domingo, 31 de janeiro de 2010

Anoitecer

Em um dos seus mais belos poemas, “Anoitecer”, Carlos Drummond de Andrade coloca o problema do medo. Este, aliás, é tema presente em toda a sua obra. As palavras de um célebre critico literário servem de epígrafe a outro dos seus poemas, cujo titulo é nada mais nada menos que “O Medo”: “Porque há para todos nós um problema sério. Este problema é o medo.(Antonio Cândido, em Plataforma de uma geração”) .

Diz o poeta: “Em verdade temos medo. Nascemos escuro.” Insiste: “Fomos educados para o medo,/ Cheiramos flores de medo,/ De medo, vermelhos rios/ Vadeamos.” Em outro texto assevera: “O medo, com sua capa,/ Nos dissimula, nos berça.” E acrescenta: “Fiquei com medo de ti/ Meu companheiro moreno”.

Em ‘ tempo de divisas, de gente cortada, de muletas, de mortos faladores e de velhas paralíticas, nostálgicas de bailado, tempo de silêncio, boca gelada e murmúrio’, o poeta enfatiza o drama do desprezo, da repugnância e... do medo. Em Drummond, a noite cai, com sua escura cortina de presságios. E no escuro da casa há sempre uma torneira a gotejar sua lamúria interminável: “A água cai na caixa com uma força, com uma dor./ A casa não dorme, estupefata”.

Num mundo vazio de amor e cheio de corrupção, o poeta identifica o medo como resíduo de todas as coisas cotidianas: “De tudo ficou um pouco./ Do teu medo. Do teu asco.” Em “ Versos à boca da noite”, confessa seus temores diante da efemeridade da vida: “ Sinto que tempo sobre mim abate / Sua mão pesada. Rugas, dentes, calva... / Uma aceitação maior de tudo/ E o medo de novas descobertas”.

A imagem do medo associa-se à do escuro, da noite, da sombra: “É noite, sinto que é noite. / Não porque a sombra descesse/ (Bem me importa a face negra)/ Mas porque dentro de mim, o grito/ Calou-se, fez-se desânimo’.

O medo surge, ainda uma vez, ligado à imagem da sombra: “De repente, não sei como, / fiquei triste sem querer, / Uma sombra veio vindo, / Veio vindo, me abraçou”.

Em “Anoitecer”, Drummond se vale da imagem crepuscular, ao fim de mais um dia de caos na cidade imensa, e coloca esta questão com uma beleza pungente:

Anoitecer


É a hora em que o sino toca,
Mas aqui não há sinos;
Há somente buzinas,
Sirenes roucas, apitos
Aflitos, pungentes, trágicos,
Uivando escuro segredo;
Desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,
Mas de há muito não há pássaros;
Só multidões compactas,
Escorrendo exaustas
Como espesso óleo
Que impregna o lajedo;
Desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
Mas o descanso vem tarde,
O corpo não pede sono,
Depois de tanto rodar;
Pede paz – morte – mergulho
No poço mais ermo e quedo;
Desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
Gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos
Bicando em mim, meu passado,
Meu futuro, meu degredo;
Desta hora, sim, tenho medo.

Todo o poema se desenvolve num clima de entre lusco e fusco, no momento indefinido em que o sol se vai e as sombras envolvem a cidade e seus habitantes. O conjunto, construído sob intenso rigor de forma, é arquitetônico, prodígio de simetria e correspondência entre as suas partes componentes.

Composto em quatro estrofes de sete versos cada, os três primeiros blocos são construídos sobre um mesmo molde e temática, com signos diversos. Ao primeiro verso (È a hora em que o sino toca), correspondem, com precisão matemática, o segundo ( É a hora em que o pássaro volta) e o terceiro (È a hora do descanso). Ao sino (que toca), corresponde o pássaro (que volta) e o descanso (que vem tarde). Se cada primeiro verso dos blocos tem uma afirmativa (É a hora), cada segundo verso respectivo contém uma negativa àquela afirmação (Mas aqui não há sinos...Mas de há muito não há pássaros...Mas o descanso (não vem cedo) vem tarde.”

Todos os segundos versos dos três primeiros blocos mantém o mesmo esquema e fazem as mesmas negações, usando signos poéticos diversos, embora análogos: sinos, pássaros, descanso. Após a negação contida nos segundos versos, surge a revelação dolorosa da realidade: “Há somente buzinas”, “Só multidões compactas” e “ O corpo que ‘não pede sono”. Essas realidades enumeradas, buzinas, multidões, corpo, são também conexas: as buzinas são aflitas, as multidões são compactas, e o corpo é tão cansado que não pede sono, porém paz e morte, vontade de auto-aniquilamento.

As buzinas dos automóveis gritam estridentes, as sirenes roucas das ambulâncias e patrulhas policiais abrem caminho em demanda de hospitais e complexos penitenciários, os ‘apitos aflitos’ dos policiais tentam ordenar o caos urbano. As pessoas, solitárias, embora parte componente das “multidões compactas, exaustas”, coisificam-se, liquefazem-se a ponto de escorrerem ‘como espesso óleo’. O corpo exaurido não consegue dormir em razão da própria exaustão, e pede um sono mais profundo, o sono da ‘morte’, a finitude como redenção e libertação de tanto sofrimento inútil. Há correspondência também entre os sentimentos expressos pelos adjetivos ‘aflitos’, ‘exaustos’ e ‘cansados’.

