domingo, 31 de janeiro de 2010

Do Castelo de Axel ao Condado de Hécate

O que é a crítica literária? Um monólogo solitário ou um diálogo entre o crítico e a obra? No livro “Do Castelo de Axel ao Condado de Hécate”, ficamos com a segunda alternativa. Nesta série de ensaios, Gérson Pereira dos Santos, conhecido por estudos de Direito Penal, demonstra intimidade com a arte ficcional e traz a lume um excelente conjunto de análises da moderna literatura do século xx. E instaura a comunicação: dialoga não só com as obras objeto do seu estudo, como ainda conosco, seus leitores, e nos introduz no espaço metafórico da criação literária.

Aliás, o próprio título do livro revela o seu propósito de situar a moderna grande ficção. “O Castelo de Axel” e “Memórias do Condado de Hécate” são famosas obras do crítico literário Edmond Wilson. A primeira, publicada em 1931, e dedicada ao estudo dos poetas e romancistas fundamentais da primeira metade do século passado, com interpretações das obras de Proust, Eliot, Valéry, Yeats, Faulkner, Joyce, etc. A segunda, publicada em 1946, é uma coletânea de contos, banida pela justiça americana, por seu conteúdo pornográfico. Ao examinar as idéias lançadas entre um e outro livro, Gérson Pereira constrói o itinerário da sua crítica.

Nosso autor, que em estudos anteriores analisou as obras de Hermann Broch, Vladimir Nabokov, Ismail Kadaré, Dino Buzzati, Thomas Mann, Joseph Conrad, Joyce, agora, nesta publicação, concentra parte considerável do seu esforço na prospecção da obra do escritor americano William Faulkner. Como bem o acentuou, na Introdução do seu livro: “nas noites silenciosas do último inverno, desligados os telefones da vida, escrevi estas páginas. Os autores deixaram seus personagens à solta, e eles de longe me espreitavam como se tencionassem saber se eu, de fato, os esperava”. Os demais ensaios se referem às obras de Edmond Wilson, Lawrence Durrell e Ingeborg Bachmann.

Gérson Pereira dos Santos tem todas as qualidades do bom crítico literário: a inteligência inquieta, a cultura, o domínio da palavra escrita. A erudição e a vasta leitura são indispensáveis. Mas não bastam. É preciso que o crítico, em exercício de intelecção, tenha poder de síntese para, do choque das idéias e observações, construir a visão necessária, veicular a idéia, formar o ponto de vista. É aí onde entra a inteligência. Importante também saiba escrever, não apenas de modo científico e objetivo, mas artisticamente, para viabilizar ao seu leitor não só o benefício da informação, mas também a fruição da contemplação estética como forma de seduzi-lo a permanecer em sua leitura, não fosse a crítica, também ela, obra de arte, de arte literária.

E todas estas qualidades Gérson Pereira dos Santos as têm, e de sobra. Arguto observador, culto, vernacular, ele escreve sob o signo dos grandes estilistas: “Os mundos narrativos aqui apresentados, eu os quis, tanto quanto possível, fiéis. Não pretendia demorar-me em análises tematológicas ou narratológicas, nem, sequer, discorrer sobre eventuais mistérios dos textos. Fiquei atento ao ensinamento de Machado de Assis de que a melhor página não é só a que se relê, é também a que a gente completa de si para si”. Perfeito!

Evidente que análise desta natureza exige fôlego e instrumental de vasta erudição, dada a amplitude e qualidade dos temas e obras. E deles não se ressente Gérson Pereira dos Santos, que, concentrado no objeto de sua análise, incursiona, com ricas digressões, nas obras de outros importantes escritores, faz paralelos e aproximações, exercícios de literatura comparada. Deste modo faz referências sempre pertinentes sobre as obras de Musil, Forster, Buchner, Holderlin, Kavafis e tantos outros cânones.

