bopp e Ascenso Ferreira escrevem poemas com a mesma temática. Sosígenes seguiu também esta trilha e produziu uma série de poemas ‘negros’. Este tipo de poesia, entretanto, voltada para mitos indígenas e negros ficou para trás, precluso. Foi um rápido intermezzo nativista. A geração seguinte, com Drummond, Vinicius, Schmidt, Murilo, Cecília, seguiria outros caminhos, à procura de temas universais. Este desvio da poesia, ao qual Manuel Bandeira não aderiu, simplesmente morreu com o esvaziamento da ideologia das correntes nacionalistas do modernismo.
Acho, pois, que a grande força da poesia de Sosígenes se encontra em sua primeira fase, em que ele é o poeta de linguagem pré-modernista, o sonetista dos pavões, dos crepúsculos, da flora sul baiana. O poeta cromático, sobretudo da cor amarela. Aí, sim, Sosígenes foi supremo, sua poesia se tornou uma fonte de encantamento, e seduziu leitores, produziu êxtase. Vivendo à beira-mar, nos Trópicos, Sosígenes haveria de sofrer a influencia da intensa luz solar, da luminosidade da Região Cacaueira da Bahia, onde o sol, em refração com o verde da floresta, transforma-se no que Mario de Andrade chamava de “pintor de dúzias”. Dissemos acima que, não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. Aliás, pensando melhor, ele foi pintor. Florisvaldo Mattos, em seu belo estudo sobre Sosígenes, Travessia do Oásis, afirma: “Parece que, em muitos casos, em vez de caneta ou lápis, o poeta maneja pincéis, tantas são as reverberações que o amarelo, o azul o vermelho, em todas as suas gamas, despejam sobre espaços, seres e coisas, potencializando significados, para êxtase de leitores ou ouvintes”. Perfeito. Este é o Sosígenes que ficará: o cantor das cores, dos pássaros, dos perfumes, dos vinhos, dos crepúsculos, dos colibris, e dos pavões, os “pavões de caudas verdes e amarelas”, símbolos da beleza suprema. Com Sosígenes, aprendemos a beleza do amarelo. Ainda bem que nem todos os gostos são iguais.
CRSA é poeta, autor de A Nave Submersa, Lira Destemperada, e Sonetos da Luz Matinal.
Carlos Roberto Santos Araújo
Se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo, perguntava-se Machado de Assis, em uma de suas crônicas escritas no final do séc. XIX. Parece que o bruxo de Cosme Velho não apreciava os tons dourados. Naqueles tempos, de conservadorismo puritano, o bom gosto pressupunha sobriedade e discrição. Repelia-se a cor solar, espalhafatosa. Em razão disso, o criador do Brás Cubas optava pelas cores escuras e cinzentas, que ele, por intermédio do seu personagem, chamava de “tinta da melancolia”.
Isto demonstra como as cores sempre foram temas prediletos dos poetas. Rimbaud escreveu um soneto célebre em que atribuía a cada vogal uma cor. Mallarmé citou o azul, mais de cinqüentas vezes, em sua obra poética. Cruz e Souza endeusou a cor branca. Garcia Lorca celebrou o “verde que te quiero verde”. E o maior deles, Camões, falou de “uns olhos verdes”, tão verdes como as esmeraldas que Paes Leme nunca achou numa Sabarabuçu de meras turmalinas.
Como tudo tem a sua vez, chegou, um dia, a hora do amarelo. E este, como um Luis XIV redivivo, reinou, absoluto, dominou a pintura e a poesia, para não falar na Indústria da Moda, de tal forma que hoje ele se acha em todas os lugares, envolvendo, voluptuoso, o corpo das elegantes.
No Brasil tropical, ensolarado e sem fronteira, o amarelo, também, teria a sua vez. O amarelo das flores, das aves,dos crepúsculos, do azeite de dendê da nossa culinária. A gradação dos tons, a refração da luz. O amarelo invadiu todos os domínios. E, na literatura, o fez através de poesia do baiano Sosígenes Costa. Este, poeta sensual, esmerou-se em uma poesia visual, olfativa, auditiva. Uma poesia que celebrava a plasticidade do ambiente e se voltava para as cores fortes e para a intensidade de luz. Não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. E sua cor predileta, seria, nada mais e nada menos, que o amarelo. Não teria, como Picasso, uma fase azul, outra, rosa. Não. Seria o puro amarelo. Sua poesia, que nada tinha de intelectiva nem de conceitual, era, ao contrário, feita de imagens, sobretudo de imagens coloridas, de cores quentes e sensuais, sugestivas de um forte erotismo disseminado na paisagem. Como em um Van Gogh tropical, em Sosígenes predomina um amarelo pródigo que, muitas vezes, se desdobra em gradações de “sépia, topázio, abóbora, berilo”, verso de um dos seus sonetos mais belos, “O triunfo do amarelo”.
Inspirado neste título, agora, os escritores Cyro de Mattos e Aleiton Fonseca, prestam homenagem ao poeta de Belmonte, com o livro “o Triunfo de Sosígenes Costa”. O livro reúne ensaios e notas de diversos autores. Heitor Brasileiro levanta os dados biográficos do poeta, e tece considerações a respeito de sua participação na Academia dos Rebeldes, criada em 1927 e extinta em 1931, e que tentava imprimir uma linha independente às letras baianas. O ensaísta, contista e romancista Helio Pólvora, em “Sosígenes e o Modernismo Histórico”, chama a atenção às características pré-modernas do poeta, que reagiu aos cânones da escola de 22. Sua poesia, entretanto, nos diz o lúcido crítico literário, “tinha espírito moderno e trazia no sangue o caráter espontâneo do povo, as caudas pavônicas dos coqueiros, o ruído dos remos nas águas do Jequitinhonha, o pedido de casamento a Mariá, as sereias, as agonias lentas do pôr-do-sol, a roxa flor do cacau”. Gerana Demulakis analisa a mistura de simbolismo e parnasianismo na fatura dos sonetos pavônicos; Cyro de Matos destaca a vertente negra daquela poesia; Rui Povoas analisa a linguagem dos descendentes de escravos, que o poeta utilizou com virtuosismo, em seus poemas africanos; Aleilton Fonseca chama a atenção ao imagismo dos seus versos; Florisvaldo Mattos, poeta também sensorial, examina o cromatismo do belmontino e demonstra o paralelo entre sua obra e os movimentos pictóricos europeus dos fins do século XIX. Jorge Araújo sublinha o exotismo da poesia de Sosígenes e coloca a analogia entre seus poemas negros e os de Jorge de Lima. Maria Berenice Costa envereda pela análise do poema “Case comigo Mariá”, enquanto Cid Seixas observa na poesia de Sosígenes a mistura de mitologias indígena e clássica, no poema Iararana. Celina Scheinowitz refere-se à linguagem deste poema mitológico, ao passo que Marcos Aurélio Souza enfatiza-lhe a autonomia em relação aos movimentos Verde e Amarelo e Antropofagia. Elucidativos são, também, os depoimentos dos irmãos Amado (James e Jorge), de Zélia Gattai e de Waldir Freitas Oliveira, a respeito de episódios da vida do poeta. A última parte do livro é uma coletânea de poemas do homenageado. Percebe-se aqui o bom gosto dos autores, durante a escolha dos textos, pois reuniram os mais significativos poemas de Sosígenes, com ênfase aos sonetos pavônicos.
De uns tempos a esta parte, vários estudos têm sido consagrados ao poeta. Recentemente, à frente de Fundação Cultural de Ilhéus, Hélio Pólvora surpreendeu a comunidade literária brasileira com uma edição, de alto padrão gráfico, da obra poética de Sosígenes, comemorativa do centenário de seu nascimento. Na mesma oportunidade, lançou um CD com belos poemas de Sosígenes, recitados por grandes atores brasileiros. E ainda trouxe a lume uma antologia, “A Sosígenes com carinho”, com estudos críticos e poemas de vários poetas baianos, em homenagem a Sosígenes, além de uma coletânea do poeta. Mais recentemente, o poeta Florisvaldo Mattos fez um estudo técnico de grande profundidade crítica, a respeito da obra de Sosígenes, enfatizando o cromatismo da sua obra.
Tem razão Hélio Pólvora, quando vê em Sosígenes um poeta de expressão pré-modernista, que rejeitou inicialmente a escola moderna, à época chamada de futurista. Isto porque a melhor poesia de Sosígenes é aquela dos Sonetos Pavônicos, nos quais o poeta usa os procedimentos das escolas parnasiana e simbolista. Parnasiano pelo rigor do verso e da métrica, pela perfeição da forma, pelo uso da mitologia clássica e do próprio soneto como o gênero literário de sua preferência. Lembre-se que tal forma poética era simplesmente abominada nos primeiros anos do modernismo brasileiro. Simbolista foi também Sosígenes pela sua plasticidade, pelas sinestesias, pela musicalidade, pelos recursos de aliteração, pelo cromatismo intenso de suas imagens. Tudo isto vinha de Baudelaire, que abriu o caminho para a poesia moderna. Aliás, o autor das Flores do Mal, precursor do moderno, inicia estes procedimentos poéticos, influencia o simbolismo, lança mão de novos recursos, faz o intercâmbio dos sentidos. No soneto Correspondances, ele diz: ‘Comme de longs échos qui de loin se confondent / Dans une ténébreuse et profonde unité, /Vaste comme la nuit et comme la clarté, /Les parfums, les couleurs et les sons se répondent’
Este tipo de correspondência, mistura de cores, sons e perfumes, iria se disseminar, através do movimento simbolista, e, aqui na Bahia, seria largamente utilizada por Sosígenes, durante a gestação dos seus belos sonetos, sobretudo os “pavônicos”. Só depois, Sosígenes aderiu ao Modernismo, através de Iararana, poema mítico, escrito nos moldes do “Cobra Norato”, de Raul Bopp. A poesia brasileira vivia, àquela época, o dilema de ser nacionalista, de buscar raízes brasileiras e procurar sua identidade. “Tupi or not tupi, that is the question”, diziam os poetas dos grupos Antropofagia, do Verde-Amarelo, e Anta. Mario de Andrade, com sua trupe de paulistas, viaja ao Amazonas, em busca de lendas e mitos, à procura do Brasil. Escreve o Poema do Seringueiro e diz: “Este homem é brasileiro que nem eu”. Traz a lume Macunaíma e a Toada do Pai do Mato. Cassiano Ricardo apresenta o Martin Cererê e Oswald publica Pau Brasil. Redescobria-se o Brasil. Foi através destas escolas que Sosígenes participou do modernismo, e escreveu Iararana. Outra vertente que também firmou moda na época foi a valorização da cultura negra. Mario escreve os Poemas da Negra. Jorge de Lima, Raul Bopp e Ascenso Ferreira escrevem poemas com a mesma temática. Sosígenes seguiu também esta trilha e produziu uma série de poemas ‘negros’. Este tipo de poesia, entretanto, voltada para mitos indígenas e negros ficou para trás, precluso. Foi um rápido intermezzo nativista. A geração seguinte, com Drummond, Vinicius, Schmidt, Murilo, Cecília, seguiria outros caminhos, à procura de temas universais. Este desvio da poesia, ao qual Manuel Bandeira não aderiu, simplesmente morreu com o esvaziamento da ideologia das correntes nacionalistas do modernismo.
