Um poema de Mario de Andrade.
Mario de Andrade, que meditou a vulnerabilidade do indivíduo no mundo moderno (“o vento corta os seres pelo meio”) e percebeu o desespero do homem desarvorado na cidade imensa (“As pombas se agarram aos arranha-céus. Faz frio. Faz chuva. E faz angústia”), teve também altos momentos de carinho pela sua cidade natal: “Na Rua Aurora nasci/ Na aurora da minha vida / E numa aurora cresci”. Amou e estremeceu São Paulo. Celebrou-a, desde seu primeiro livro, Paulicéia Desvairada, (“São Paulo, comoção da minha vida!”) até sua ultima coletânea de poemas, Lira Paulistana, (“Quando eu morrer, quero ficar, / Não contem aos meus inimigos, / Sepultado em minha cidade. / Saudade”). Mesmo para o clima hostil de São Paulo ele tinha um sorriso de aprovação: ”Minha Londres das neblinas finas...”. O vento cortante das constantes invernias parecia-lhe alegre e zombeteiro: “O vento é como uma navalha / Nas mãos de um espanhol”. Se na “Meditação sobre o Rio Tietê” ele sofre pelas mazelas paulistanas (“É noite, e tudo é noite/ Sob o arco admirável da Ponte das Bandeiras”.), se em “Viola Quebrada” ele lamenta seu sofrimento pessoal (“Raiva, anseios, luta, vida/ Miséria tudo passou-se / Em São Paulo.”), na maioria das vezes é com olhos de ternura que vê sua cidade: “As rosas...os milhões de rosas paulistanas.”Amava as manhãs paulistas (“Abro a tua porta ainda úmido do orvalho da manhã”), e se apaixonava pelas tardes da sua terra: “Tarde tardonha e sobretudo tarde /Imóvel”.
Milliet chegou a afirmar que Mario em seu amor por São Paulo viveu a sublimação do amor sexual. Sensual, Mario celebrava a vida: “Eu danço manso a dança do ombro/ Eu danço...Não sei mais chorar!...” Como Rimbaud, que proclamava “un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens”, Mario buscava o excesso: “Tarde, recreio do meu dia, é certo, / Que só no teu parar se normaliza / A onda de todos os transbordamentos/ De minha vida inquieta e desregrada”. Jamais choramingava: “A vida é para mim está se vendo/ Uma felicidade sem repouso. / Eu nem sei mais se gozo, pois o gozo/ Só pode ser sentido em se sofrendo”. Esta sensualidade faculta-lhe dizer: “A própria dor é uma felicidade!”. Seus sentidos estão atentos ao ambiente, de modo que um simples perfume de rosa provoca-lhe um estado psicológico especial: “Deve haver aqui perto uma roseira florindo/ Não sei... sinto por mim uma harmonia/ um pouco da imparcialidade que a fadiga traz consigo”.
Se Eliot, em “The Waste Land”, censura abril por ser o mais cruel dos meses, “the cruellest month”, por misturar memória e desejo e compelir raízes preguiçosas com chuvas de primavera, Mario, ao contrário, pelo mesmo motivo, celebra o mês de abril, a que associa lembrança e volúpia: (“Eu encontro em mim mesmo uma espécie de abril” (I – Girassol da madrugada) ou ainda “Oh espelhos, Pireneus, caiçaras insolentes, por que não sereis sempre assim?/ Abril...”(Lira Paulistana). Em muitas destas tardes ele se embevecia diante dos revérberos mortiços dos úmidos crepúsculos do abril paulistano. Como neste
“Poema da amiga
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril.
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar e não sei por que te percebi.
Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa
Mexendo asas azuis dentro da tarde.”
