domingo, 31 de janeiro de 2010

Aos poucos, o poeta REF vem produzindo uma obra poética marcada pelo signo do conflito. À memória da infância ele acrescenta as rupturas da maturidade; à reflexão adulta adiciona a atmosfera do mistério; ao pensamento lúcido junta visões oníricas. A dimensão dramática emerge da maioria dos seus versos, mesmos os mais líricos. Tal conflito não se revela de súbito. Há que rastreá-lo com os instrumentos da compreensão crítica e decifrar seus enigmas, somando as partes, para formar a visão de conjunto capaz de desvendar o poema e rasgar os véus que escondem sua face. Em alguns casos, seus poemas têm feição hermética, noutros, seus elementos constitutivos, embora transparentes, parecem aleatórios e sem conexão mútua. Tal desconexão é ilusória: por trás das imagens imediatas escondem-se os laços integradores das partes aparentemente alheias umas nas outras, para que se forme a visão do todo e o poema revele sua beleza. Neste particular, um dos poemas mais significativos de REF, escrito há mais de trinta anos e incluído em seu livro de estréia, intitula-se “Os objetos”.

“Os objetos

Os objetos
Permanecem claros.

Habita a moldura
Uma mulher de faces
Cor-de-rosa.

Sobre a mesa de mármore
Um cavaleiro de porcelana
Saúda as visita.

A caneta ainda escreve
Com a mesma tinta
De um azul levemente melancólico.

Na gaveta, dormindo
Sob cartas e poemas,
O revólver aguarda.”

Nos dois primeiros versos o poeta chama a atenção para a clareza das coisas: “Os objetos permanecem claros”. Neste caso, a clareza não é referência às cores dos objetos, porém à sua inequivocidade. Diferentemente dos homens, confusos e obscuros, os objetos são inequívocos e exatos, com um poder de comunicação que transcende a esfera evasiva e cheia de subterfúgios dos homens. Os objetos eloqüentes a que o poeta se refere são aqueles que compõem o seu cotidiano doméstico: a moldura, a fotografia, o biscuit, a mesa de mármore, a caneta, os poemas, as cartas e o revólver. Nesta ordem. Articulando, uns aos outros, estes elementos desconexos e não relacionados, o poeta constrói sua mensagem. Os objetos que povoam o poema devem, portanto, ser claros e inequívocos, pois têm algo a dizer; porque, através de suas inter-relações, o poeta pretende mostrar o seu conflito interior. Aliás, um conflito amoroso, mágoa de paixão contrariada.
Na segunda estrofe surge o elemento deflagrador do conflito: a mulher. Como sempre. No caso, a amada ausente, presente apenas em fotografia. Seu retrato na moldura nos dá a pista do amor perdido, a atormentar o espírito do poeta. A moça que, presume-se, habitava a casa do amante, partiu e deixou somente sua imagem fotográfica. Somente sua imagem agora ‘habita’ a moldura.
A solidão do poeta se revela. A mulher na moldura, provavelmente jovem e bela, pois tem ‘ faces cor-de-rosa’, o abandonou inapelavelmente, deixou a habitação real e passou a ‘habitar’ metaforicamente a moldura e a memória do amante.
Na terceira estrofe, outro objeto, um enfeite, se manifesta: ‘sobre a mesa de mármore/ um cavaleiro de porcelana/ saúda as visitas’. O poeta, infeliz e desamparado, fecha-se em copas, emudece, perde a vontade de se comunicar com as pessoas, a ponto de a pequena estátua, o cavaleiro de porcelana, ter de lhe assumir o papel social e ‘saudar’ as visitas.
Aborrecido, o poeta se limita a escrever cartas e poemas. Cartas à amante, provavelmente buscando reconciliação; poemas de amor à musa de faces coradas, almejando sublimar a angústia de havê-la perdido. Ele sente-se ausente, ao escrever, pois seus pensamentos e obsessões se voltam para a amada. Assim como o cavaleiro de porcelana ‘saúda’ as visitas, a própria caneta, de maneira autônoma e mecânica, “escreve’ em lugar do poeta. ‘A caneta ainda escreve.’ Observe-se as restrições do advérbio “ainda”, revelador de precariedade e cansaço existencial, demonstrativo de que a caneta escreve para apenas suprir a inércia do poeta que, parece, desistiu de toda comunicação.
A tinta com que a caneta escreve é de “um azul levemente melancólico”. Também Brás Cubas, personagem machadiano, ao se achar solitário com a perda da amante, passa a escrever suas memórias “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Se, no poema em análise, a caneta evita a auto-ironia, nem por isso abre mão da tristeza. É que no caso de Brás Cubas, a tinta devia ser preta, cor indicativa de luto, enquanto no poema em apreço ela é azul e portadora de uma ‘leve’ melancolia.
Na quarta estrofe, outros objetos expressam os sentimentos do poeta; uma gaveta, quiçá da mesa sobre cujo tampo de mármore o cavaleiro de porcelana saúda as visitas que vieram importunar ou consolar o poeta, jazem as cartas e poemas que este, ou melhor, sua caneta escreveu. E, last, not least, debaixo destes escritos se dissimula o objeto mais inquietante e ameaçador: o revólver do poeta: “Na gaveta, dormindo/ sob cartas e poemas, / o revólver aguarda”.Observe-se que tais objetos, as cartas, os poemas, se acham guardados, talvez escondidos na gaveta indevassável aos olhos dos circunstantes. Debaixo das cartas e poemas, haurindo-lhes o sofrimento, dissimulado como um predador, o revólver, dormindo, ou melhor, fingindo dormir, “aguarda”.
O revólver aguarda, afirma o poeta. Como o verbo ‘aguardar’ é transitivo direto, ficamos a imaginar que coisa o revólver aguarda, qual o objeto da sua espera. E concluímos pelo mais lógico, pois todos os elementos da tragédia estão reunidos: a fotografia da mulher ausente, as cartas, os poemas e... o revólver. Este, escondido dentro da gaveta, debaixo das cartas e poemas, mas presente na mente do poeta, com sua carga de violência e chumbo, palpitante como um taxímetro à espera do passageiro retardatário, este revólver “aguarda” a solução do problema do poeta através do retorno da mulher amada que atenderá ao apelo das cartas, ou mediante o alívio da dor pela sublimação proporcionada pela poesia. Caso não haja o retorno da mulher nem a sublimação da angustia, aí sim, o revólver dirá a última palavra, porá fim ao impasse e colocará o próprio poeta na alça da sua mira.
O tema subjacente ao poema é trágico e anuncia uma intenção proibida: o suicídio. Visando burlar a culpa de pensar a própria morte, o poeta, como ventríloquo, usa linguagem indireta e delega aos objetos cotidianos a missão de falar em seu nome. Nesta pequena obra-prima de lírica amorosa, a paixão vive as aporias de sua condição moderna de beco-sem-saída. REF humaniza as coisas que habitam o poema para que elas, cúmplices e amigas, o ajudem a expressar a fúria dos desejos insatisfeitos.

Carlos Roberto Santos Araújo

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