VIBRANTE VIOLA VELADA
Hélio Pólvora
Chama-se Viola Ferida o quarto livro de poemas de Carlos Roberto Santos Araujo. O título é colhido em Mário de Andrade, uma de suas admirações. Está em Lira Paulistana, edição póstuma. A viola do poeta era bonita, cresceu com ele nos devaneios, andou pelas Arábias, cantou e namorou em Granada, depois se feriu nas borrascas da vida e veio a se quebrar em São Paulo – logo em São Paulo... Mário produz um belo verso de desabafo: “Minha viola quebrada, / Raiva, anseios, lutas, vida, / Miséria, tudo passou-se / Em São Paulo”.
Mas ainda é cedo, para o poeta Carlos Roberto, natural de Ibirapitanga, no sul baiano, apostrofar as ilusões perdidas. Ele as tem nas imagens do avô e pai fazendeiros, da mãe que já se foi e com quem conversa, na morte dos amigos. É tocado, além disso, pelas imagens duras da decadência do cacau que chegou a esboçar os contornos de uma “civilização” peculiar. Nem por isso a tristeza funda o arrasta. Quando muito, roça-o, com a fímbria da asa de uma borboleta de verão perdida no outono – e deixa um pólen de odor amargo.
Porque ele é, e assim será por enquanto, um poeta da claridade. Poeta solar, do meio-dia, da luz que se reflete, se refracta e se estilhaça. Não será à-toa que uma de suas coletâneas intitula-se Sonetos da Luz Matinal. O poeta sabe que de Babilônia restam ruínas, e que ele, revisitando-a tantas vezes, poderá a ela escravizar-se – mas vê por entre pedras avançar a verde língua do musgo decorativo. A poesia será então passaporte para o amor que salva ou deveria salvar.
Seu lirismo difere do lirismo de Mário e de outros muitos poetas brasileiros. Eqüidistante, porém, de extremos: sem a secura de João Cabral, que alguns ainda procuram imitar em vão, pois ignoram que, ao talhar a pedra, ele cria um novo lirismo — a emoção altamente represada, como que petrificada. Tampouco será o lirismo da emoção desatada. Este, por sinal, é típico de Mario. No “Prefácio Interessantíssimo”, que tanta celeuma despertou, o grande teórico do Modernismo admite irrupções de poesia que após as explosões vulcânicas ele tenta disciplinar. Nem sempre consegue - e a camada discursiva acaba por entrar na composição de versos que pedem a liberdade da obra feita. Mas, se supera o seu furor vulcânico, o grande Mário é capaz de sussurrar, como se gritasse: “Quando eu morrer quero ficar/ Não contem aos meus inimigos,/ Sepultado em minha cidade. / Saudade.” E começa a distribuir os pedaços do corpo morto. O poeta se esquarteja como forma de permanecer inteiro e unido na cidade que ama.
Carlos Roberto é visual. A emoção somente é deflagrada depois de passar pelos olhos. Se escreve um soneto sobre Sosígenes Costa, de quem herdou parte da mitologia grapiúna, juntamente com Florisvaldo Mattos, precisa ver o poeta solitário na praia, ou sob o abano majestoso das caudas dos pavões. No poema sobre o homem só que caminha, incluído nesta coletânea, ele terá de ver, antes, ao menos a sombra do caminhante. Sua poética tem concretude, felizmente. É um fragmento de realidade que, arrancado de uma emoção ainda imprecisa, se metamorfoseia em um objeto autônomo. A lava interior que o queima é domada na recriação dos estados poéticos brutos, para que nos atinja. Por isso o poeta dá impressão de estar sempre a brandir armas – e quando não esgrime os estiletes de uma luminosidade solar, tem as pedras com que provocar em águas estagnadas da memória os sutis avanços de círculos até o infinito inaudível.
Sempre presas a uma origem concreta, suas metáforas apenas sobrecarregam uma realidade sentida ou pressentida, nela impondo os traços aparentemente deformadores dos pintores expressionistas. No belo poema, em versos curtos, quase de balada, de “O homem sozinho”, predomina a lucidez do poeta e da sua criatura:
Mas não se agarra
Aos dias idos
(Tudo se perde
Nos precipícios).
Apenas vive
O dia-a-dia,
O dia que vai,
O dia que vem,
O dia que passa,
Como sombra
Sobre a face
Das águas frias
E desconfia
Da eternidade. Etc.
Há neste poeta, de forma insistente, um espírito crítico desperto. Ele indaga, busca, questiona, duvida. A poética se livra do lugar-comum, ganha alturas, tem um teor de inquirição existencial que lhe transmite substância. Nada é gratuito, nada lançado ao acaso. A poesia conceitua o canto – e por isso o canto soa com diferente timbre. Diremos, animados: “Eis um poeta novo, um poeta que procura fazer-se segundo modelos árduos de expressão e experiência”. Esse poeta está prevenido contra si, contra os outros, contra a vida e as circunstâncias. Razão por que ao seu lirismo inato, de doce enleio no soneto “Certo Dia”, junta-se a ironia, às vezes a apóstrofe ferina, o vitupério. Ele se dá ao amor ao mesmo tempo que o sonega, há um jogo deliberado na tentativa de valorizar palavras e emoções desgastadas.
Talvez seja o soneto a sua forma preferida de expressão. É dos melhores sonetistas novos da língua. E a prova disso vem, no fecho de Viola Ferida, sob forma de uma surpreendente coroa de sonetos. Um desafio, um tour-de-force. Poucos se aventuram em águas de correntes traiçoeiras e torvelinhos. Poucos têm a paciência de escolher o fio, trançar, tramar, infiltrar, corresponder, consumar. O último verso de um dos quinze sonetos inaugurando o soneto seguinte — e assim por diante, até o décimo-quinto, composto com os últimos versos de todos os sonetos da paciente e severa composição de origem medieval. Já autor de uma sextina, incluída em volume anterior, Carlos Roberto aplica sua maestria a essas formas fixas, fechadas, obstinadas, que o Modernismo afastou, mas não baniu, e que por suas mãos ressurgem, modernas e aliciantes. A última coroa de sonetos que lemos foi do poeta Geir Campos, nos idos de 1960 ou 1970.
De resto, reponta neste livro o empenho em variar de formas, com Carlos Roberto Santos Araujo empenhado em expor todo um vocabulário de poesia, todo um hinário de sonoridades, senhor de suas convenções, de seus ritos sagrados, sumo-sacerdote na hora de entoar a elevação.
© 2007-2009 - Hélio Pólvora - Escritor
domingo, 31 de janeiro de 2010
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