Acho, pois, que a grande força da poesia de Sosígenes se encontra em sua primeira fase, em que ele é o poeta de linguagem pré-modernista, o sonetista dos pavões, dos crepúsculos, da flora sul baiana. O poeta cromático, sobretudo da cor amarela. Aí, sim, Sosígenes foi supremo, sua poesia se tornou uma fonte de encantamento, e seduziu leitores, produziu êxtase. Vivendo à beira-mar, nos Trópicos, Sosígenes haveria de sofrer a influencia da intensa luz solar, da luminosidade da Região Cacaueira da Bahia, onde o sol, em refração com o verde da floresta, transforma-se no que Mario de Andrade chamava de “pintor de dúzias”. Dissemos acima que, não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. Aliás, pensando melhor, ele foi pintor. Florisvaldo Mattos, em seu belo estudo sobre Sosígenes, Travessia do Oásis, afirma: “Parece que, em muitos casos, em vez de caneta ou lápis, o poeta maneja pincéis, tantas são as reverberações que o amarelo, o azul o vermelho, em todas as suas gamas, despejam sobre espaços, seres e coisas, potencializando significados, para êxtase de leitores ou ouvintes”. Perfeito. Este é o Sosígenes que ficará: o cantor das cores, dos pássaros, dos perfumes, dos vinhos, dos crepúsculos, dos colibris, e dos pavões, os “pavões de caudas verdes e amarelas”, símbolos da beleza suprema. Com Sosígenes, aprendemos a beleza do amarelo. Ainda bem que nem todos os gostos são iguais.
CRSA é poeta, autor de A Nave Submersa, Lira Destemperada, e Sonetos da Luz Matinal.
Um poema de Mario de Andrade.
Mario de Andrade, que meditou a vulnerabilidade do indivíduo no mundo moderno (“o vento corta os seres pelo meio”) e percebeu o desespero do homem desarvorado na cidade imensa (“As pombas se agarram aos arranha-céus. Faz frio. Faz chuva. E faz angústia”), teve também altos momentos de carinho pela sua cidade natal: “Na Rua Aurora nasci/ Na aurora da minha vida / E numa aurora cresci”. Amou e estremeceu São Paulo. Celebrou-a, desde seu primeiro livro, Paulicéia Desvairada, (“São Paulo, comoção da minha vida!”) até sua ultima coletânea de poemas, Lira Paulistana, (“Quando eu morrer, quero ficar, / Não contem aos meus inimigos, / Sepultado em minha cidade. / Saudade”). Mesmo para o clima hostil de São Paulo ele tinha um sorriso de aprovação: ”Minha Londres das neblinas finas...”. O vento cortante das constantes invernias parecia-lhe alegre e zombeteiro: “O vento é como uma navalha / Nas mãos de um espanhol”. Se na “Meditação sobre o Rio Tietê” ele sofre pelas mazelas paulistanas (“É noite, e tudo é noite/ Sob o arco admirável da Ponte das Bandeiras”.), se em “Viola Quebrada” ele lamenta seu sofrimento pessoal (“Raiva, anseios, luta, vida/ Miséria tudo passou-se / Em São Paulo.”), na maioria das vezes é com olhos de ternura que vê sua cidade: “As rosas...os milhões de rosas paulistanas.”Amava as manhãs paulistas (“Abro a tua porta ainda úmido do orvalho da manhã”), e se apaixonava pelas tardes da sua terra: “Tarde tardonha e sobretudo tarde /Imóvel”.
Milliet chegou a afirmar que Mario em seu amor por São Paulo viveu a sublimação do amor sexual. Sensual, Mario celebrava a vida: “Eu danço manso a dança do ombro/ Eu danço...Não sei mais chorar!...” Como Rimbaud, que proclamava “un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens”, Mario buscava o excesso: “Tarde, recreio do meu dia, é certo, / Que só no teu parar se normaliza / A onda de todos os transbordamentos/ De minha vida inquieta e desregrada”. Jamais choramingava: “A vida é para mim está se vendo/ Uma felicidade sem repouso. / Eu nem sei mais se gozo, pois o gozo/ Só pode ser sentido em se sofrendo”. Esta sensualidade faculta-lhe dizer: “A própria dor é uma felicidade!”. Seus sentidos estão atentos ao ambiente, de modo que um simples perfume de rosa provoca-lhe um estado psicológico especial: “Deve haver aqui perto uma roseira florindo/ Não sei... sinto por mim uma harmonia/ um pouco da imparcialidade que a fadiga traz consigo”.
Se Eliot, em “The Waste Land”, censura abril por ser o mais cruel dos meses, “the cruellest month”, por misturar memória e desejo e compelir raízes preguiçosas com chuvas de primavera, Mario, ao contrário, pelo mesmo motivo, celebra o mês de abril, a que associa lembrança e volúpia: (“Eu encontro em mim mesmo uma espécie de abril” (I – Girassol da madrugada) ou ainda “Oh espelhos, Pireneus, caiçaras insolentes, por que não sereis sempre assim?/ Abril...”(Lira Paulistana). Em muitas destas tardes ele se embevecia diante dos revérberos mortiços dos úmidos crepúsculos do abril paulistano. Como neste
“Poema da amiga
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril.
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar e não sei por que te percebi.
Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa
Mexendo asas azuis dentro da tarde.”
Quem viu São Paulo das tardes de abril e maio, sabe do que Mário está falando. Aliás, outros poetas paulistas também cantaram tais poentes. Guilherme de Almeida o diga. Sérgio Milliet afirmava: “Crepúsculos de abril, ó tão suave/ descanso que precede outro descanso. / São Paulo de abris e maios/ Sabendo a marzipã”. São tardes intimistas, em que os casais se tornam mais carinhosos. Aqui, Mario se reporta a estas tardes outonais, matizadas pelas cores violáceas e desmaiadas da estação de baixas temperaturas, o outono paulistano, de frio moderado. Tardes de raios solares mortiços, filtrados pelas nuvens plúmbeas, pela bruma e pela névoa. Tudo convida à intimidade e ao carinho. Daí o poeta afirmar, num verso de beleza admirável - “A tarde se deitava nos meus olhos”, traduzindo a sensualidade da tarde, felina, voluptuosa.
No verso seguinte, também belíssimo, ele diz: “a fuga da hora me entregava abril”. Em fins de março, ao pôr-do-sol, ao cair da tarde, a passagem do tempo (a fuga da hora) trazia o mês de abril, com seu frio excitante. Tudo isso criava um clima, ‘um ar’ familiar, íntimo, com sabor, não de adeus, mas de até-logo, de promessa de reencontro: “Um sabor familiar de até-logo criava um ar e, não, sei por que te percebi”. O poeta desperta a sua sensualidade, a vontade de amar e a memória da amada. Expectante, sua lembrança se excita, e ele pressente a namorada, (que aqui ele chama de amiga, como nas ‘canções de amigo’ do cancioneiro medieval) ao seu lado, em carne e osso: “Não sei por que, te percebi”. Percebeu-a, ‘sentiu’ sua presença, e se alegrou. Daí o verso seguinte: “Voltei-me em flor”. Agora, ele utiliza a imagem da flor para simbolizar a felicidade, e, no caso concreto, a expressão dessa felicidade, o sorriso. O poeta se volta sorrindo, (em flor), olha em torno, em busca da amada, mas descobre, desiludido, que se enganara, que tudo fora mera impressão, que ninguém estava ali: “Mas era apenas tua lembrança. Estavas longe, doce amiga”. Findo o êxtase, ele se depara com a dura realidade: “E só vi no perfil da cidade/ O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa/ Mexendo asas azuis dentro da tarde”. Frustrado pela ausência da amada, vê somente as sombras (o arcanjo de asas azuis) do arranha-céu cor de rosa, a se projetarem sobre o corpo da cidade antropomórfica, (de perfil) e, como ele, também solitária.
Se em outros poemas Mário se caracteriza pela incontinência verbal, pelas deformações vocabulares, pelo trocadilho, pela alternância de motivos (populares e cultos), pela linguagem marcada, não pela ironia, mas pelo sarcasmo, neste, o autor se revela um mestre de contenção verbal, se desvencilha do retórico, a fim de melhor apreensão do sensível. A captação lírica se depura, a dicção se torna enxuta e equilibrada. Nesta canção de intensa cor local, ele nos mostra São Paulo transfigurada pelas imagens do fantástico. A cidade adquire o aspecto de miragem, sinestésica. As cores cambiantes do crepúsculo se esmaecem em novas cambiantes. Dai, ele falar em arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa. Na hierarquia celeste, os anjos, os arcanjos, os querubins, os serafins, seres de luz e de amor, são espíritos cheios de cores que vão do verde ao róseo. Segundo William Blake, que era um visionário e especialista no assunto, a depender das emoções, os anjos passam do azul intenso dos altíssimos empíreos ao amarelo solar, e deste ao róseo festivo: “So he took his wings, and fled;/ Then the morn blushed rosy red”(Angel) No caso do “Poema da Amiga”, os raios solares, (o arcanjo), se lançam à frente do edifício, iluminam-no e projetam-lhe as sombras (asas azuis), de modo que, à medida que anoitece, o poeta se descobre solitário enquanto a cidade mergulha no reino das imponderabilidades.
Carlos Roberto Santos Araújo.
Mario de Andrade, que meditou a vulnerabilidade do indivíduo no mundo moderno (“o vento corta os seres pelo meio”) e percebeu o desespero do homem desarvorado na cidade imensa (“As pombas se agarram aos arranha-céus. Faz frio. Faz chuva. E faz angústia”), teve também altos momentos de carinho pela sua cidade natal: “Na Rua Aurora nasci/ Na aurora da minha vida / E numa aurora cresci”. Amou e estremeceu São Paulo. Celebrou-a, desde seu primeiro livro, Paulicéia Desvairada, (“São Paulo, comoção da minha vida!”) até sua ultima coletânea de poemas, Lira Paulistana, (“Quando eu morrer, quero ficar, / Não contem aos meus inimigos, / Sepultado em minha cidade. / Saudade”). Mesmo para o clima hostil de São Paulo ele tinha um sorriso de aprovação: ”Minha Londres das neblinas finas...”. O vento cortante das constantes invernias parecia-lhe alegre e zombeteiro: “O vento é como uma navalha / Nas mãos de um espanhol”. Se na “Meditação sobre o Rio Tietê” ele sofre pelas mazelas paulistanas (“É noite, e tudo é noite/ Sob o arco admirável da Ponte das Bandeiras”.), se em “Viola Quebrada” ele lamenta seu sofrimento pessoal (“Raiva, anseios, luta, vida/ Miséria tudo passou-se / Em São Paulo.”), na maioria das vezes é com olhos de ternura que vê sua cidade: “As rosas...os milhões de rosas paulistanas.”Amava as manhãs paulistas (“Abro a tua porta ainda úmido do orvalho da manhã”), e se apaixonava pelas tardes da sua terra: “Tarde tardonha e sobretudo tarde /Imóvel”.
Milliet chegou a afirmar que Mario em seu amor por São Paulo viveu a sublimação do amor sexual. Sensual, Mario celebrava a vida: “Eu danço manso a dança do ombro/ Eu danço...Não sei mais chorar!...” Como Rimbaud, que proclamava “un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens”, Mario buscava o excesso: “Tarde, recreio do meu dia, é certo, / Que só no teu parar se normaliza / A onda de todos os transbordamentos/ De minha vida inquieta e desregrada”. Jamais choramingava: “A vida é para mim está se vendo/ Uma felicidade sem repouso. / Eu nem sei mais se gozo, pois o gozo/ Só pode ser sentido em se sofrendo”. Esta sensualidade faculta-lhe dizer: “A própria dor é uma felicidade!”. Seus sentidos estão atentos ao ambiente, de modo que um simples perfume de rosa provoca-lhe um estado psicológico especial: “Deve haver aqui perto uma roseira florindo/ Não sei... sinto por mim uma harmonia/ um pouco da imparcialidade que a fadiga traz consigo”.
Se Eliot, em “The Waste Land”, censura abril por ser o mais cruel dos meses, “the cruellest month”, por misturar memória e desejo e compelir raízes preguiçosas com chuvas de primavera, Mario, ao contrário, pelo mesmo motivo, celebra o mês de abril, a que associa lembrança e volúpia: (“Eu encontro em mim mesmo uma espécie de abril” (I – Girassol da madrugada) ou ainda “Oh espelhos, Pireneus, caiçaras insolentes, por que não sereis sempre assim?/ Abril...”(Lira Paulistana). Em muitas destas tardes ele se embevecia diante dos revérberos mortiços dos úmidos crepúsculos do abril paulistano. Como neste
“Poema da amiga
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril.