Seus estudos sobre Faulkner demonstram o esforço do scholar. Afinal, tal obra não é para principiantes. Ao contrário, é prosa difícil, não-linear, tortuosa como a de um possesso a gritar através da linguagem, a fazer uso da técnica de fluxo de consciência, a desnudar os pensamentos mais íntimos dos personagens, até mesmo os mais fragmentários devaneios. E não é só a dificuldade da linguagem.

A temática, também, é complicada, às vezes incompreensível, como nos romances em que conta a história de muitas gerações da família Sartoris. Ou como em “O Som e a Fúria”, de três personagens contraditórios, Benjy, Quentin e Jason, personagens enigmáticos que não contam sua estória de início, mas delegam ao próprio leitor que, lendo, escreverá o texto, o ônus dar unidade a esta confusão.

Pois em todo aquele caos faulkneriano, Gérson Pereira dos Santos tenta colocar um pouco de ordem. Anota sutilezas, filigranas. Paciente, nos apresenta, de modo lúdico, em tom de scherzo, como ele mesmo confessa, aos habitantes do imaginário mundo de Yoknapatawpha.

E vemos Jefferson, a cidade de luzes esmaecidas, estender-se em derredor do condado por divergentes caminhos, “tal como o cubo ao círculo da roda, por seus raios, a exemplo do Senhor do alto de Belém, pairas neste instante acima do teu berço, dos homens e mulheres que te tornaram no que és, dos arquivos, das crônicas de tua terra natal oferecidas a teu exame em mil círculos concêntricos semelhantes aos que encrespam a água viva sob a qual teu passado dorme um sono sem sonhos; reinas, então, inacessível e sereno, acima desse microcosmo de paixões esperanças e desventuras do homem, ambições, terrores, luxúria, coragem, atos de abnegação, piedade, honra, pecados e orgulho, tudo isso de cambulhada, num feixe precário contido pela trama e pela frágil malha férrea da tua capacidade - mas tudo isso consagrado também à realização de teus sonhos”(Tradução de Hélio Pólvora).

Assim, toda a obra de Faulkner se desnuda à nossa frente. Os ensaios de Gérson Pereira dos Santos se desdobram na análise de “As Palmeiras Selvagens”, “A Aldeia”, “A Cidade”, “A Mansão”, “Desça, Moisés”, “Os Invictos”, “Enquanto Agonizo”, “Santuário”, “Luz de Agosto”, “O Som e a Fúria”, “Absalão, Absalão”. Enfim, toda a saga faulkneriana, painel da decadência sulista, dilacerada pelo preconceito racial e pela falência das grandes famílias aristocráticas.

Na segunda parte, os estudos se voltam para Edmond Wilson, com análise dos livros “Rumo À Estação Finlândia”, “A Ferida e o Arco”, “O Castelo de Axel” e “Memória do Condado de Hécate”. A terceira parte é dedicada à obra do irlandês Lawrence Durrell. Gérson Pereira dos Santos examina a famosa tetralogia, “O Quarteto de Alexandria”, cheio de ardência e sexualidade intensa, escrito sob influência do Trópico de Câncer de Henry Miller e de x de Lawrence. A descrição da boêmia, BA cidade grega de Alexandria.

Por fim, estuda a obra de Ingeborg Bachmann, de quem Henrich Boll disse dela se lembraria como se fosse uma garota. Ingeborg Bachmann, que teve um longo affair com Paul Celan, hermético poeta judeu-húngaro, suicida nas águas do Sena.

A morte do romance foi anunciada ao longo do tempo. Na década de vinte, Luckacs viu a narrativa se distanciando da epopéia, perdendo fôlego. Todavia, desde então, passou por muitos experimentos, dentro os quais “Ulisses”, “Orlando”, “O Som e A Fúria”. O gênero, impávido, resiste. Os estudos de Gérson Pereira nos mostram esta força e este ímpeto de sobrevivência.

Carlos Roberto Santos Araujo.
Poeta, autor de Sonetos da Luz Matinal

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