domingo, 31 de janeiro de 2010

O Triunfo de Sosígenes Costa


Carlos Roberto Santos Araújo


Se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo, perguntava-se Machado de Assis, em uma de suas crônicas escritas no final do séc. XIX. Parece que o bruxo de Cosme Velho não apreciava os tons dourados. Naqueles tempos, de conservadorismo puritano, o bom gosto pressupunha sobriedade e discrição. Repelia-se a cor solar, espalhafatosa. Em razão disso, o criador do Brás Cubas optava pelas cores escuras e cinzentas, que ele, por intermédio do seu personagem, chamava de “tinta da melancolia”.
Isto demonstra como as cores sempre foram temas prediletos dos poetas. Rimbaud escreveu um soneto célebre em que atribuía a cada vogal uma cor. Mallarmé citou o azul, mais de cinqüentas vezes, em sua obra poética. Cruz e Souza endeusou a cor branca. Garcia Lorca celebrou o “verde que te quiero verde”. E o maior deles, Camões, falou de “uns olhos verdes”, tão verdes como as esmeraldas que Paes Leme nunca achou numa Sabarabuçu de meras turmalinas.
Como tudo tem a sua vez, chegou, um dia, a hora do amarelo. E este, como um Luis XIV redivivo, reinou, absoluto, dominou a pintura e a poesia, para não falar na Indústria da Moda, de tal forma que hoje ele se acha em todas os lugares, envolvendo, voluptuoso, o corpo das elegantes.
No Brasil tropical, ensolarado e sem fronteira, o amarelo, também, teria a sua vez. O amarelo das flores, das aves,dos crepúsculos, do azeite de dendê da nossa culinária. A gradação dos tons, a refração da luz. O amarelo invadiu todos os domínios. E, na literatura, o fez através de poesia do baiano Sosígenes Costa. Este, poeta sensual, esmerou-se em uma poesia visual, olfativa, auditiva. Uma poesia que celebrava a plasticidade do ambiente e se voltava para as cores fortes e para a intensidade de luz. Não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. E sua cor predileta, seria, nada mais e nada menos, que o amarelo. Não teria, como Picasso, uma fase azul, outra, rosa. Não. Seria o puro amarelo. Sua poesia, que nada tinha de intelectiva nem de conceitual, era, ao contrário, feita de imagens, sobretudo de imagens coloridas, de cores quentes e sensuais, sugestivas de um forte erotismo disseminado na paisagem. Como em um Van Gogh tropical, em Sosígenes predomina um amarelo pródigo que, muitas vezes, se desdobra em gradações de “sépia, topázio, abóbora, berilo”, verso de um dos seus sonetos mais belos, “O triunfo do amarelo”.
Inspirado neste título, agora, os escritores Cyro de Mattos e Aleiton Fonseca, prestam homenagem ao poeta de Belmonte, com o livro “o Triunfo de Sosígenes Costa”. O livro reúne ensaios e notas de diversos autores. Heitor Brasileiro levanta os dados biográficos do poeta, e tece considerações a respeito de sua participação na Academia dos Rebeldes, criada em 1927 e extinta em 1931, e que tentava imprimir uma linha independente às letras baianas. O ensaísta, contista e romancista Helio Pólvora, em “Sosígenes e o Modernismo Histórico”, chama a atenção às características pré-modernas do poeta, que reagiu aos cânones da escola de 22. Sua poesia, entretanto, nos diz o lúcido crítico literário, “tinha espírito moderno e trazia no sangue o caráter espontâneo do povo, as caudas pavônicas dos coqueiros, o ruído dos remos nas águas do Jequitinhonha, o pedido de casamento a Mariá, as sereias, as agonias lentas do pôr-do-sol, a roxa flor do cacau”. Gerana Demulakis analisa a mistura de simbolismo e parnasianismo na fatura dos sonetos pavônicos; Cyro de Matos destaca a vertente negra daquela poesia; Rui Povoas analisa a linguagem dos descendentes de escravos, que o poeta utilizou com virtuosismo, em seus poemas africanos; Aleilton Fonseca chama a atenção ao imagismo dos seus versos; Florisvaldo Mattos, poeta também sensorial, examina o cromatismo do belmontino e demonstra o paralelo entre sua obra e os movimentos pictóricos europeus dos fins do século XIX. Jorge Araújo sublinha o exotismo da poesia de Sosígenes e coloca a analogia entre seus poemas negros e os de Jorge de Lima. Maria Berenice Costa envereda pela análise do poema “Case comigo Mariá”, enquanto Cid Seixas observa na poesia de Sosígenes a mistura de mitologias indígena e clássica, no poema Iararana. Celina Scheinowitz refere-se à linguagem deste poema mitológico, ao passo que Marcos Aurélio Souza enfatiza-lhe a autonomia em relação aos movimentos Verde e Amarelo e Antropofagia. Elucidativos são, também, os depoimentos dos irmãos Amado (James e Jorge), de Zélia Gattai e de Waldir Freitas Oliveira, a respeito de episódios da vida do poeta. A última parte do livro é uma coletânea de poemas do homenageado. Percebe-se aqui o bom gosto dos autores, durante a escolha dos textos, pois reuniram os mais significativos poemas de Sosígenes, com ênfase aos sonetos pavônicos.