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar e não sei por que te percebi.
Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa
Mexendo asas azuis dentro da tarde.”
Quem viu São Paulo das tardes de abril e maio, sabe do que Mário está falando. Aliás, outros poetas paulistas também cantaram tais poentes. Guilherme de Almeida o diga. Sérgio Milliet afirmava: “Crepúsculos de abril, ó tão suave/ descanso que precede outro descanso. / São Paulo de abris e maios/ Sabendo a marzipã”. São tardes intimistas, em que os casais se tornam mais carinhosos. Aqui, Mario se reporta a estas tardes outonais, matizadas pelas cores violáceas e desmaiadas da estação de baixas temperaturas, o outono paulistano, de frio moderado. Tardes de raios solares mortiços, filtrados pelas nuvens plúmbeas, pela bruma e pela névoa. Tudo convida à intimidade e ao carinho. Daí o poeta afirmar, num verso de beleza admirável - “A tarde se deitava nos meus olhos”, traduzindo a sensualidade da tarde, felina, voluptuosa.
No verso seguinte, também belíssimo, ele diz: “a fuga da hora me entregava abril”. Em fins de março, ao pôr-do-sol, ao cair da tarde, a passagem do tempo (a fuga da hora) trazia o mês de abril, com seu frio excitante. Tudo isso criava um clima, ‘um ar’ familiar, íntimo, com sabor, não de adeus, mas de até-logo, de promessa de reencontro: “Um sabor familiar de até-logo criava um ar e, não, sei por que te percebi”. O poeta desperta a sua sensualidade, a vontade de amar e a memória da amada. Expectante, sua lembrança se excita, e ele pressente a namorada, (que aqui ele chama de amiga, como nas ‘canções de amigo’ do cancioneiro medieval) ao seu lado, em carne e osso: “Não sei por que, te percebi”. Percebeu-a, ‘sentiu’ sua presença, e se alegrou. Daí o verso seguinte: “Voltei-me em flor”. Agora, ele utiliza a imagem da flor para simbolizar a felicidade, e, no caso concreto, a expressão dessa felicidade, o sorriso. O poeta se volta sorrindo, (em flor), olha em torno, em busca da amada, mas descobre, desiludido, que se enganara, que tudo fora mera impressão, que ninguém estava ali: “Mas era apenas tua lembrança. Estavas longe, doce amiga”. Findo o êxtase, ele se depara com a dura realidade: “E só vi no perfil da cidade/ O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa/ Mexendo asas azuis dentro da tarde”. Frustrado pela ausência da amada, vê somente as sombras (o arcanjo de asas azuis) do arranha-céu cor de rosa, a se projetarem sobre o corpo da cidade antropomórfica, (de perfil) e, como ele, também solitária.
Se em outros poemas Mário se caracteriza pela incontinência verbal, pelas deformações vocabulares, pelo trocadilho, pela alternância de motivos (populares e cultos), pela linguagem marcada, não pela ironia, mas pelo sarcasmo, neste, o autor se revela um mestre de contenção verbal, se desvencilha do retórico, a fim de melhor apreensão do sensível. A captação lírica se depura, a dicção se torna enxuta e equilibrada. Nesta canção de intensa cor local, ele nos mostra São Paulo transfigurada pelas imagens do fantástico. A cidade adquire o aspecto de miragem, sinestésica. As cores cambiantes do crepúsculo se esmaecem em novas cambiantes. Dai, ele falar em arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa. Na hierarquia celeste, os anjos, os arcanjos, os querubins, os serafins, seres de luz e de amor, são espíritos cheios de cores que vão do verde ao róseo. Segundo William Blake, que era um visionário e especialista no assunto, a depender das emoções, os anjos passam do azul intenso dos altíssimos empíreos ao amarelo solar, e deste ao róseo festivo: “So he took his wings, and fled;/ Then the morn blushed rosy red”(Angel) No caso do “Poema da Amiga”, os raios solares, (o arcanjo), se lançam à frente do edifício, iluminam-no e projetam-lhe as sombras (asas azuis), de modo que, à medida que anoitece, o poeta se descobre solitário enquanto a cidade mergulha no reino das imponderabilidades.
Carlos Roberto Santos Araújo.
Do Castelo de Axel ao Condado de Hécate
O que é a crítica literária? Um monólogo solitário ou um diálogo entre o crítico e a obra? No livro “Do Castelo de Axel ao Condado de Hécate”, ficamos com a segunda alternativa. Nesta série de ensaios, Gérson Pereira dos Santos, conhecido por estudos de Direito Penal, demonstra intimidade com a arte ficcional e traz a lume um excelente conjunto de análises da moderna literatura do século xx. E instaura a comunicação: dialoga não só com as obras objeto do seu estudo, como ainda conosco, seus leitores, e nos introduz no espaço metafórico da criação literária.
Aliás, o próprio título do livro revela o seu propósito de situar a moderna grande ficção. “O Castelo de Axel” e “Memórias do Condado de Hécate” são famosas obras do crítico literário Edmond Wilson. A primeira, publicada em 1931, e dedicada ao estudo dos poetas e romancistas fundamentais da primeira metade do século passado, com interpretações das obras de Proust, Eliot, Valéry, Yeats, Faulkner, Joyce, etc. A segunda, publicada em 1946, é uma coletânea de contos, banida pela justiça americana, por seu conteúdo pornográfico. Ao examinar as idéias lançadas entre um e outro livro, Gérson Pereira constrói o itinerário da sua crítica.
Nosso autor, que em estudos anteriores analisou as obras de Hermann Broch, Vladimir Nabokov, Ismail Kadaré, Dino Buzzati, Thomas Mann, Joseph Conrad, Joyce, agora, nesta publicação, concentra parte considerável do seu esforço na prospecção da obra do escritor americano William Faulkner. Como bem o acentuou, na Introdução do seu livro: “nas noites silenciosas do último inverno, desligados os telefones da vida, escrevi estas páginas. Os autores deixaram seus personagens à solta, e eles de longe me espreitavam como se tencionassem saber se eu, de fato, os esperava”. Os demais ensaios se referem às obras de Edmond Wilson, Lawrence Durrell e Ingeborg Bachmann.
Gérson Pereira dos Santos tem todas as qualidades do bom crítico literário: a inteligência inquieta, a cultura, o domínio da palavra escrita. A erudição e a vasta leitura são indispensáveis. Mas não bastam. É preciso que o crítico, em exercício de intelecção, tenha poder de síntese para, do choque das idéias e observações, construir a visão necessária, veicular a idéia, formar o ponto de vista. É aí onde entra a inteligência. Importante também saiba escrever, não apenas de modo científico e objetivo, mas artisticamente, para viabilizar ao seu leitor não só o benefício da informação, mas também a fruição da contemplação estética como forma de seduzi-lo a permanecer em sua leitura, não fosse a crítica, também ela, obra de arte, de arte literária.
E todas estas qualidades Gérson Pereira dos Santos as têm, e de sobra. Arguto observador, culto, vernacular, ele escreve sob o signo dos grandes estilistas: “Os mundos narrativos aqui apresentados, eu os quis, tanto quanto possível, fiéis. Não pretendia demorar-me em análises tematológicas ou narratológicas, nem, sequer, discorrer sobre eventuais mistérios dos textos. Fiquei atento ao ensinamento de Machado de Assis de que a melhor página não é só a que se relê, é também a que a gente completa de si para si”. Perfeito!
Evidente que análise desta natureza exige fôlego e instrumental de vasta erudição, dada a amplitude e qualidade dos temas e obras. E deles não se ressente Gérson Pereira dos Santos, que, concentrado no objeto de sua análise, incursiona, com ricas digressões, nas obras de outros importantes escritores, faz paralelos e aproximações, exercícios de literatura comparada. Deste modo faz referências sempre pertinentes sobre as obras de Musil, Forster, Buchner, Holderlin, Kavafis e tantos outros cânones.
Seus estudos sobre Faulkner demonstram o esforço do scholar. Afinal, tal obra não é para principiantes. Ao contrário, é prosa difícil, não-linear, tortuosa como a de um possesso a gritar através da linguagem, a fazer uso da técnica de fluxo de consciência, a desnudar os pensamentos mais íntimos dos personagens, até mesmo os mais fragmentários devaneios. E não é só a dificuldade da linguagem.
A temática, também, é complicada, às vezes incompreensível, como nos romances em que conta a história de muitas gerações da família Sartoris. Ou como em “O Som e a Fúria”, de três personagens contraditórios, Benjy, Quentin e Jason, personagens enigmáticos que não contam sua estória de início, mas delegam ao próprio leitor que, lendo, escreverá o texto, o ônus dar unidade a esta confusão.
Pois em todo aquele caos faulkneriano, Gérson Pereira dos Santos tenta colocar um pouco de ordem. Anota sutilezas, filigranas. Paciente, nos apresenta, de modo lúdico, em tom de scherzo, como ele mesmo confessa, aos habitantes do imaginário mundo de Yoknapatawpha.
E vemos Jefferson, a cidade de luzes esmaecidas, estender-se em derredor do condado por divergentes caminhos, “tal como o cubo ao círculo da roda, por seus raios, a exemplo do Senhor do alto de Belém, pairas neste instante acima do teu berço, dos homens e mulheres que te tornaram no que és, dos arquivos, das crônicas de tua terra natal oferecidas a teu exame em mil círculos concêntricos semelhantes aos que encrespam a água viva sob a qual teu passado dorme um sono sem sonhos; reinas, então, inacessível e sereno, acima desse microcosmo de paixões esperanças e desventuras do homem, ambições, terrores, luxúria, coragem, atos de abnegação, piedade, honra, pecados e orgulho, tudo isso de cambulhada, num feixe precário contido pela trama e pela frágil malha férrea da tua capacidade - mas tudo isso consagrado também à realização de teus sonhos”(Tradução de Hélio Pólvora).
Assim, toda a obra de Faulkner se desnuda à nossa frente. Os ensaios de Gérson Pereira dos Santos se desdobram na análise de “As Palmeiras Selvagens”, “A Aldeia”, “A Cidade”, “A Mansão”, “Desça, Moisés”, “Os Invictos”, “Enquanto Agonizo”, “Santuário”, “Luz de Agosto”, “O Som e a Fúria”, “Absalão, Absalão”. Enfim, toda a saga faulkneriana, painel da decadência sulista, dilacerada pelo preconceito racial e pela falência das grandes famílias aristocráticas.
Na segunda parte, os estudos se voltam para Edmond Wilson, com análise dos livros “Rumo À Estação Finlândia”, “A Ferida e o Arco”, “O Castelo de Axel” e “Memória do Condado de Hécate”. A terceira parte é dedicada à obra do irlandês Lawrence Durrell. Gérson Pereira dos Santos examina a famosa tetralogia, “O Quarteto de Alexandria”, cheio de ardência e sexualidade intensa, escrito sob influência do Trópico de Câncer de Henry Miller e de x de Lawrence. A descrição da boêmia, BA cidade grega de Alexandria.
Por fim, estuda a obra de Ingeborg Bachmann, de quem Henrich Boll disse dela se lembraria como se fosse uma garota. Ingeborg Bachmann, que teve um longo affair com Paul Celan, hermético poeta judeu-húngaro, suicida nas águas do Sena.
A morte do romance foi anunciada ao longo do tempo. Na década de vinte, Luckacs viu a narrativa se distanciando da epopéia, perdendo fôlego. Todavia, desde então, passou por muitos experimentos, dentro os quais “Ulisses”, “Orlando”, “O Som e A Fúria”. O gênero, impávido, resiste. Os estudos de Gérson Pereira nos mostram esta força e este ímpeto de sobrevivência.
Carlos Roberto Santos Araujo.