Quem viu São Paulo das tardes de abril e maio, sabe do que Mário está falando. Aliás, outros poetas paulistas também cantaram tais poentes. Guilherme de Almeida o diga. Sérgio Milliet afirmava: “Crepúsculos de abril, ó tão suave/ descanso que precede outro descanso. / São Paulo de abris e maios/ Sabendo a marzipã”. São tardes intimistas, em que os casais se tornam mais carinhosos. Aqui, Mario se reporta a estas tardes outonais, matizadas pelas cores violáceas e desmaiadas da estação de baixas temperaturas, o outono paulistano, de frio moderado. Tardes de raios solares mortiços, filtrados pelas nuvens plúmbeas, pela bruma e pela névoa. Tudo convida à intimidade e ao carinho. Daí o poeta afirmar, num verso de beleza admirável - “A tarde se deitava nos meus olhos”, traduzindo a sensualidade da tarde, felina, voluptuosa.
No verso seguinte, também belíssimo, ele diz: “a fuga da hora me entregava abril”. Em fins de março, ao pôr-do-sol, ao cair da tarde, a passagem do tempo (a fuga da hora) trazia o mês de abril, com seu frio excitante. Tudo isso criava um clima, ‘um ar’ familiar, íntimo, com sabor, não de adeus, mas de até-logo, de promessa de reencontro: “Um sabor familiar de até-logo criava um ar e, não, sei por que te percebi”. O poeta desperta a sua sensualidade, a vontade de amar e a memória da amada. Expectante, sua lembrança se excita, e ele pressente a namorada, (que aqui ele chama de amiga, como nas ‘canções de amigo’ do cancioneiro medieval) ao seu lado, em carne e osso: “Não sei por que, te percebi”. Percebeu-a, ‘sentiu’ sua presença, e se alegrou. Daí o verso seguinte: “Voltei-me em flor”. Agora, ele utiliza a imagem da flor para simbolizar a felicidade, e, no caso concreto, a expressão dessa felicidade, o sorriso. O poeta se volta sorrindo, (em flor), olha em torno, em busca da amada, mas descobre, desiludido, que se enganara, que tudo fora mera impressão, que ninguém estava ali: “Mas era apenas tua lembrança. Estavas longe, doce amiga”. Findo o êxtase, ele se depara com a dura realidade: “E só vi no perfil da cidade/ O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa/ Mexendo asas azuis dentro da tarde”. Frustrado pela ausência da amada, vê somente as sombras (o arcanjo de asas azuis) do arranha-céu cor de rosa, a se projetarem sobre o corpo da cidade antropomórfica, (de perfil) e, como ele, também solitária.
Se em outros poemas Mário se caracteriza pela incontinência verbal, pelas deformações vocabulares, pelo trocadilho, pela alternância de motivos (populares e cultos), pela linguagem marcada, não pela ironia, mas pelo sarcasmo, neste, o autor se revela um mestre de contenção verbal, se desvencilha do retórico, a fim de melhor apreensão do sensível. A captação lírica se depura, a dicção se torna enxuta e equilibrada. Nesta canção de intensa cor local, ele nos mostra São Paulo transfigurada pelas imagens do fantástico. A cidade adquire o aspecto de miragem, sinestésica. As cores cambiantes do crepúsculo se esmaecem em novas cambiantes. Dai, ele falar em arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa. Na hierarquia celeste, os anjos, os arcanjos, os querubins, os serafins, seres de luz e de amor, são espíritos cheios de cores que vão do verde ao róseo. Segundo William Blake, que era um visionário e especialista no assunto, a depender das emoções, os anjos passam do azul intenso dos altíssimos empíreos ao amarelo solar, e deste ao róseo festivo: “So he took his wings, and fled;/ Then the morn blushed rosy red”(Angel) No caso do “Poema da Amiga”, os raios solares, (o arcanjo), se lançam à frente do edifício, iluminam-no e projetam-lhe as sombras (asas azuis), de modo que, à medida que anoitece, o poeta se descobre solitário enquanto a cidade mergulha no reino das imponderabilidades.
Carlos Roberto Santos Araújo.
domingo, 31 de janeiro de 2010
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