De uns tempos a esta parte, vários estudos têm sido consagrados ao poeta. Recentemente, à frente de Fundação Cultural de Ilhéus, Hélio Pólvora surpreendeu a comunidade literária brasileira com uma edição, de alto padrão gráfico, da obra poética de Sosígenes, comemorativa do centenário de seu nascimento. Na mesma oportunidade, lançou um CD com belos poemas de Sosígenes, recitados por grandes atores brasileiros. E ainda trouxe a lume uma antologia, “A Sosígenes com carinho”, com estudos críticos e poemas de vários poetas baianos, em homenagem a Sosígenes, além de uma coletânea do poeta. Mais recentemente, o poeta Florisvaldo Mattos fez um estudo técnico de grande profundidade crítica, a respeito da obra de Sosígenes, enfatizando o cromatismo da sua obra.
Tem razão Hélio Pólvora, quando vê em Sosígenes um poeta de expressão pré-modernista, que rejeitou inicialmente a escola moderna, à época chamada de futurista. Isto porque a melhor poesia de Sosígenes é aquela dos Sonetos Pavônicos, nos quais o poeta usa os procedimentos das escolas parnasiana e simbolista. Parnasiano pelo rigor do verso e da métrica, pela perfeição da forma, pelo uso da mitologia clássica e do próprio soneto como o gênero literário de sua preferência. Lembre-se que tal forma poética era simplesmente abominada nos primeiros anos do modernismo brasileiro. Simbolista foi também Sosígenes pela sua plasticidade, pelas sinestesias, pela musicalidade, pelos recursos de aliteração, pelo cromatismo intenso de suas imagens. Tudo isto vinha de Baudelaire, que abriu o caminho para a poesia moderna. Aliás, o autor das Flores do Mal, precursor do moderno, inicia estes procedimentos poéticos, influencia o simbolismo, lança mão de novos recursos, faz o intercâmbio dos sentidos. No soneto Correspondances, ele diz: ‘Comme de longs échos qui de loin se confondent / Dans une ténébreuse et profonde unité, /Vaste comme la nuit et comme la clarté, /Les parfums, les couleurs et les sons se répondent’
Este tipo de correspondência, mistura de cores, sons e perfumes, iria se disseminar, através do movimento simbolista, e, aqui na Bahia, seria largamente utilizada por Sosígenes, durante a gestação dos seus belos sonetos, sobretudo os “pavônicos”. Só depois, Sosígenes aderiu ao Modernismo, através de Iararana, poema mítico, escrito nos moldes do “Cobra Norato”, de Raul Bopp. A poesia brasileira vivia, àquela época, o dilema de ser nacionalista, de buscar raízes brasileiras e procurar sua identidade. “Tupi or not tupi, that is the question”, diziam os poetas dos grupos Antropofagia, do Verde-Amarelo, e Anta. Mario de Andrade, com sua trupe de paulistas, viaja ao Amazonas, em busca de lendas e mitos, à procura do Brasil. Escreve o Poema do Seringueiro e diz: “Este homem é brasileiro que nem eu”. Traz a lume Macunaíma e a Toada do Pai do Mato. Cassiano Ricardo apresenta o Martin Cererê e Oswald publica Pau Brasil. Redescobria-se o Brasil. Foi através destas escolas que Sosígenes participou do modernismo, e escreveu Iararana. Outra vertente que também firmou moda na época foi a valorização da cultura negra. Mario escreve os Poemas da Negra. Jorge de Lima, Raul Bopp e Ascenso Ferreira escrevem poemas com a mesma temática. Sosígenes seguiu também esta trilha e produziu uma série de poemas ‘negros’. Este tipo de poesia, entretanto, voltada para mitos indígenas e negros ficou para trás, precluso. Foi um rápido intermezzo nativista. A geração seguinte, com Drummond, Vinicius, Schmidt, Murilo, Cecília, seguiria outros caminhos, à procura de temas universais. Este desvio da poesia, ao qual Manuel Bandeira não aderiu, simplesmente morreu com o esvaziamento da ideologia das correntes nacionalistas do modernismo.
Acho, pois, que a grande força da poesia de Sosígenes se encontra em sua primeira fase, em que ele é o poeta de linguagem pré-modernista, o sonetista dos pavões, dos crepúsculos, da flora sul baiana. O poeta cromático, sobretudo da cor amarela. Aí, sim, Sosígenes foi supremo, sua poesia se tornou uma fonte de encantamento, e seduziu leitores, produziu êxtase. Vivendo à beira-mar, nos Trópicos, Sosígenes haveria de sofrer a influencia da intensa luz solar, da luminosidade da Região Cacaueira da Bahia, onde o sol, em refração com o verde da floresta, transforma-se no que Mario de Andrade chamava de “pintor de dúzias”. Dissemos acima que, não fosse poeta, Sosígenes teria sido pintor. Aliás, pensando melhor, ele foi pintor. Florisvaldo Mattos, em seu belo estudo sobre Sosígenes, Travessia do Oásis, afirma: “Parece que, em muitos casos, em vez de caneta ou lápis, o poeta maneja pincéis, tantas são as reverberações que o amarelo, o azul o vermelho, em todas as suas gamas, despejam sobre espaços, seres e coisas, potencializando significados, para êxtase de leitores ou ouvintes”. Perfeito. Este é o Sosígenes que ficará: o cantor das cores, dos pássaros, dos perfumes, dos vinhos, dos crepúsculos, dos colibris, e dos pavões, os “pavões de caudas verdes e amarelas”, símbolos da beleza suprema. Com Sosígenes, aprendemos a beleza do amarelo. Ainda bem que nem todos os gostos são iguais.

CRSA é poeta, autor de A Nave Submersa, Lira Destemperada, e Sonetos da Luz Matinal.

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