Poeta, autor de Sonetos da Luz Matinal
O que é a crítica literária? Um monólogo solitário ou um diálogo entre o crítico e a obra? No livro “Do Castelo de Axel ao Condado de Hécate”, ficamos com a segunda alternativa. Nesta série de ensaios, Gérson Pereira dos Santos, conhecido por estudos de Direito Penal, demonstra intimidade com a arte ficcional e traz a lume um excelente conjunto de análises da moderna literatura do século xx. E instaura a comunicação: dialoga não só com as obras objeto do seu estudo, como ainda conosco, seus leitores, e nos introduz no espaço metafórico da criação literária.
Aliás, o próprio título do livro revela o seu propósito de situar a moderna grande ficção. “O Castelo de Axel” e “Memórias do Condado de Hécate” são famosas obras do crítico literário Edmond Wilson. A primeira, publicada em 1931, e dedicada ao estudo dos poetas e romancistas fundamentais da primeira metade do século passado, com interpretações das obras de Proust, Eliot, Valéry, Yeats, Faulkner, Joyce, etc. A segunda, publicada em 1946, é uma coletânea de contos, banida pela justiça americana, por seu conteúdo pornográfico. Ao examinar as idéias lançadas entre um e outro livro, Gérson Pereira constrói o itinerário da sua crítica.
Nosso autor, que em estudos anteriores analisou as obras de Hermann Broch, Vladimir Nabokov, Ismail Kadaré, Dino Buzzati, Thomas Mann, Joseph Conrad, Joyce, agora, nesta publicação, concentra parte considerável do seu esforço na prospecção da obra do escritor americano William Faulkner. Como bem o acentuou, na Introdução do seu livro: “nas noites silenciosas do último inverno, desligados os telefones da vida, escrevi estas páginas. Os autores deixaram seus personagens à solta, e eles de longe me espreitavam como se tencionassem saber se eu, de fato, os esperava”. Os demais ensaios se referem às obras de Edmond Wilson, Lawrence Durrell e Ingeborg Bachmann.
Gérson Pereira dos Santos tem todas as qualidades do bom crítico literário: a inteligência inquieta, a cultura, o domínio da palavra escrita. A erudição e a vasta leitura são indispensáveis. Mas não bastam. É preciso que o crítico, em exercício de intelecção, tenha poder de síntese para, do choque das idéias e observações, construir a visão necessária, veicular a idéia, formar o ponto de vista. É aí onde entra a inteligência. Importante também saiba escrever, não apenas de modo científico e objetivo, mas artisticamente, para viabilizar ao seu leitor não só o benefício da informação, mas também a fruição da contemplação estética como forma de seduzi-lo a permanecer em sua leitura, não fosse a crítica, também ela, obra de arte, de arte literária.
E todas estas qualidades Gérson Pereira dos Santos as têm, e de sobra. Arguto observador, culto, vernacular, ele escreve sob o signo dos grandes estilistas: “Os mundos narrativos aqui apresentados, eu os quis, tanto quanto possível, fiéis. Não pretendia demorar-me em análises tematológicas ou narratológicas, nem, sequer, discorrer sobre eventuais mistérios dos textos. Fiquei atento ao ensinamento de Machado de Assis de que a melhor página não é só a que se relê, é também a que a gente completa de si para si”. Perfeito!
Evidente que análise desta natureza exige fôlego e instrumental de vasta erudição, dada a amplitude e qualidade dos temas e obras. E deles não se ressente Gérson Pereira dos Santos, que, concentrado no objeto de sua análise, incursiona, com ricas digressões, nas obras de outros importantes escritores, faz paralelos e aproximações, exercícios de literatura comparada. Deste modo faz referências sempre pertinentes sobre as obras de Musil, Forster, Buchner, Holderlin, Kavafis e tantos outros cânones.
Seus estudos sobre Faulkner demonstram o esforço do scholar. Afinal, tal obra não é para principiantes. Ao contrário, é prosa difícil, não-linear, tortuosa como a de um possesso a gritar através da linguagem, a fazer uso da técnica de fluxo de consciência, a desnudar os pensamentos mais íntimos dos personagens, até mesmo os mais fragmentários devaneios. E não é só a dificuldade da linguagem.
A temática, também, é complicada, às vezes incompreensível, como nos romances em que conta a história de muitas gerações da família Sartoris. Ou como em “O Som e a Fúria”, de três personagens contraditórios, Benjy, Quentin e Jason, personagens enigmáticos que não contam sua estória de início, mas delegam ao próprio leitor que, lendo, escreverá o texto, o ônus dar unidade a esta confusão.
Pois em todo aquele caos faulkneriano, Gérson Pereira dos Santos tenta colocar um pouco de ordem. Anota sutilezas, filigranas. Paciente, nos apresenta, de modo lúdico, em tom de scherzo, como ele mesmo confessa, aos habitantes do imaginário mundo de Yoknapatawpha.
E vemos Jefferson, a cidade de luzes esmaecidas, estender-se em derredor do condado por divergentes caminhos, “tal como o cubo ao círculo da roda, por seus raios, a exemplo do Senhor do alto de Belém, pairas neste instante acima do teu berço, dos homens e mulheres que te tornaram no que és, dos arquivos, das crônicas de tua terra natal oferecidas a teu exame em mil círculos concêntricos semelhantes aos que encrespam a água viva sob a qual teu passado dorme um sono sem sonhos; reinas, então, inacessível e sereno, acima desse microcosmo de paixões esperanças e desventuras do homem, ambições, terrores, luxúria, coragem, atos de abnegação, piedade, honra, pecados e orgulho, tudo isso de cambulhada, num feixe precário contido pela trama e pela frágil malha férrea da tua capacidade - mas tudo isso consagrado também à realização de teus sonhos”(Tradução de Hélio Pólvora).
Assim, toda a obra de Faulkner se desnuda à nossa frente. Os ensaios de Gérson Pereira dos Santos se desdobram na análise de “As Palmeiras Selvagens”, “A Aldeia”, “A Cidade”, “A Mansão”, “Desça, Moisés”, “Os Invictos”, “Enquanto Agonizo”, “Santuário”, “Luz de Agosto”, “O Som e a Fúria”, “Absalão, Absalão”. Enfim, toda a saga faulkneriana, painel da decadência sulista, dilacerada pelo preconceito racial e pela falência das grandes famílias aristocráticas.
Na segunda parte, os estudos se voltam para Edmond Wilson, com análise dos livros “Rumo À Estação Finlândia”, “A Ferida e o Arco”, “O Castelo de Axel” e “Memória do Condado de Hécate”. A terceira parte é dedicada à obra do irlandês Lawrence Durrell. Gérson Pereira dos Santos examina a famosa tetralogia, “O Quarteto de Alexandria”, cheio de ardência e sexualidade intensa, escrito sob influência do Trópico de Câncer de Henry Miller e de x de Lawrence. A descrição da boêmia, BA cidade grega de Alexandria.
Por fim, estuda a obra de Ingeborg Bachmann, de quem Henrich Boll disse dela se lembraria como se fosse uma garota. Ingeborg Bachmann, que teve um longo affair com Paul Celan, hermético poeta judeu-húngaro, suicida nas águas do Sena.
A morte do romance foi anunciada ao longo do tempo. Na década de vinte, Luckacs viu a narrativa se distanciando da epopéia, perdendo fôlego. Todavia, desde então, passou por muitos experimentos, dentro os quais “Ulisses”, “Orlando”, “O Som e A Fúria”. O gênero, impávido, resiste. Os estudos de Gérson Pereira nos mostram esta força e este ímpeto de sobrevivência.
Carlos Roberto Santos Araujo.
Poeta, autor de Sonetos da Luz Matinal
Um conceito em crise
Sintoma evidente da decomposição social dos nossos tempos é a hipocrisia estimulada, aplaudida, proclamada, estilo de vida consistente em administração de atos cotidianos. O malandro não mais se dá ao cuidado de furtar, no silêncio da noite, saltando muros românticos ao luar. Não. Ele rouba à luz do dia, sorrindo... A metáfora do ladrão, não o bom, que sonhara o Paraíso, mas o próprio, se aplica a muitos que exercitam múltiplas formas de participação social. Pois todos escondem as cartas e... mentem. Desesperadamente, diria o poeta. E ninguém protesta, pois tais mentiras são sustentadas por alguma forma de poder, de maneira que a falta de honestidade é compensada pela total ausência de sua procura.
Bem sabemos que a mentira e a perfídia são elementos indispensáveis a certas formas de atividade humana, sobretudo aquelas ligadas ao jogo do poder. Segundo Hegel, as coisas só andam pelo mau, o que torna o demônio personagem de primeira ordem na trama da vida humana, ironia da historia. Como entender a política abstraindo Maquiavel e Macbeth? Até aí, tudo bem. O diabo é quando aquele cavalheiro de orelhas e cavanhaque pontiagudos, cansado de rodear a Terra e passear por ela, mete-se em outros setores da vida, sobretudo os compromissados com a libertação dos espíritos, quando a mentira, ou seja, a afirmação sustentada por interesses personalíssimos e inconfessáveis, começa a invadir as ciências, as artes, os juízos de valor. Atenho-me nesse particular à total ausência de responsabilidade que invadiu os juízos de valor no campo do conhecimento humanístico, especificamente no setor da critica literária, no Brasil. Não se lê nos jornais, nas revistas especializadas, um exame crítico literário desprovido de interesse promocional ou publicitário como se tal atividade sucumbisse aos interesses do mercado editorial, se transformasse em mero exercício de mercadologia cuja finalidade consiste em considerar o quadragésimo livro do escritor fulano de tal um dos sete trabalhos de Hércules, oitava maravilha do universo, verdadeira pirâmide do Egito, de cujo alto quarenta séculos nos contemplam. E os jornais propagam estas imposturas que, diga-se de passagem, o público aceita docilmente. As manifestações críticas se reduzem a trocas de elogios, pois o crítico de hoje pode ser a vítima de amanhã, e, por via das dúvidas, livrai-nos Deus de todo mal, amém. E tome elogio, e tome mentira, pois tal critica é formulada pelo contista travestido de crítico literário que aposta suas palavras na esperança do retorno acompanhado dos respectivos dividendos. Eu te elogio, tu me elogias, nós nos elogiamos, e assim elevamos aos céus novelas que não valem um caracol, versos que não merecem um figo seco, contos que não pagam uma banana podre.
Podre, sim, existe algo de podre no reino da Dinamarca. O que falta a estas pessoas é um pouco de pudor, cuja míngua manifesta desprezo pela obra literária e pelo público. Critica é julgamento e julgamento não se vende, não se oferece, não se empresta. As leis do mercado, da ascensão social não podem interferir, jamais, na dignidade da obra literária. Na Bahia, onde prosadores proliferam como cogumelos, poetas pululam como sapos no brejo, onde só se publicam obras-primas, onde todos são inapelavelmente maravilhosos, não caberia ao escritor respeitar a nobreza da sua arte sob pena de exacerbar a degradação do próprio ofício, na medida em que se torne o camelô das suas bugigangas? Não caberia ao crítico a defesa de um espaço de pensamento livre, sem concessões, sem contemporizações? Acariciar subjetividades maltratadas ou repelir sem pedantismos nem jogos de cinturas, a desonestidade intelectual, a mistificação, a farsa, o blefe, a prostituição dos espíritos?
Carlos Roberto Santos Araujo.
Sintoma evidente da decomposição social dos nossos tempos é a hipocrisia estimulada, aplaudida, proclamada, estilo de vida consistente em administração de atos cotidianos. O malandro não mais se dá ao cuidado de furtar, no silêncio da noite, saltando muros românticos ao luar. Não. Ele rouba à luz do dia, sorrindo... A metáfora do ladrão, não o bom, que sonhara o Paraíso, mas o próprio, se aplica a muitos que exercitam múltiplas formas de participação social. Pois todos escondem as cartas e... mentem. Desesperadamente, diria o poeta. E ninguém protesta, pois tais mentiras são sustentadas por alguma forma de poder, de maneira que a falta de honestidade é compensada pela total ausência de sua procura.
