Ubi Troia Fuit
Nesta cidade, que nega trégua às narinas,
Conserva seus excretos, destila ácido úrico,
Onde sarjetas escorrem em volta aos tribunais,
E transeuntes tropeçam nas pernas dos mendigos
Que manuseiam seus testículos debaixo das altas marquises;
Nesta, que foi, um dia, Tróia, a Mui Fiel,
E hoje não passa de uma lamentável Cabul,
Sem um sonho sequer, um mito, um homem honrado,
Sem um gesto de carícia, um riso de jubilação;
Nesta, onde busquei sempre, mais que exílios,
Ruivos crepúsculos e nuvens violetas,
E cavei (inútil!) uma fonte de águas limpas
Que me lavasse a alma, da pátina do tempo;
Nesta cidade maldita, opressora de poetas,
De ouvidos moucos às églogas dos seus pastores,
Mísera de outonos, pobre de primaveras,
Pródiga, porém, de verões, milionária de infernos;
Nesta cidade tecida de conjeturas e andrajos,
Embora em parte inchada por dólares e sestércios,
Definitivamente descoroçoei, dela me despeço
E levo só o estrito, o necessário mínimo:
Minhas cinzas e cruzes, tristes túmulos,
Lembrança de mãos inertes, sem desejos,
A urna lacrada dos meus beijos
E alguns poemas de amor, desmantelados.
16.04.09
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Belo Belo... sem ser de Bandeira.
Postar um comentário