Silêncio angustiante
O que mais agrada em Telmo Padilha é a linguagem concisa e desprovida de excessos de originalidade. Ele fala sem nenhum esforço, de modo direto, a respeito de coisas simples. Em tempo de poetas derramados, ele se mantém avesso ao brilho das hipérboles. Suas palavras, pronunciadas em tom menor, para não dizem em surdina, têm sabor de música de câmara, atingem, persuasivas, a sensibilidade, e deflagram a emoção: “E contudo é imperioso viver./ Recuar não podes, nem deves /Senão ao teu primeiro quarto / Onde as mesmas sombras te aguardam. // Este és, e esta a tua vida / Teu mundo é o mundo dos outros / E dele separas / apenas pobres migalhas, tristes feridas./ Este é o teu mundo e não o modificas”.
Este poema, Fronteira, é um bom exemplo de sua concisão. O poeta fala de coisas concretas, objetivas, substanciais. Refere-se a si mesmo, ao seu mundo fechado, solitário, sem horizontes, sua vida incomunicável e cheia de limites. Tal é a sua solidão que, usando a forma do diálogo, ele monologa, se dirige a uma segunda pessoa, quase terceira, que não é senão ele mesmo. E aí nos atinge, pois nos identificamos com o seu sofrimento. O seu mundo recluso é também o nosso mundo, sua vida, fechada, como se parece com a vida de todos nós. Vida vivida apenas por viver, pois, como ele nos afirma, “é imperioso”, isto é, compulsório, vivê-la. E ‘recuar’, ou seja, desistir de viver, morrer, não podemos, porque, nas circunstâncias normais, não se escolhe a hora da própria morte: “Há um momento em que nos descobrimos / Mentirosos, inúteis e arrependidos / Mas andamos tanto que seria impossível /Retroceder; então seguimos adiante”.
Assim é Telmo Padilha, um poeta que se realizou plenamente em poemas curtos e diretos como haicais. Nunca fez circunlóquios nem digressões inúteis. Tinha pudor dos excessos. A expressividade de sua poesia está na clareza das suas imagens, nas sugestões que suas metáforas evocam no espírito do leitor. Se o poeta fala em demasia, mete os pés pelas mãos, atrapalha-se, cobre a nudez das imagens com a opacidade das palavras. No poema, como na vida, uma palavra a mais pode pôr tudo a perder. Telmo tinha consciência deste problema e, desde cedo, aprendeu a torcer o pescoço das eloqüências.
Eis mais um exemplo da sua sobriedade: “Tenho pressa / de chegar, /Todo o meu corpo agita-se/ Para frente.//Mas se não chego/ Para onde sigo?// Alguém me grita: Foge! / Obedeço.// A noite é o meu preço”.
Quanta gente passa a vida a experimentar alquimias em laboratórios de fundo de quintal. Procedem a estranhas combinações, misturam elementos incompatíveis entre si e o resultado não é ouro, mas um composto de metais enegrecidos. Telmo recusava-se a estes insólitos empreendimentos. Limitava-se a falar de coisas comuns a todos nós. Sua temática era modesta, porém vertical: o isolamento, a inadequação, a precariedade do ser ante as forças manipuladoras do tempo, do destino, e da morte. Daí seu verso possuir um leve sabor de mágoa e decepção. Porém eram dolorosamente verdadeiros os seus sentimentos, e nos revelavam as nossas próprias fragilidades e inquietudes. Em Telmo predomina o sentimento da angústia existencial: “Oh estes rostos, meu Deus, sob as vigas/ Do olhar que não os salva? Quem os salva/ Quem salva estes rostos sob as vigas?”
Versos doridos como o silêncio de Rilke ante da surdez dos anjos. Como ele, Telmo era poeta de algumas convicções e muitas dúvidas. Grande parte dos seus poemas é constituída de indagações lançadas no ar? E toda dessa angústia nasce da incomunicabilidade das pessoas, da ausência de ternura, em um mundo onde o amor surge como produto mercantil, como mero resultado da troca das mercadorias. Toma lá, da cá. Por este motivo, talvez, o amor não tenha sido tema dominante em sua obra. Ao contrário, passou, batido, por ele. E quando o poeta fala a respeito deste sentimento o faz em tom de lamento, mais como falta do que como presença: “Tudo o que deixou de ser/ Falsa abundancia/ Em falsa primavera”.
O poeta era um atormentado, perdido na noite fechada. Em tom elegíaco concebeu sua obra cheia de mágoas e ressentimentos. Suas queixas, porém, são o justo lamento de um espírito delicado em um mundo bruto que o não compreendeu, de mulheres que lhe recusaram um mínimo de ternura e compreensão. Em Itabuna escreveu discretamente poemas capazes de levar às lágrimas. Textos que, às vezes, transcenderam a solidão e isolamento, falaram de carinho e aconchego, e se tornaram alegres e esperançosos: “Pássaros bicam a sombra/ Recolhendo o alpiste imaginário /Para outros vôos/, E cantam./ E a noite se ilumina/ De solar alegria/ E tudo é tão simples/Que ao menor ruído/Acordamos”.
Telmo Padilha foi um dos melhores poetas que a Bahia produziu na segunda metade do século vinte. Quando veremos todo o conjunto de sua obra reunido em um único volume de suas Poesias Completas, para, assim, fazer uma melhor avaliação de sua contribuição ao processo poético brasileiro?
domingo, 31 de janeiro de 2010
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