Bem sabemos que a mentira e a perfídia são elementos indispensáveis a certas formas de atividade humana, sobretudo aquelas ligadas ao jogo do poder. Segundo Hegel, as coisas só andam pelo mau, o que torna o demônio personagem de primeira ordem na trama da vida humana, ironia da historia. Como entender a política abstraindo Maquiavel e Macbeth? Até aí, tudo bem. O diabo é quando aquele cavalheiro de orelhas e cavanhaque pontiagudos, cansado de rodear a Terra e passear por ela, mete-se em outros setores da vida, sobretudo os compromissados com a libertação dos espíritos, quando a mentira, ou seja, a afirmação sustentada por interesses personalíssimos e inconfessáveis, começa a invadir as ciências, as artes, os juízos de valor. Atenho-me nesse particular à total ausência de responsabilidade que invadiu os juízos de valor no campo do conhecimento humanístico, especificamente no setor da critica literária, no Brasil. Não se lê nos jornais, nas revistas especializadas, um exame crítico literário desprovido de interesse promocional ou publicitário como se tal atividade sucumbisse aos interesses do mercado editorial, se transformasse em mero exercício de mercadologia cuja finalidade consiste em considerar o quadragésimo livro do escritor fulano de tal um dos sete trabalhos de Hércules, oitava maravilha do universo, verdadeira pirâmide do Egito, de cujo alto quarenta séculos nos contemplam. E os jornais propagam estas imposturas que, diga-se de passagem, o público aceita docilmente. As manifestações críticas se reduzem a trocas de elogios, pois o crítico de hoje pode ser a vítima de amanhã, e, por via das dúvidas, livrai-nos Deus de todo mal, amém. E tome elogio, e tome mentira, pois tal critica é formulada pelo contista travestido de crítico literário que aposta suas palavras na esperança do retorno acompanhado dos respectivos dividendos. Eu te elogio, tu me elogias, nós nos elogiamos, e assim elevamos aos céus novelas que não valem um caracol, versos que não merecem um figo seco, contos que não pagam uma banana podre.
Podre, sim, existe algo de podre no reino da Dinamarca. O que falta a estas pessoas é um pouco de pudor, cuja míngua manifesta desprezo pela obra literária e pelo público. Critica é julgamento e julgamento não se vende, não se oferece, não se empresta. As leis do mercado, da ascensão social não podem interferir, jamais, na dignidade da obra literária. Na Bahia, onde prosadores proliferam como cogumelos, poetas pululam como sapos no brejo, onde só se publicam obras-primas, onde todos são inapelavelmente maravilhosos, não caberia ao escritor respeitar a nobreza da sua arte sob pena de exacerbar a degradação do próprio ofício, na medida em que se torne o camelô das suas bugigangas? Não caberia ao crítico a defesa de um espaço de pensamento livre, sem concessões, sem contemporizações? Acariciar subjetividades maltratadas ou repelir sem pedantismos nem jogos de cinturas, a desonestidade intelectual, a mistificação, a farsa, o blefe, a prostituição dos espíritos?
Carlos Roberto Santos Araujo.
Silêncio angustiante
O que mais agrada em Telmo Padilha é a linguagem concisa e desprovida de excessos de originalidade. Ele fala sem nenhum esforço, de modo direto, a respeito de coisas simples. Em tempo de poetas derramados, ele se mantém avesso ao brilho das hipérboles. Suas palavras, pronunciadas em tom menor, para não dizem em surdina, têm sabor de música de câmara, atingem, persuasivas, a sensibilidade, e deflagram a emoção: “E contudo é imperioso viver./ Recuar não podes, nem deves /Senão ao teu primeiro quarto / Onde as mesmas sombras te aguardam. // Este és, e esta a tua vida / Teu mundo é o mundo dos outros / E dele separas / apenas pobres migalhas, tristes feridas./ Este é o teu mundo e não o modificas”.
Este poema, Fronteira, é um bom exemplo de sua concisão. O poeta fala de coisas concretas, objetivas, substanciais. Refere-se a si mesmo, ao seu mundo fechado, solitário, sem horizontes, sua vida incomunicável e cheia de limites. Tal é a sua solidão que, usando a forma do diálogo, ele monologa, se dirige a uma segunda pessoa, quase terceira, que não é senão ele mesmo. E aí nos atinge, pois nos identificamos com o seu sofrimento. O seu mundo recluso é também o nosso mundo, sua vida, fechada, como se parece com a vida de todos nós. Vida vivida apenas por viver, pois, como ele nos afirma, “é imperioso”, isto é, compulsório, vivê-la. E ‘recuar’, ou seja, desistir de viver, morrer, não podemos, porque, nas circunstâncias normais, não se escolhe a hora da própria morte: “Há um momento em que nos descobrimos / Mentirosos, inúteis e arrependidos / Mas andamos tanto que seria impossível /Retroceder; então seguimos adiante”.
Assim é Telmo Padilha, um poeta que se realizou plenamente em poemas curtos e diretos como haicais. Nunca fez circunlóquios nem digressões inúteis. Tinha pudor dos excessos. A expressividade de sua poesia está na clareza das suas imagens, nas sugestões que suas metáforas evocam no espírito do leitor. Se o poeta fala em demasia, mete os pés pelas mãos, atrapalha-se, cobre a nudez das imagens com a opacidade das palavras. No poema, como na vida, uma palavra a mais pode pôr tudo a perder. Telmo tinha consciência deste problema e, desde cedo, aprendeu a torcer o pescoço das eloqüências.
Eis mais um exemplo da sua sobriedade: “Tenho pressa / de chegar, /Todo o meu corpo agita-se/ Para frente.//Mas se não chego/ Para onde sigo?// Alguém me grita: Foge! / Obedeço.// A noite é o meu preço”.
Quanta gente passa a vida a experimentar alquimias em laboratórios de fundo de quintal. Procedem a estranhas combinações, misturam elementos incompatíveis entre si e o resultado não é ouro, mas um composto de metais enegrecidos. Telmo recusava-se a estes insólitos empreendimentos. Limitava-se a falar de coisas comuns a todos nós. Sua temática era modesta, porém vertical: o isolamento, a inadequação, a precariedade do ser ante as forças manipuladoras do tempo, do destino, e da morte. Daí seu verso possuir um leve sabor de mágoa e decepção. Porém eram dolorosamente verdadeiros os seus sentimentos, e nos revelavam as nossas próprias fragilidades e inquietudes. Em Telmo predomina o sentimento da angústia existencial: “Oh estes rostos, meu Deus, sob as vigas/ Do olhar que não os salva? Quem os salva/ Quem salva estes rostos sob as vigas?”
Versos doridos como o silêncio de Rilke ante da surdez dos anjos. Como ele, Telmo era poeta de algumas convicções e muitas dúvidas. Grande parte dos seus poemas é constituída de indagações lançadas no ar? E toda dessa angústia nasce da incomunicabilidade das pessoas, da ausência de ternura, em um mundo onde o amor surge como produto mercantil, como mero resultado da troca das mercadorias. Toma lá, da cá. Por este motivo, talvez, o amor não tenha sido tema dominante em sua obra. Ao contrário, passou, batido, por ele. E quando o poeta fala a respeito deste sentimento o faz em tom de lamento, mais como falta do que como presença: “Tudo o que deixou de ser/ Falsa abundancia/ Em falsa primavera”.
O poeta era um atormentado, perdido na noite fechada. Em tom elegíaco concebeu sua obra cheia de mágoas e ressentimentos. Suas queixas, porém, são o justo lamento de um espírito delicado em um mundo bruto que o não compreendeu, de mulheres que lhe recusaram um mínimo de ternura e compreensão. Em Itabuna escreveu discretamente poemas capazes de levar às lágrimas. Textos que, às vezes, transcenderam a solidão e isolamento, falaram de carinho e aconchego, e se tornaram alegres e esperançosos: “Pássaros bicam a sombra/ Recolhendo o alpiste imaginário /Para outros vôos/, E cantam./ E a noite se ilumina/ De solar alegria/ E tudo é tão simples/Que ao menor ruído/Acordamos”.
Telmo Padilha foi um dos melhores poetas que a Bahia produziu na segunda metade do século vinte. Quando veremos todo o conjunto de sua obra reunido em um único volume de suas Poesias Completas, para, assim, fazer uma melhor avaliação de sua contribuição ao processo poético brasileiro?
O que mais agrada em Telmo Padilha é a linguagem concisa e desprovida de excessos de originalidade. Ele fala sem nenhum esforço, de modo direto, a respeito de coisas simples. Em tempo de poetas derramados, ele se mantém avesso ao brilho das hipérboles. Suas palavras, pronunciadas em tom menor, para não dizem em surdina, têm sabor de música de câmara, atingem, persuasivas, a sensibilidade, e deflagram a emoção: “E contudo é imperioso viver./ Recuar não podes, nem deves /Senão ao teu primeiro quarto / Onde as mesmas sombras te aguardam. // Este és, e esta a tua vida / Teu mundo é o mundo dos outros / E dele separas / apenas pobres migalhas, tristes feridas./ Este é o teu mundo e não o modificas”.
Este poema, Fronteira, é um bom exemplo de sua concisão. O poeta fala de coisas concretas, objetivas, substanciais. Refere-se a si mesmo, ao seu mundo fechado, solitário, sem horizontes, sua vida incomunicável e cheia de limites. Tal é a sua solidão que, usando a forma do diálogo, ele monologa, se dirige a uma segunda pessoa, quase terceira, que não é senão ele mesmo. E aí nos atinge, pois nos identificamos com o seu sofrimento. O seu mundo recluso é também o nosso mundo, sua vida, fechada, como se parece com a vida de todos nós. Vida vivida apenas por viver, pois, como ele nos afirma, “é imperioso”, isto é, compulsório, vivê-la. E ‘recuar’, ou seja, desistir de viver, morrer, não podemos, porque, nas circunstâncias normais, não se escolhe a hora da própria morte: “Há um momento em que nos descobrimos / Mentirosos, inúteis e arrependidos / Mas andamos tanto que seria impossível /Retroceder; então seguimos adiante”.
Assim é Telmo Padilha, um poeta que se realizou plenamente em poemas curtos e diretos como haicais. Nunca fez circunlóquios nem digressões inúteis. Tinha pudor dos excessos. A expressividade de sua poesia está na clareza das suas imagens, nas sugestões que suas metáforas evocam no espírito do leitor. Se o poeta fala em demasia, mete os pés pelas mãos, atrapalha-se, cobre a nudez das imagens com a opacidade das palavras. No poema, como na vida, uma palavra a mais pode pôr tudo a perder. Telmo tinha consciência deste problema e, desde cedo, aprendeu a torcer o pescoço das eloqüências.
Eis mais um exemplo da sua sobriedade: “Tenho pressa / de chegar, /Todo o meu corpo agita-se/ Para frente.//Mas se não chego/ Para onde sigo?// Alguém me grita: Foge! / Obedeço.// A noite é o meu preço”.
Quanta gente passa a vida a experimentar alquimias em laboratórios de fundo de quintal. Procedem a estranhas combinações, misturam elementos incompatíveis entre si e o resultado não é ouro, mas um composto de metais enegrecidos. Telmo recusava-se a estes insólitos empreendimentos. Limitava-se a falar de coisas comuns a todos nós. Sua temática era modesta, porém vertical: o isolamento, a inadequação, a precariedade do ser ante as forças manipuladoras do tempo, do destino, e da morte. Daí seu verso possuir um leve sabor de mágoa e decepção. Porém eram dolorosamente verdadeiros os seus sentimentos, e nos revelavam as nossas próprias fragilidades e inquietudes. Em Telmo predomina o sentimento da angústia existencial: “Oh estes rostos, meu Deus, sob as vigas/ Do olhar que não os salva? Quem os salva/ Quem salva estes rostos sob as vigas?”