Na terceira estrofe, as buzinas, as sirenes, as multidões, corporificam-se, afinal, na figura do individuo fragmentado e reduzido à condição de matéria. Mero corpo, pois homem de quem se arrancou a alma, a consciência, a dignidade. Esse corpo, por sua vez, reduzido ao estado de máquina, se limita a girar mediante seus automatismos. E tal corpo, ‘depois de tanto rodar’ pelos labirintos da cidade, pede a morte que o liberte da tensão inesgotável.

O sino, o pássaro, o descanso, têm significados análogos: são metáforas de uma espiritualidade perdida. A voz do sino anuncia o mundo transcendente da Cristandade, convoca ao recolhimento e à comunhão com Deus. O pássaro surge como símbolo de leveza e sublimidade, libertação do peso e densidade da matéria. E o descanso é o necessário e revigorador intervalo entre os períodos dinâmicos de uma atividade massacrante que desumaniza o próprio homem. Só que o sino, o pássaro, e o descanso... não existem.

Há dinamismo no interior do poema, simbolizado pelas multidões desarvoradas que, em movimento de massa, ‘escorrem’, caudalosas, nas calçadas e nos leitos carroçáveis das avenidas. Há frêmito no grito das buzinas impacientes, nos apitos aflitos dos guardas de transito, no corpo que ‘roda e roda’, autômato. Uma particularidade de “Anoitecer” é a presença da rima nos dois últimos versos de cada estrofe. Visa o poeta, com a identidade de sons, enfatizar, no espírito do leitor, o núcleo do poema, a palavra ’medo’.

Este modelo de reiteração do tema, através das várias estrofes e dos signos análogos tem a finalidade de fortalecer a idéia da alienação, da exclusão, da rejeição ao individuo, no interior do poema. A repetição, em Drummond, tem, por si mesma, uma violenta carga emotiva e prepara o desfecho do poema: o anoitecer, a hora da paz, da ave-maria, do ângelus, momento de ‘gasalho, sombra e silêncio’, existiria ainda no mundo pós-moderno de perplexidades e individualismo exacerbado? Não, diz o poeta, não há mais a hora da paz. O ambiente hostil da Selva de Pedras não permite a existência lírica dos pássaros. Antes existe a hora dos corvos, das aves de rapina, dos predadores, o Corvo de Poe a gritar ameaçador ‘never more’, o corvo que se põe a bicar o passado, o futuro, e o degredo, isto é , o próprio fim do indivíduo. Daí, o desânimo: “Desta hora, sim, tenho medo”.

Sob o aspecto fônico, o poema saiu vitorioso. Discretamente, o autor lançou mão de insuspeitados recursos de arte poética, tornou os versos fluentes e de perfeita dicção. Estes se encaixam em suas flexões ascendentes e descendentes de voz através dos quais os recursos semânticos viajam sem nenhum abalroamento da sonoridade. As rimas internas são produzidas por uma arte requintada. Para se ter uma idéia, o poeta explora a identidade fônica entre a expressão ‘aqui não’ e a palavra ‘buzina’. No interior das estrofes, ele recorre às assonâncias, aliterações, homoteleutos, toantes, etc. Como se enganam os autores de prosas rimadas, ao suporem que o verso é livre e não produto de uma arte submetida a leis rigorosas.

O sarcasmo, marca registrada do nosso poeta, não encontra lugar neste poema. Drummond que, freqüentemente, ao longo de sua produção poética, cultiva a irreverência, ironiza o semelhante, guarda distância e se põe numa linha de indiferença, a contemplar o espetáculo do mundo, neste poema, partilha o sofrimento de todos nós. E os versos são lançados em tom de lamento, com a nota cortante da melancolia e comiseração.

Em Drummond, o medo surge no vácuo deixado pela ausência do amor, num universo em que o homem é uma ilha de solidão num mar de indiferenças, para não dizer de hostilidades: “Refugiamo-nos no amor,/ Este célebre sentimento/ E o amor faltou: chovia,/ Ventava, fazia frio...”. O amor não encontra ambiente propício ao seu desenvolvimento: chove, venta e faz frio. Tais intempéries, a chuva, o vento, o frio, simbolizam a indiferença mútua entre os indivíduos, a frieza das emoções, a incapacidade neurótica de oferecer e receber afeto.

Diante de tal quadro, o poeta reafirma o desamparo humano em sua errância diária e, ao concluir seu discurso, reforça a afirmação inicial, ao se valer do aposto (“sim”), no interior do derradeiro verso: “desta hora, sim, tenho medo.” Sem nenhuma obscuridade de expressão, “Anoitecer” congrega em si o drama do homem contemporâneo. Poema enxuto, de vocábulos concretos como um artefato feito de palavras necessárias, exatas e imprescindíveis, reflete a desagregação das coisas e dos homens,

Em tempo de caos e perversidades, Drummond medita a condição humana com extraordinária perspicácia e nos apresenta o retrato interior do homem atual, solitário, abandonado, movido pelo temor, encurralado pela angústia. O medo tornou-se o elemento dissolvente do mundo, onde o homem se acha vulnerável à fúria dos predadores, simbolizados aqui pelas aves de rapina, (os corvos), que se divertem a lacerar, com suas garras e bicos recurvos, a carne em agonia.
































Carlos Roberto Santos Araújo
Poeta, autor de A Nave Submersa.

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