Versos doridos como o silêncio de Rilke ante da surdez dos anjos. Como ele, Telmo era poeta de algumas convicções e muitas dúvidas. Grande parte dos seus poemas é constituída de indagações lançadas no ar? E toda dessa angústia nasce da incomunicabilidade das pessoas, da ausência de ternura, em um mundo onde o amor surge como produto mercantil, como mero resultado da troca das mercadorias. Toma lá, da cá. Por este motivo, talvez, o amor não tenha sido tema dominante em sua obra. Ao contrário, passou, batido, por ele. E quando o poeta fala a respeito deste sentimento o faz em tom de lamento, mais como falta do que como presença: “Tudo o que deixou de ser/ Falsa abundancia/ Em falsa primavera”.
O poeta era um atormentado, perdido na noite fechada. Em tom elegíaco concebeu sua obra cheia de mágoas e ressentimentos. Suas queixas, porém, são o justo lamento de um espírito delicado em um mundo bruto que o não compreendeu, de mulheres que lhe recusaram um mínimo de ternura e compreensão. Em Itabuna escreveu discretamente poemas capazes de levar às lágrimas. Textos que, às vezes, transcenderam a solidão e isolamento, falaram de carinho e aconchego, e se tornaram alegres e esperançosos: “Pássaros bicam a sombra/ Recolhendo o alpiste imaginário /Para outros vôos/, E cantam./ E a noite se ilumina/ De solar alegria/ E tudo é tão simples/Que ao menor ruído/Acordamos”.
Telmo Padilha foi um dos melhores poetas que a Bahia produziu na segunda metade do século vinte. Quando veremos todo o conjunto de sua obra reunido em um único volume de suas Poesias Completas, para, assim, fazer uma melhor avaliação de sua contribuição ao processo poético brasileiro?
Anoitecer
Em um dos seus mais belos poemas, “Anoitecer”, Carlos Drummond de Andrade coloca o problema do medo. Este, aliás, é tema presente em toda a sua obra. As palavras de um célebre critico literário servem de epígrafe a outro dos seus poemas, cujo titulo é nada mais nada menos que “O Medo”: “Porque há para todos nós um problema sério. Este problema é o medo.(Antonio Cândido, em Plataforma de uma geração”) .
Diz o poeta: “Em verdade temos medo. Nascemos escuro.” Insiste: “Fomos educados para o medo,/ Cheiramos flores de medo,/ De medo, vermelhos rios/ Vadeamos.” Em outro texto assevera: “O medo, com sua capa,/ Nos dissimula, nos berça.” E acrescenta: “Fiquei com medo de ti/ Meu companheiro moreno”.
Em ‘ tempo de divisas, de gente cortada, de muletas, de mortos faladores e de velhas paralíticas, nostálgicas de bailado, tempo de silêncio, boca gelada e murmúrio’, o poeta enfatiza o drama do desprezo, da repugnância e... do medo. Em Drummond, a noite cai, com sua escura cortina de presságios. E no escuro da casa há sempre uma torneira a gotejar sua lamúria interminável: “A água cai na caixa com uma força, com uma dor./ A casa não dorme, estupefata”.
Num mundo vazio de amor e cheio de corrupção, o poeta identifica o medo como resíduo de todas as coisas cotidianas: “De tudo ficou um pouco./ Do teu medo. Do teu asco.” Em “ Versos à boca da noite”, confessa seus temores diante da efemeridade da vida: “ Sinto que tempo sobre mim abate / Sua mão pesada. Rugas, dentes, calva... / Uma aceitação maior de tudo/ E o medo de novas descobertas”.
A imagem do medo associa-se à do escuro, da noite, da sombra: “É noite, sinto que é noite. / Não porque a sombra descesse/ (Bem me importa a face negra)/ Mas porque dentro de mim, o grito/ Calou-se, fez-se desânimo’.
O medo surge, ainda uma vez, ligado à imagem da sombra: “De repente, não sei como, / fiquei triste sem querer, / Uma sombra veio vindo, / Veio vindo, me abraçou”.
Em “Anoitecer”, Drummond se vale da imagem crepuscular, ao fim de mais um dia de caos na cidade imensa, e coloca esta questão com uma beleza pungente:
Anoitecer
É a hora em que o sino toca,
Mas aqui não há sinos;
Há somente buzinas,
Sirenes roucas, apitos
Aflitos, pungentes, trágicos,
Uivando escuro segredo;
Desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
Mas de há muito não há pássaros;
Só multidões compactas,
Escorrendo exaustas
Como espesso óleo
Que impregna o lajedo;
Desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
Mas o descanso vem tarde,
O corpo não pede sono,
Depois de tanto rodar;
Pede paz – morte – mergulho
No poço mais ermo e quedo;
Desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
Gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos
Bicando em mim, meu passado,
Meu futuro, meu degredo;
Desta hora, sim, tenho medo.
Todo o poema se desenvolve num clima de entre lusco e fusco, no momento indefinido em que o sol se vai e as sombras envolvem a cidade e seus habitantes. O conjunto, construído sob intenso rigor de forma, é arquitetônico, prodígio de simetria e correspondência entre as suas partes componentes.
Composto em quatro estrofes de sete versos cada, os três primeiros blocos são construídos sobre um mesmo molde e temática, com signos diversos. Ao primeiro verso (È a hora em que o sino toca), correspondem, com precisão matemática, o segundo ( É a hora em que o pássaro volta) e o terceiro (È a hora do descanso). Ao sino (que toca), corresponde o pássaro (que volta) e o descanso (que vem tarde). Se cada primeiro verso dos blocos tem uma afirmativa (É a hora), cada segundo verso respectivo contém uma negativa àquela afirmação (Mas aqui não há sinos...Mas de há muito não há pássaros...Mas o descanso (não vem cedo) vem tarde.”
Todos os segundos versos dos três primeiros blocos mantém o mesmo esquema e fazem as mesmas negações, usando signos poéticos diversos, embora análogos: sinos, pássaros, descanso. Após a negação contida nos segundos versos, surge a revelação dolorosa da realidade: “Há somente buzinas”, “Só multidões compactas” e “ O corpo que ‘não pede sono”. Essas realidades enumeradas, buzinas, multidões, corpo, são também conexas: as buzinas são aflitas, as multidões são compactas, e o corpo é tão cansado que não pede sono, porém paz e morte, vontade de auto-aniquilamento.
As buzinas dos automóveis gritam estridentes, as sirenes roucas das ambulâncias e patrulhas policiais abrem caminho em demanda de hospitais e complexos penitenciários, os ‘apitos aflitos’ dos policiais tentam ordenar o caos urbano. As pessoas, solitárias, embora parte componente das “multidões compactas, exaustas”, coisificam-se, liquefazem-se a ponto de escorrerem ‘como espesso óleo’. O corpo exaurido não consegue dormir em razão da própria exaustão, e pede um sono mais profundo, o sono da ‘morte’, a finitude como redenção e libertação de tanto sofrimento inútil. Há correspondência também entre os sentimentos expressos pelos adjetivos ‘aflitos’, ‘exaustos’ e ‘cansados’.
Na terceira estrofe, as buzinas, as sirenes, as multidões, corporificam-se, afinal, na figura do individuo fragmentado e reduzido à condição de matéria. Mero corpo, pois homem de quem se arrancou a alma, a consciência, a dignidade. Esse corpo, por sua vez, reduzido ao estado de máquina, se limita a girar mediante seus automatismos. E tal corpo, ‘depois de tanto rodar’ pelos labirintos da cidade, pede a morte que o liberte da tensão inesgotável.
O sino, o pássaro, o descanso, têm significados análogos: são metáforas de uma espiritualidade perdida. A voz do sino anuncia o mundo transcendente da Cristandade, convoca ao recolhimento e à comunhão com Deus. O pássaro surge como símbolo de leveza e sublimidade, libertação do peso e densidade da matéria. E o descanso é o necessário e revigorador intervalo entre os períodos dinâmicos de uma atividade massacrante que desumaniza o próprio homem. Só que o sino, o pássaro, e o descanso... não existem.
Há dinamismo no interior do poema, simbolizado pelas multidões desarvoradas que, em movimento de massa, ‘escorrem’, caudalosas, nas calçadas e nos leitos carroçáveis das avenidas. Há frêmito no grito das buzinas impacientes, nos apitos aflitos dos guardas de transito, no corpo que ‘roda e roda’, autômato. Uma particularidade de “Anoitecer” é a presença da rima nos dois últimos versos de cada estrofe. Visa o poeta, com a identidade de sons, enfatizar, no espírito do leitor, o núcleo do poema, a palavra ’medo’.
Este modelo de reiteração do tema, através das várias estrofes e dos signos análogos tem a finalidade de fortalecer a idéia da alienação, da exclusão, da rejeição ao individuo, no interior do poema. A repetição, em Drummond, tem, por si mesma, uma violenta carga emotiva e prepara o desfecho do poema: o anoitecer, a hora da paz, da ave-maria, do ângelus, momento de ‘gasalho, sombra e silêncio’, existiria ainda no mundo pós-moderno de perplexidades e individualismo exacerbado? Não, diz o poeta, não há mais a hora da paz. O ambiente hostil da Selva de Pedras não permite a existência lírica dos pássaros. Antes existe a hora dos corvos, das aves de rapina, dos predadores, o Corvo de Poe a gritar ameaçador ‘never more’, o corvo que se põe a bicar o passado, o futuro, e o degredo, isto é , o próprio fim do indivíduo. Daí, o desânimo: “Desta hora, sim, tenho medo”.
Sob o aspecto fônico, o poema saiu vitorioso. Discretamente, o autor lançou mão de insuspeitados recursos de arte poética, tornou os versos fluentes e de perfeita dicção. Estes se encaixam em suas flexões ascendentes e descendentes de voz através dos quais os recursos semânticos viajam sem nenhum abalroamento da sonoridade. As rimas internas são produzidas por uma arte requintada. Para se ter uma idéia, o poeta explora a identidade fônica entre a expressão ‘aqui não’ e a palavra ‘buzina’. No interior das estrofes, ele recorre às assonâncias, aliterações, homoteleutos, toantes, etc. Como se enganam os autores de prosas rimadas, ao suporem que o verso é livre e não produto de uma arte submetida a leis rigorosas.
O sarcasmo, marca registrada do nosso poeta, não encontra lugar neste poema. Drummond que, freqüentemente, ao longo de sua produção poética, cultiva a irreverência, ironiza o semelhante, guarda distância e se põe numa linha de indiferença, a contemplar o espetáculo do mundo, neste poema, partilha o sofrimento de todos nós. E os versos são lançados em tom de lamento, com a nota cortante da melancolia e comiseração.
Em Drummond, o medo surge no vácuo deixado pela ausência do amor, num universo em que o homem é uma ilha de solidão num mar de indiferenças, para não dizer de hostilidades: “Refugiamo-nos no amor,/ Este célebre sentimento/ E o amor faltou: chovia,/ Ventava, fazia frio...”. O amor não encontra ambiente propício ao seu desenvolvimento: chove, venta e faz frio. Tais intempéries, a chuva, o vento, o frio, simbolizam a indiferença mútua entre os indivíduos, a frieza das emoções, a incapacidade neurótica de oferecer e receber afeto.
Diante de tal quadro, o poeta reafirma o desamparo humano em sua errância diária e, ao concluir seu discurso, reforça a afirmação inicial, ao se valer do aposto (“sim”), no interior do derradeiro verso: “desta hora, sim, tenho medo.” Sem nenhuma obscuridade de expressão, “Anoitecer” congrega em si o drama do homem contemporâneo. Poema enxuto, de vocábulos concretos como um artefato feito de palavras necessárias, exatas e imprescindíveis, reflete a desagregação das coisas e dos homens,
Em tempo de caos e perversidades, Drummond medita a condição humana com extraordinária perspicácia e nos apresenta o retrato interior do homem atual, solitário, abandonado, movido pelo temor, encurralado pela angústia. O medo tornou-se o elemento dissolvente do mundo, onde o homem se acha vulnerável à fúria dos predadores, simbolizados aqui pelas aves de rapina, (os corvos), que se divertem a lacerar, com suas garras e bicos recurvos, a carne em agonia.
Carlos Roberto Santos Araújo
Poeta, autor de A Nave Submersa.
Em um dos seus mais belos poemas, “Anoitecer”, Carlos Drummond de Andrade coloca o problema do medo. Este, aliás, é tema presente em toda a sua obra. As palavras de um célebre critico literário servem de epígrafe a outro dos seus poemas, cujo titulo é nada mais nada menos que “O Medo”: “Porque há para todos nós um problema sério. Este problema é o medo.(Antonio Cândido, em Plataforma de uma geração”) .
Diz o poeta: “Em verdade temos medo. Nascemos escuro.” Insiste: “Fomos educados para o medo,/ Cheiramos flores de medo,/ De medo, vermelhos rios/ Vadeamos.” Em outro texto assevera: “O medo, com sua capa,/ Nos dissimula, nos berça.” E acrescenta: “Fiquei com medo de ti/ Meu companheiro moreno”.
Em ‘ tempo de divisas, de gente cortada, de muletas, de mortos faladores e de velhas paralíticas, nostálgicas de bailado, tempo de silêncio, boca gelada e murmúrio’, o poeta enfatiza o drama do desprezo, da repugnância e... do medo. Em Drummond, a noite cai, com sua escura cortina de presságios. E no escuro da casa há sempre uma torneira a gotejar sua lamúria interminável: “A água cai na caixa com uma força, com uma dor./ A casa não dorme, estupefata”.
Num mundo vazio de amor e cheio de corrupção, o poeta identifica o medo como resíduo de todas as coisas cotidianas: “De tudo ficou um pouco./ Do teu medo. Do teu asco.” Em “ Versos à boca da noite”, confessa seus temores diante da efemeridade da vida: “ Sinto que tempo sobre mim abate / Sua mão pesada. Rugas, dentes, calva... / Uma aceitação maior de tudo/ E o medo de novas descobertas”.
A imagem do medo associa-se à do escuro, da noite, da sombra: “É noite, sinto que é noite. / Não porque a sombra descesse/ (Bem me importa a face negra)/ Mas porque dentro de mim, o grito/ Calou-se, fez-se desânimo’.
O medo surge, ainda uma vez, ligado à imagem da sombra: “De repente, não sei como, / fiquei triste sem querer, / Uma sombra veio vindo, / Veio vindo, me abraçou”.
Em “Anoitecer”, Drummond se vale da imagem crepuscular, ao fim de mais um dia de caos na cidade imensa, e coloca esta questão com uma beleza pungente:
Anoitecer
É a hora em que o sino toca,
Mas aqui não há sinos;
Há somente buzinas,
Sirenes roucas, apitos
Aflitos, pungentes, trágicos,
Uivando escuro segredo;
Desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
Mas de há muito não há pássaros;
Só multidões compactas,
Escorrendo exaustas
Como espesso óleo
Que impregna o lajedo;
Desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
Mas o descanso vem tarde,
O corpo não pede sono,
Depois de tanto rodar;
Pede paz – morte – mergulho
No poço mais ermo e quedo;
Desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
Gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos
Bicando em mim, meu passado,
Meu futuro, meu degredo;
Desta hora, sim, tenho medo.
Todo o poema se desenvolve num clima de entre lusco e fusco, no momento indefinido em que o sol se vai e as sombras envolvem a cidade e seus habitantes. O conjunto, construído sob intenso rigor de forma, é arquitetônico, prodígio de simetria e correspondência entre as suas partes componentes.
Composto em quatro estrofes de sete versos cada, os três primeiros blocos são construídos sobre um mesmo molde e temática, com signos diversos. Ao primeiro verso (È a hora em que o sino toca), correspondem, com precisão matemática, o segundo ( É a hora em que o pássaro volta) e o terceiro (È a hora do descanso). Ao sino (que toca), corresponde o pássaro (que volta) e o descanso (que vem tarde). Se cada primeiro verso dos blocos tem uma afirmativa (É a hora), cada segundo verso respectivo contém uma negativa àquela afirmação (Mas aqui não há sinos...Mas de há muito não há pássaros...Mas o descanso (não vem cedo) vem tarde.”
Todos os segundos versos dos três primeiros blocos mantém o mesmo esquema e fazem as mesmas negações, usando signos poéticos diversos, embora análogos: sinos, pássaros, descanso. Após a negação contida nos segundos versos, surge a revelação dolorosa da realidade: “Há somente buzinas”, “Só multidões compactas” e “ O corpo que ‘não pede sono”. Essas realidades enumeradas, buzinas, multidões, corpo, são também conexas: as buzinas são aflitas, as multidões são compactas, e o corpo é tão cansado que não pede sono, porém paz e morte, vontade de auto-aniquilamento.
As buzinas dos automóveis gritam estridentes, as sirenes roucas das ambulâncias e patrulhas policiais abrem caminho em demanda de hospitais e complexos penitenciários, os ‘apitos aflitos’ dos policiais tentam ordenar o caos urbano. As pessoas, solitárias, embora parte componente das “multidões compactas, exaustas”, coisificam-se, liquefazem-se a ponto de escorrerem ‘como espesso óleo’. O corpo exaurido não consegue dormir em razão da própria exaustão, e pede um sono mais profundo, o sono da ‘morte’, a finitude como redenção e libertação de tanto sofrimento inútil. Há correspondência também entre os sentimentos expressos pelos adjetivos ‘aflitos’, ‘exaustos’ e ‘cansados’.
Na terceira estrofe, as buzinas, as sirenes, as multidões, corporificam-se, afinal, na figura do individuo fragmentado e reduzido à condição de matéria. Mero corpo, pois homem de quem se arrancou a alma, a consciência, a dignidade. Esse corpo, por sua vez, reduzido ao estado de máquina, se limita a girar mediante seus automatismos. E tal corpo, ‘depois de tanto rodar’ pelos labirintos da cidade, pede a morte que o liberte da tensão inesgotável.
O sino, o pássaro, o descanso, têm significados análogos: são metáforas de uma espiritualidade perdida. A voz do sino anuncia o mundo transcendente da Cristandade, convoca ao recolhimento e à comunhão com Deus. O pássaro surge como símbolo de leveza e sublimidade, libertação do peso e densidade da matéria. E o descanso é o necessário e revigorador intervalo entre os períodos dinâmicos de uma atividade massacrante que desumaniza o próprio homem. Só que o sino, o pássaro, e o descanso... não existem.
Há dinamismo no interior do poema, simbolizado pelas multidões desarvoradas que, em movimento de massa, ‘escorrem’, caudalosas, nas calçadas e nos leitos carroçáveis das avenidas. Há frêmito no grito das buzinas impacientes, nos apitos aflitos dos guardas de transito, no corpo que ‘roda e roda’, autômato. Uma particularidade de “Anoitecer” é a presença da rima nos dois últimos versos de cada estrofe. Visa o poeta, com a identidade de sons, enfatizar, no espírito do leitor, o núcleo do poema, a palavra ’medo’.
Este modelo de reiteração do tema, através das várias estrofes e dos signos análogos tem a finalidade de fortalecer a idéia da alienação, da exclusão, da rejeição ao individuo, no interior do poema. A repetição, em Drummond, tem, por si mesma, uma violenta carga emotiva e prepara o desfecho do poema: o anoitecer, a hora da paz, da ave-maria, do ângelus, momento de ‘gasalho, sombra e silêncio’, existiria ainda no mundo pós-moderno de perplexidades e individualismo exacerbado? Não, diz o poeta, não há mais a hora da paz. O ambiente hostil da Selva de Pedras não permite a existência lírica dos pássaros. Antes existe a hora dos corvos, das aves de rapina, dos predadores, o Corvo de Poe a gritar ameaçador ‘never more’, o corvo que se põe a bicar o passado, o futuro, e o degredo, isto é , o próprio fim do indivíduo. Daí, o desânimo: “Desta hora, sim, tenho medo”.
Sob o aspecto fônico, o poema saiu vitorioso. Discretamente, o autor lançou mão de insuspeitados recursos de arte poética, tornou os versos fluentes e de perfeita dicção. Estes se encaixam em suas flexões ascendentes e descendentes de voz através dos quais os recursos semânticos viajam sem nenhum abalroamento da sonoridade. As rimas internas são produzidas por uma arte requintada. Para se ter uma idéia, o poeta explora a identidade fônica entre a expressão ‘aqui não’ e a palavra ‘buzina’. No interior das estrofes, ele recorre às assonâncias, aliterações, homoteleutos, toantes, etc. Como se enganam os autores de prosas rimadas, ao suporem que o verso é livre e não produto de uma arte submetida a leis rigorosas.
O sarcasmo, marca registrada do nosso poeta, não encontra lugar neste poema. Drummond que, freqüentemente, ao longo de sua produção poética, cultiva a irreverência, ironiza o semelhante, guarda distância e se põe numa linha de indiferença, a contemplar o espetáculo do mundo, neste poema, partilha o sofrimento de todos nós. E os versos são lançados em tom de lamento, com a nota cortante da melancolia e comiseração.
Em Drummond, o medo surge no vácuo deixado pela ausência do amor, num universo em que o homem é uma ilha de solidão num mar de indiferenças, para não dizer de hostilidades: “Refugiamo-nos no amor,/ Este célebre sentimento/ E o amor faltou: chovia,/ Ventava, fazia frio...”. O amor não encontra ambiente propício ao seu desenvolvimento: chove, venta e faz frio. Tais intempéries, a chuva, o vento, o frio, simbolizam a indiferença mútua entre os indivíduos, a frieza das emoções, a incapacidade neurótica de oferecer e receber afeto.
Diante de tal quadro, o poeta reafirma o desamparo humano em sua errância diária e, ao concluir seu discurso, reforça a afirmação inicial, ao se valer do aposto (“sim”), no interior do derradeiro verso: “desta hora, sim, tenho medo.” Sem nenhuma obscuridade de expressão, “Anoitecer” congrega em si o drama do homem contemporâneo. Poema enxuto, de vocábulos concretos como um artefato feito de palavras necessárias, exatas e imprescindíveis, reflete a desagregação das coisas e dos homens,
Em tempo de caos e perversidades, Drummond medita a condição humana com extraordinária perspicácia e nos apresenta o retrato interior do homem atual, solitário, abandonado, movido pelo temor, encurralado pela angústia. O medo tornou-se o elemento dissolvente do mundo, onde o homem se acha vulnerável à fúria dos predadores, simbolizados aqui pelas aves de rapina, (os corvos), que se divertem a lacerar, com suas garras e bicos recurvos, a carne em agonia.
Carlos Roberto Santos Araújo
Poeta, autor de A Nave Submersa.
domingo, 17 de janeiro de 2010
A casa dividida.
"A house divided against itself cannot stand" Abraham Lincoln.
O grande problema da Magistratura baiana é o da desvalorização do magistrado. Oferecem-lhe todo o aparato cibernético moderno, mas não lhe viabilizam recursos humanos, não lhe dão bons funcionários. E sobretudo não o valorizam: tratam-no com desdém. Se o Tribunal de Justiça passsasse a valorizá-lo, a protegê-lo da animosidade dos seus "antagonistas naturais", ele elevaria sua auto-estima e seu desempenho melhoraria. No entanto, o juiz baiano anda muito deprimido, humilhado, ofendido: é hostilizado pelos próprios auxiliares, os serventuários que militam em sua vara; pelo Ministério Público; pelos advogados; pelo seu Tribunal; pela Mídia, que dissemina tais sentimentos negativos perante a sociedade e forma a opinião do cidadão comum, que, por sua vez, aceita docilmente quaisquer imposturas e lhe atribui todas as culpas pelas falhas da Justiça. Numa situação dessa ele se acha diminuído, perde intreresse pelo trabalho, sente-se o fantasma de uma Ópera de Três Vinténs, um espectro de olhar vazio no reino das sombras, um general sem soldados, o capitão de um barco bêbado, o comandante de um navio sem leme (stultifera navis).
Alguma coisa há que ser feita, neste particular, pelo Tribunal de Justiça da Bahia, porque o juiz é a pedra-de-toque do Poder Judiciário, a chave do sistema. Os serventuários são coadjuvantes necessários, mas o juiz é a espinha dorsal da instituição: a eles cumpre dizer o Direito. Muitas vezes, as querelas dos serventuários contra juízes têm apenas sabor de indisciplina, para não dizer de desrespeito. Deveriam ser repelidas, arquivadas, e ponto final. O Tribunal poderia compreender o estado de tensão extrema que o magistrado baiano vive atualmente, pressionado pelo CNJ, que lhe impõe severas metas, inalcançáveis face à defasagem secular dos serviços judiciários.
Aliás, como cumprir tais exigências? O juiz, em geral, chega a Salvador, encontra um cartório caótico, desorganizado, com milhares de processos em andamento, e poucos serventuários, que, em parte, são despreparados, indisciplinados. Se lhes cobra um pouco mais de esforço, unem-se e lhe fazem oposição. Isto quando não representam contra ele, por qualquer ninharia. O Tribunal, por sua vez, quer ficar em bons termos com eles, que são maioria e têm sindicato atuante com trânsito fácil na imprensa. E instaura, por qualquer dá cá aquela palha, processo contra o juiz que, por incrível que pareça, é a parte mais frágil do sistema, porque solitário, isolado, sem apoio do seu órgão de classe, e cercado de ‘opositores’. Nestes atritos com serventuários, o juiz não deveria ser punido por motivos de somenos. Não! Sequer responder a processo. Do contrário, os demais magistrados se inibirão, e, temerosos da própria sombra, até mesmo dos seus auxiliares, deixarão o cartório à deriva. Afinal, depois de Kafka, ninguém quer responder a processo, que, muitas vezes, é mais doloroso que a própria pena: sofre-se por antecipação.
O magistrado anda insatisfeito porque suas condições de trabalho são insatisfatórias, sobretudo porque não tem funcionários dedicados. O Tribunal tem feito esforço na aquisição de equipamentos. Isto é bom, mas não basta, porque não há bons funcionários que os operem. Os juízes estão dispostos a trabalhar, querem produzir resultados, porque disto depende seu bom nome, sua relação com o Tribunal, sua ascensão profissional, sua reputação. Os serventuários, todavia, não se importam com tais coisas, não se preocupam com resultados, limitam-se a cumprir os horários. E olhe lá, que ninguém é de ferro.
O drama da produtividade é problema do juiz que, em última análise, é o responsável pelo desempenho de sua vara. Os serventuários, todavia, raciocinam como meros burocratas. Isso quando trabalham regularmente, cumprindo os horários. De feito, parte deles sequer cumpre a jornada de trabalho. Usam e abusam de todos expedientes possíveis e imagináveis para o não fazer, que vão da licença médica aos atestados graciosos, das saídas irregulares para atender a compromissos particulares no horário de trabalho às faltas puras e simples, sem nenhuma justificativa. Tudo isto, sem contar a baixíssima produtividade, pois, mesmo cumprindo regularmente a jornada, têm baixo rendimento: o escrevente capaz de redigir trinta mandados de citação por dia, limita-se a cinco.
Ora, como pode o juiz trabalhar contente deste modo, quando seus próprios auxiliares o frustram? Afinal, seu papel é cobrar, dos serventuários, honestidade, urbanidade, probidade, eficiência, assiduidade, produtividade. Do contrário, seu trabalho estará fadado ao insucesso, e ele, ao fim e ao cabo, será sempre o vilão da história, o culpado pelas mazelas da Justiça. E ai virão o advogado, o promotor, o jornalista, acoimá-lo de preguiçoso, improdutivo.
Diante destas dificuldades, muitos juízes se deprimem, e, desgastados, desvalorizados, perdem, eles próprios, o auto-respeito, têm-se em baixa conta, se anulam. Isto quando não se tornam subalternos, subservientes. Uma tristeza. O juiz precisa começar a lutar mais por si mesmo, pelas suas prerrogativas, se valorizar mais, não fazer favores, não atender a solicitações, precisa aprender a dizer não, sem medo de pressões. O Tribunal precisa também ajudá-lo, valorizá-lo, sobretudo quando ele estiver com dificuldades em seu cartório, remover dali o funcionário que não se adapte ao seu ritmo de trabalho, repelir representações graciosas, por ninharias, mandando-as simplesmente ao arquivo. Em suma, sinalizando ao serventuário que o juiz merece consideração. Só assim este cartório renderá mais do ponto de vista da produtividade.
A quem aproveita o juiz enfraquecido, desmoralizado? À Justiça não: ele é a chave do sistema judiciário, o gestor da sua unidade produtiva. Ele é o chefe, o gerente da sua vara ou da sua comarca. Se perder a autoridade, a indisciplina grassará em seu cartório, a anarquia correrá solta, os serventuários, sem peias, negligenciarão o trabalho, a casa estará dividida, a corrupção, como erva daninha, proliferará, e adeus produtividade. Este não é o Judiciário dos nossos sonhos. Queremos uma Justiça produtiva. Para isso precisamos de juízes fortes, para, com esta força, crescerem em confiança e orgulho de sua função, e, em conseqüência, se tornarem produtivos. E à medida que produzam mais, reconquistarem o respeito dos demais operadores do direito, e da sociedade inteira. Só assim as metas serão alcançadas.
Carlos Roberto Santos Araujo
"A house divided against itself cannot stand" Abraham Lincoln.
O grande problema da Magistratura baiana é o da desvalorização do magistrado. Oferecem-lhe todo o aparato cibernético moderno, mas não lhe viabilizam recursos humanos, não lhe dão bons funcionários. E sobretudo não o valorizam: tratam-no com desdém. Se o Tribunal de Justiça passsasse a valorizá-lo, a protegê-lo da animosidade dos seus "antagonistas naturais", ele elevaria sua auto-estima e seu desempenho melhoraria. No entanto, o juiz baiano anda muito deprimido, humilhado, ofendido: é hostilizado pelos próprios auxiliares, os serventuários que militam em sua vara; pelo Ministério Público; pelos advogados; pelo seu Tribunal; pela Mídia, que dissemina tais sentimentos negativos perante a sociedade e forma a opinião do cidadão comum, que, por sua vez, aceita docilmente quaisquer imposturas e lhe atribui todas as culpas pelas falhas da Justiça. Numa situação dessa ele se acha diminuído, perde intreresse pelo trabalho, sente-se o fantasma de uma Ópera de Três Vinténs, um espectro de olhar vazio no reino das sombras, um general sem soldados, o capitão de um barco bêbado, o comandante de um navio sem leme (stultifera navis).
Alguma coisa há que ser feita, neste particular, pelo Tribunal de Justiça da Bahia, porque o juiz é a pedra-de-toque do Poder Judiciário, a chave do sistema. Os serventuários são coadjuvantes necessários, mas o juiz é a espinha dorsal da instituição: a eles cumpre dizer o Direito. Muitas vezes, as querelas dos serventuários contra juízes têm apenas sabor de indisciplina, para não dizer de desrespeito. Deveriam ser repelidas, arquivadas, e ponto final. O Tribunal poderia compreender o estado de tensão extrema que o magistrado baiano vive atualmente, pressionado pelo CNJ, que lhe impõe severas metas, inalcançáveis face à defasagem secular dos serviços judiciários.
Aliás, como cumprir tais exigências? O juiz, em geral, chega a Salvador, encontra um cartório caótico, desorganizado, com milhares de processos em andamento, e poucos serventuários, que, em parte, são despreparados, indisciplinados. Se lhes cobra um pouco mais de esforço, unem-se e lhe fazem oposição. Isto quando não representam contra ele, por qualquer ninharia. O Tribunal, por sua vez, quer ficar em bons termos com eles, que são maioria e têm sindicato atuante com trânsito fácil na imprensa. E instaura, por qualquer dá cá aquela palha, processo contra o juiz que, por incrível que pareça, é a parte mais frágil do sistema, porque solitário, isolado, sem apoio do seu órgão de classe, e cercado de ‘opositores’. Nestes atritos com serventuários, o juiz não deveria ser punido por motivos de somenos. Não! Sequer responder a processo. Do contrário, os demais magistrados se inibirão, e, temerosos da própria sombra, até mesmo dos seus auxiliares, deixarão o cartório à deriva. Afinal, depois de Kafka, ninguém quer responder a processo, que, muitas vezes, é mais doloroso que a própria pena: sofre-se por antecipação.
O magistrado anda insatisfeito porque suas condições de trabalho são insatisfatórias, sobretudo porque não tem funcionários dedicados. O Tribunal tem feito esforço na aquisição de equipamentos. Isto é bom, mas não basta, porque não há bons funcionários que os operem. Os juízes estão dispostos a trabalhar, querem produzir resultados, porque disto depende seu bom nome, sua relação com o Tribunal, sua ascensão profissional, sua reputação. Os serventuários, todavia, não se importam com tais coisas, não se preocupam com resultados, limitam-se a cumprir os horários. E olhe lá, que ninguém é de ferro.
O drama da produtividade é problema do juiz que, em última análise, é o responsável pelo desempenho de sua vara. Os serventuários, todavia, raciocinam como meros burocratas. Isso quando trabalham regularmente, cumprindo os horários. De feito, parte deles sequer cumpre a jornada de trabalho. Usam e abusam de todos expedientes possíveis e imagináveis para o não fazer, que vão da licença médica aos atestados graciosos, das saídas irregulares para atender a compromissos particulares no horário de trabalho às faltas puras e simples, sem nenhuma justificativa. Tudo isto, sem contar a baixíssima produtividade, pois, mesmo cumprindo regularmente a jornada, têm baixo rendimento: o escrevente capaz de redigir trinta mandados de citação por dia, limita-se a cinco.
Ora, como pode o juiz trabalhar contente deste modo, quando seus próprios auxiliares o frustram? Afinal, seu papel é cobrar, dos serventuários, honestidade, urbanidade, probidade, eficiência, assiduidade, produtividade. Do contrário, seu trabalho estará fadado ao insucesso, e ele, ao fim e ao cabo, será sempre o vilão da história, o culpado pelas mazelas da Justiça. E ai virão o advogado, o promotor, o jornalista, acoimá-lo de preguiçoso, improdutivo.
Diante destas dificuldades, muitos juízes se deprimem, e, desgastados, desvalorizados, perdem, eles próprios, o auto-respeito, têm-se em baixa conta, se anulam. Isto quando não se tornam subalternos, subservientes. Uma tristeza. O juiz precisa começar a lutar mais por si mesmo, pelas suas prerrogativas, se valorizar mais, não fazer favores, não atender a solicitações, precisa aprender a dizer não, sem medo de pressões. O Tribunal precisa também ajudá-lo, valorizá-lo, sobretudo quando ele estiver com dificuldades em seu cartório, remover dali o funcionário que não se adapte ao seu ritmo de trabalho, repelir representações graciosas, por ninharias, mandando-as simplesmente ao arquivo. Em suma, sinalizando ao serventuário que o juiz merece consideração. Só assim este cartório renderá mais do ponto de vista da produtividade.
A quem aproveita o juiz enfraquecido, desmoralizado? À Justiça não: ele é a chave do sistema judiciário, o gestor da sua unidade produtiva. Ele é o chefe, o gerente da sua vara ou da sua comarca. Se perder a autoridade, a indisciplina grassará em seu cartório, a anarquia correrá solta, os serventuários, sem peias, negligenciarão o trabalho, a casa estará dividida, a corrupção, como erva daninha, proliferará, e adeus produtividade. Este não é o Judiciário dos nossos sonhos. Queremos uma Justiça produtiva. Para isso precisamos de juízes fortes, para, com esta força, crescerem em confiança e orgulho de sua função, e, em conseqüência, se tornarem produtivos. E à medida que produzam mais, reconquistarem o respeito dos demais operadores do direito, e da sociedade inteira. Só assim as metas serão alcançadas.
Carlos Roberto Santos Araujo
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